ILHA HISPANIOLA: O BERÇO DA COLONIZAÇÃO DO NOVO MUNDO

Fronteira Haiti-República Dominicana

Na última postagem falamos sobre a chegada da cana de açúcar nas ilhas do Mar do Caribe, uma cultura agrícola que modelou os países e os povos da região nos últimos cinco séculos. Um personagem importante dessa saga foi o polêmico navegador Cristóvão Colombo – ele comandou a expedição espanhola que chegou ao Novo Mundo em 1492, ao mesmo tempo em que foi um grande incentivador do plantio da cana e da produção do açúcar, cultura responsável pela devastação ambiental das ilhas.

Em tempos do “politicamente correto” e do revisionismo histórico, a imagem de descobrir da América e fundador do Novo Mundo está sendo cada vez mais relacionada ao holocausto de milhões de indígenas e também como um incentivador da escravidão de negros africanos, que foram trazidos aos milhares para trabalhar nos canaviais das ilhas caribenhas. Polêmicas à parte, vamos entender a história da Ilha Hispaniola.

A Ilha de São Domingos, que no passado foi chamada de Hispaniola, é a segunda maior ilha do Mar do Caribe com uma superfície total de 76 mil km². A ilha abriga dois países – a República Dominicana, que ocupa uma superfície de mais de 48 mil km² das áreas Central e Leste da Ilha. O Haiti, considerado o país mais pobre das Américas, ocupa a faixa Oeste da Ilha, com uma área total de pouco menos de 28 mil km². A população atual da Ilha de São Domingos é de aproximadamente 20 milhões de habitantes, divididos igualmente entre a República Dominicana e o Haiti.

O primeiro assentamento de europeus nas Américas foi o Forte La Navidad, ou Natal, construído em 1492 pela expedição de Cristovão Colombo no Norte do atual Haiti. Meses depois, quando Colombo retornou à Espanha, ele deixou uma pequena guarnição de soldados ocupando esses forte. Em 1493, quando retornou na sua Segunda Expedição, Colombo encontrou o forte completamente destruído após um ataque de indígenas e com todos os seus homens mortos.

Buscando uma localidade mais segura, os espanhóis se dirigiram ao outro lado da ilha, que até então era chamada de Quiqueya pelos indígenas, onde foi fundada a vila La Isabela, que acabou destruída por um furacão em 1496.  A cidade foi reconstruída do outro lado do rio Ozama e recebeu o nome de Nova Isabela, embrião da cidade de Santo Domingo. Os espanhóis batizaram a ilha com o nome de Hispaniola ou Espanhola em português.

Quando os primeiros espanhóis desembarcaram no Novo Mundo, estima-se que haviam perto de 250 mil indígenas, principalmente da tribo dos tainos, vivendo na Ilha Hispaniola. Em 1517, devido a intensa mortandade de nativos devido a epidemias e doenças trazidas pelos europeus e sobre as quais os indígenas não possuíam nenhuma imunidade, esse número estava reduzido a cerca de 14 mil indivíduos. Para suprir a falta de mão de obra para a mineração e para os trabalhos na agricultura, os espanhóis passaram a “importar” escravos africanos a partir de 1501.

A mineração do ouro foi a primeira grande atividade econômica desenvolvida pelos espanhóis na ilha. A produção de açúcar, um produto que era bastante valioso há época e que começou com o desembarque das primeiras mudas de cana de açúcar em 1493, era considera uma espécie de “atividade econômica acessória”. As sucessivas notícias de conquistas de reinos e captura de grandes tesouros metálicos na forma de ouro e prata, especialmente no Império Asteca, no México, e no Império Inca, no Vice-reino do Peru, desestimulavam cada vez mais a economia da Ilha Hispaniola.

