A CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA DE SOBRADINHO

Sobradinho

Há mais ou menos vinte anos atrás, durante uma viagem de trabalho ao Recife, ouvi um relato vergonhoso de um empresário local sobre a origem de sua fortuna. Visivelmente alterado pelo álcool durante um jantar, o homem começou a se gabar de suas realizações e, num determinado momento, falou que na época da construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, ele e um grupo de amigos tinham acesso a informações confidenciais sobre as áreas que seriam desapropriadas para a formação do lago e também quais valores seriam pagos em indenização aos proprietários das terras. Muita gente fez fortuna usando este mesmo artifício em inúmeras outras obras por todo o Brasil. Com apoio de corretores de imóveis locais, eles visitavam as terras e convenciam os proprietários, em sua maioria gente simples e analfabeta, que as águas do lago iriam inundar as terras e que eles não receberiam nenhuma indenização. 

Com muita conversa e apresentação de dinheiro vivo, o grupo arrematava as terras a preços irrisórios; com a documentação regularizada nos cartórios locais, o grupo apresentava as escrituras ao departamento da concessionária responsável pela construção e embolsava o valor integral da indenização. Repetido algumas centenas de vezes, o golpe gerou grandes lucros para o grupo e transformou muita gente pobre em miserável. Interessante que durante a elaboração do meu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso, de Educação Ambiental entre os anos de 2004 e 2005, ouvi exatamente a mesma história de antigos moradores de áreas desapropriadas para a construção das represas do Sistema Cantareira no interior do Estado de São Paulo: os mesmos vivaldinos com acesso a informações privilegiadas e gente pobre vendendo suas terras a preço de banana. 

A história de Sobradinho começa no final da década de 1960, época em que o Governo Militar criou a ideologia do “Brasil Grande” e elaborou projetos de grandes obras e empreendimentos bilionários, que prometiam transformar o nosso país em uma das grandes potências mundiais. Entre rodovias, pontes e portos, os planejadores federais criaram planos para a construção de grandes usinas hidrelétricas, que forneceriam a energia necessária para o “país do futuro” – a Usina Hidrelétrica de Sobradinho tornaria a região Nordeste autossuficiente em energia elétrica e a sua barragem regularia as vazões no baixo rio São Francisco. 

Sobradinho começou a ser construída em 1973, num trecho do rio São Francisco a 40 km a jusante das cidades de Juazeiro, no Estado da Bahia, e de Petrolina, em Pernambuco. A Usina foi projetada para gerar 1.050 MW de energia elétrica a partir de 6 unidades geradoras com potência unitária de 175.050 KW. A barragem teria um comprimento total de 12,5 km, com uma altura máxima de 41 metros. A usina entrou em operação em 1979.

Vejam um filme oficial do Governo da época sobre a construção de Sobradinho:

O lago formado a partir da construção da barragem de Sobradinho possui uma capacidade de armazenamento total de 34 bilhões de metros cúbicos de água, com um espelho d’água máximo de 4.214 km². É o maior lago artificial do Brasil em área ocupada e o segundo do mundo, só ficando atrás do Lago Volta na África. Quando o Lago atinge a sua cota máxima de armazenamento, o espelho d’água atinge um comprimento de 350 km e uma largura entre 10 e 40 km. Muitos sertanejos costumam lembrar da profecia de Antônio Conselheiro (1830-1897), que dizia que “o sertão vai virar mar e mar vai virar sertão” ao se referir ao Lago de Sobradinho. 

Ninguém conseguiria construir uma obra tão grandiosa sem gerar impactos sociais, econômicos e ambientais. Muitos desse impactos foram minimizados pela propaganda oficial da época, que tudo fez para destacar apenas os impactos positivos da obra. De acordo com o Movimento Nacional dos Atingidos por Barragem (MAB), foram retirados das áreas alagadas cerca de 70 mil habitantes, sendo aproximadamente 80% deste grupo formado por pequenos produtores rurais e seus familiares. Sete municípios tiveram áreas inundadas: Casa Nova, Sento-Sé, Pilão Arcado e Remanso, que tiveram as suas sedes transferidas e foram bastante afetados; e mais Juazeiro, Xique-Xique e Barra, que sofreram menores impactos. Esses pequenos produtores ocupavam as férteis planícies ao longo das margens e ilhas, adubadas naturalmente pelas cheias anuais do rio São Francisco. Após a desapropriação compulsória, muitos desses antigos produtores foram reassentados em áreas da caatinga e com condições muito menos favoráveis para a produção agrícola. 

No próximo post vamos falar um pouco sobre o traumático processo de transferência compulsória dessas populações. 

 Leia também: 

ADEUS REMANSO, CASA NOVA, SENTO-SE E PILÃO ARCADO

OS RISCOS DE COLAPSO NA BARRAGEM DE SOBRADINHO

SURUBIM: O PEIXE QUE JÁ FOI SÍMBOLO DO RIO SÃO FRANCISCO

7 Comments

  1. Aí pelo menos, foi feito uma grande obra, que durará 200 a 300 anos. Eu acho curioso é que no tempo de Lula na presidência, foi indenizado mais de 40 mil hectares de terras de pecuária forte em Itaju do Colonia, no sul da Bahia, pra retornar as terras aos índios Pataxós, essa mesma área em menor tamanho, foi indenizado no tempo de Getúlio, aos fazendeiros ou aos seus substitutos, coisa curiosa pois lá não foi feita nenhuma obra.

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