AS PEQUENAS ANTILHAS E SEUS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS

Montserrat

Nas últimas postagens falamos dos problemas sociais e ambientais que estão assolando as Grandes Antilhas, as maiores ilhas do Mar do Caribe. São elas Cuba, a maior ilha caribenha, São Domingo, dividida entre a República Dominicana e o Haiti, a Jamaica e também Porto Rico, ilha que recentemente foi elevada à condição de 51º Estado Norte-americano. 

Além dessas ilhas principais, o Mar do Caribe é polvilhado por outras ilhas menores como as Bahamas, as Caymans, as Ilhas Turks Caicos, além de um longo arco de ilhas menores chamadas popularmente de Pequenas Antilhas. Esse arco de ilhas se limita ao Norte com a Ilha de Porto Rico e se estende rumo ao Sul na direção da costa da Venezuela. Essas ilhas são divididas em dois grupos principais – as Ilhas de Barlavento e as Ilhas de Sotavento, além das Ilhas de Barbados, Trinidad e Tobago e Ilhas do Norte da Venezuela – Aruba, Curaçao e Bonaire, pertencentes aos Países Baixos, além do Arquipélago Venezuelano. 

Para a maioria das pessoas, as ilhas caribenhas são uma espécie de “paraíso centro-americano do turismo”, com maravilhosas praias de areias brancas, águas transparentes que vão do verde-esmeralda ao azul-turquesa, recifes de corais cheios de vida e uma infinidade de passatempos e esportes para se curtir em merecidas férias. Entretanto, a realidade da vida no Mar das Caraíbas está muito distante dessas imagens estereotipadas.  

O Mar do Caribe e suas ilhas estão entre as regiões mais ameaçadas do mundo – cerca de 90% dos ecossistemas locais já foram destruídos/comprometidos por ações humanas. Completando o quadro trágico, a região está entre as mais afetadas pelas mudanças climáticas, onde se incluem longos períodos de secas, além de uma incidência cada vez mais frequente de furacões e tempestades tropicais

As ilhas caribenhas foram sendo “descobertas” em sequência a partir da chegada da expedição de Cristóvão Colombo em 1492 ao Novo Mundo. Ao longo várias novas expedições, Colombo e outros exploradores espanhóis foram descobrindo as demais ilhas caribenhas e reivindicando a sua posse em nome da Coroa da Espanha.  

Aqui é importante lembrar que a posse dessas ilhas foi corroborada em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre os Reinos de Portugal e Espanha com a intermediação do Vaticano. Esse tratado estabeleceu um meridiano imaginário que dividiu o Novo Mundo entre Portugal e Espanha – a cidade de Belém do Pará fica bem próxima da posição aproximada desse meridiano. Todas as descobertas no Mar do Caribe pertenciam por direito à Espanha. 

A história colocou um ingrediente novo na equação que mudou os destinos de muitas dessas ilhas – a Reforma Protestante iniciada em 1517 na Alemanha por Martinho Lutero. As teses levantadas por Lutero passaram a questionar a autoridade até então absoluta da Igreja Católica, tanto religiosa quanto política.  

A consolidação de grandes grupos protestantes em países como Inglaterra, França, Holanda, Alemanha e Dinamarca teve reflexos nas ilhas caribenhas. Esses protestantes não estavam obrigados a seguir as orientações do Papa e, dentro das possibilidades, passaram a disputar os territórios espanhóis nas Américas e no Caribe. 

Pouco a pouco, muitas das ilhas caribenhas foram sendo conquistadas por grupos/empresas desses países “protestantes” e, atendendo aos grandes interesses comerciais da época, essas ilhas foram transformadas em grandes plantações de cana de açúcar, tabaco, cacau e especiarias, além de fornecer madeira e outros materiais. Esse uso das terras para fins agrícolas, é claro, resultou em grande devastação das florestas nativas dessas ilhas. 

A grande demanda por mão de obra para os trabalhos nessas ilhas transformou o Mar das Caraíbas num efervescente mercado para a venda de escravos africanos. A mão de obra dos indígenas dos diferentes grupos que habitavam as ilhas sucumbiu em poucas décadas, atingida por doenças trazidas pelos europeus e para as quais esses nativos não tinham imunidade. Poderosos grupos empresariais europeus passaram a se dedicar à lucrativa atividade de tráfico de escravos, que floresceu entre os séculos XVI e início do século XIX.  