A produção de açúcar na Ilha, que no início do século XVI chegou a abrigar cerca de 40 engenhos e teve alguma relevância, ao final desse mesmo século estava praticamente abandonada. Parte considerável dos colonos de origem europeia abandonou Hispaniola e foi tentar a sorte nas Capitanias e Vice-reinos do Continente. A situação de abandono na Ilha Hispaniola chegou a tal ponto que, em 1606, chegou uma ordem do Rei da Espanha para que se evacuasse todos os habitantes da ilha para a cidade de Santo Domingo.

As partes Oeste e Norte da Ilha Hispaniola passaram a ser frequentadas e ocupadas por franceses, ingleses e holandeses, onde foram criadas verdadeiras bases para piratas. Conforme comentamos em postagem anterior, as correntes marítimas e os ventos do Mar do Caribe proporcionavam viagens mais rápidas e fáceis para a Europa, o que levou a Cora da Espanha a concentrar o tráfego de galeões transportadores de ouro e prata expropriados dos indígenas nessas águas. Essa intensa movimentação de riquezas soava como “música” para os ouvidos dos piratas e corsários (que nada mais eram que piratas a serviço de algum reino).

Buscando colocar alguma ordem na situação caótica em que se encontrava a Ilha Hispaniola, a Espanha fez um acordo com a França em 1697 para a cessão da parte Oeste da Ilha. Esse acordo fazia parte do Tratado de Rijswijk, um acordo que envolvia diversas nações e buscava resolver diversos problemas territoriais na Europa e em outras partes do mundo. Esse acordo também oficializava a imigração francesa para a Ilha Hispaniola que vinha ocorrendo sistematicamente desde 1695. Os franceses passaram a chamar a região Oeste da Ilha de Saint-Domingue, nome que depois foi mudado para Haiti.

Ao longo de todo o século XVIII, o Haiti se transformou na mais próspera colônia francesa das Américas e num importante centro produtor de açúcar e de rum. O lado espanhol da Ilha Hispaniola, onde encontramos a atual República Dominicana, ficou praticamente abandonado até o início do século XIX. Após a independência do Haiti em 1804, a República Dominicana passou por um longo período de lutas políticas entre diferentes grupos, ora com alguns tentando uma unificação com o Haiti, ora com grupos lutando pela independência da Espanha, o que só foi conseguido em 1865. Detalharemos a história e os problemas ambientais dos dois países em outras postagens.

Atualmente, a República Dominicana apresenta a maior economia entre todos os países do Mar do Caribe, apesar de ser um país cheio de problemas. A economia dominicana é, aproximadamente, 800% maior que a do Haiti, país que ocupa a última posição entre os países das três Américas. Após cinco séculos da monocultura da cana de açúcar, a Ilha de São Domingos perdeu perto de 70% de sua cobertura vegetal original.

A situação é particularmente caótica no Haiti, onde restam menos de 2% da vegetação nativa. Na República Dominicana, os remanescentes florestais correspondem a cerca de 30% da cobertura nativa original. A foto que ilustra essa postagem mostra a surreal fronteira entre os dois países: do lado esquerdo, o devastado Haiti – na direita, a República Dominicana.

Uma das maiores causas recentes da devastação das florestas na Ilha é a retirada de lenha para uso como fonte de energia, especialmente para as populações cozinharem. O Governo da República Dominicana tem feito grandes esforços para a importação e popularização do uso de GLP – Gás Liquefeito de Petróleo, o que vem contribuindo para uma gradativa redução da pressão sobre as áreas florestais. No Haiti, país que foi devastado por um fortíssimo terremoto em 2010, a situação segue se qualquer controle.

A degradação das áreas florestais está na raiz dos principais problemas ambientais das duas nações que ocupam a Ilha de São Domingos. O principal deles é a destruição de fontes de água e o assoreamento dos corpos d’água, o que tem resultado em escassez de água em muitas regiões e erosão de solos. Um exemplo extremo da situação ambiental na Ilha é Península de San Nicolás, no Haiti, onde a destruição da cobertura florestal e a degradação dos solos criou o maior “deserto” de todas as ilhas do Caribe.

Continuaremos na próxima postagem.

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