A partir do século XIX, a escravidão foi sendo abolida em todas as ilhas e teve início uma série de movimentos pró-independência, que resultaram no nascimento de várias nações livres. Outras ilhas continuaram como possessões de países da Europa e também dos Estados Unidos. Apesar das diferenças históricas e políticas, todas essas ilhas mantém um alto grau de dependência da agricultura e enfrentam problemas semelhantes. 

Para não nos estendermos muito na análise dos problemas de todas as ilhas, vamos mostrar apenas algumas das ilhas. Comecemos pela Ilha de Guadalupe, um departamento ultramarino da França. A agricultura sempre foi a base da economia de Guadalupe, especialmente a produção e a exportação de açúcar e bananas. Há vários anos, porém, os rendimentos com essas exportações não têm sido suficientes para sustentar os 400 mil habitantes da ilha.  

A produção local de alimentos, por exemplo, não consegue atender as necessidades da população e a ilha precisa importar cerca de 10 mil toneladas de alimentos a cada ano. A salvação da “lavoura”, no sentido literal, vem sendo o turismo, atividade que ganha cada vez maior importância na economia local. 

A Dominica é outra ilha que sempre dependeu muito da produção agrícola, especialmente da produção e exportação de bananas. Nas últimas décadas, o Governo local passou a estimular uma diversificação das culturas agrícolas e a Dominica passou a produzir café, babosa, patchouli, flores e frutas como manga, goiaba e mamão. Desde 2006, o crescimento econômico da ilha tem sido fortemente influenciado pelo turismo e setor de serviços. 

Barbuda é outro exemplo de ilha caribenha que passou a depender economicamente do turismo. A economia da ilha sempre foi baseada na agricultura, principalmente de culturas como a cana de açúcar, algodão e frutas como mamão, goiaba, laranja, abacaxi e limão. Com o crescimento da população, os rendimentos gerados por essas culturas passaram a ser insuficientes para manter a balança de pagamentos e as receitas com o turismo e os setores de serviços passaram a ganhar importância. 

Como um último exemplo, vou citar a pequena ilha de Montserrat, que durante vários séculos foi uma grande produtora de açúcar. A partir de 1869, se valendo de uma crise vivida naquele momento pela indústria do açúcar, uma grande empresa passou a comprar terras na ilha e passou a plantar limoeiros e a produzir suco de limão, o que se tornou uma fonte de renda importante para a ilha.  

Em 1995, Montserrat foi surpreendida com o surgimento de um grande problema: o vulcão Soufrière Hills despertou de um longo período de inatividade e entrou em erupção (vide foto). Derramamentos de lava atingiram cidades e campos agrícolas como mostrado na figura abaixo, criando paisagens surreais. O evento forçou a evacuação de cidades e áreas agrícolas – toda a população acabou concentrada na parte Norte da ilha, o que corresponde a 40% do território. Todo o restante da ilha é considerado uma área de exclusão e não pode ser usado, principalmente para fins agrícolas, por razões de segurança. 

Montserrat derramamento de lava

As mudanças climáticas globais estão sendo sentidas nas ilhas do Mar do Caribe através de mudanças nos padrões das chuvas. Graças ao clima tropical de toda a região, o Caribe sempre foi marcado por duas temporadas bastante definidas – uma forte temporada de chuvas, bastante parecida com o nosso inverno amazônico, e uma temporada de seca. A produção agrícola nas diferentes ilhas sempre foi sincronizada com esses períodos. Nos últimos anos, entretanto, fortes secas têm atingido as ilhas e prejudicado a produção agrícola. 

Outro problema que vem crescendo nos últimos anos é a incidência cada vez mais frequente de furacões e fortes tempestades tropicais, que causam danos materiais graves na infraestrutura das ilhas. Além de danos em residências, fazendas e empresas de todos os tipos, esses eventos climáticos extremos causam danos em hotéis e resorts, aeroportos e campos de pouso, marinas e outras estruturas usadas pelo turismo. Os ventos e as fortes ondas também danificam praias e recifes de coral, além de destruir remanescentes florestais. A soma de todos esses problemas afeta fortemente as principais fontes de renda das ilhas e causa enormes prejuízos para a economia locais. 

Muito longe dos paraísos turísticos mostrados nos anúncios das agências de turismo, o Caribe e suas ilhas estão sofrendo com inúmeros problemas ambientais e sociais, que só aumentarão nos próximos anos. 

 

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