A CONQUISTA DO RIO AMAZONAS POR FRANCISCO DE ORELLANA EM 1541

Mapa rio Amazonas

As primeiras expedições espanholas ao Novo Mundo, a partir de 1492, levaram os grandes navios direto para a região do Caribe, onde ilha após ilha, o mapa das novas terras foi sendo desenhado. Hispaniola, Cuba, Jamaica, pequenas e grandes Antilhas, até o desembarque no continente em terras da América Central. A expedição de Vicente Yañez Pinzon, que descobriu a foz do rio Amazonas em 1500, também acabou se dirigindo para a região do Caribe.

Em 1513, Vasco Nuñes de Balboa (1475-1519) descobriu que através de um caminho terrestre não muito extenso no Panamá se chegava ao Oceano Pacífico. Será nas cercanias deste caminho que, quatro séculos mais tarde, será construído o magnífico Canal do Panamá. Esse caminho era infinitamente mais curto que a longa rota para o Oceano Pacífico que seria encontrada por Fernão de Magalhães em 1520, atravessando o estreito que leva seu nome no extremo Sul do continente. Mas a conquista do México e de todos os tesouros do império asteca por Fernando Cortês em 1520, desviou a atenção dos conquistadores desta descoberta.  

Ao longo dos anos posteriores, os espanhóis navegaram a partir do Panamá rumo ao Sul do Oceano Pacífico, ampliando paulatinamente seus domínios. Foi através desta passagem que partiu, em 1533, a expedição de Francisco Pizarro (1476-1541), o grande conquistador do Império Inca – 150 homens que, com muita traição e esperteza, realizaram uma das maiores proezas militares de todos os tempos. Os tesouros de Atahualpa foram tomados pelos espanhóis e Pizarro se transformou no Vice-Rei do Peru. A colonização espanhola nesta parte da Amazônia se concentrou neste pequeno trecho da costa do Oceano Pacífico.  

Em 1545, os espanhóis descobririam acidentalmente as gigantescas minas de prata de Potosi, na Bolívia. A prata de Potosi e o ouro do Peru e do México deixaram os espanhóis extremamente ocupados  por várias décadas. Em terras do Reino de Portugal aqui na América do Sul, foi o plantio da cana e a produção do açúcar a ocupar todas as atenções e esforços dos portugueses. No vácuo entre espanhóis e portugueses, a Amazônia ficou esquecida e desconhecida do mundo. A imagem que ilustra essa postagem apresenta um “mapa” do rio Amazonas do atlas do cartógrafo português Diego Homem, publicado em 1565, que mostra o total desconhecimento que se tinha de toda a Região Amazônica há época.

A concentração de colonizadores espanhóis no Caribe e costas do Oceano Pacífico, e de portugueses na faixa Leste do Brasil, foi extremamente benéfica para a região Amazônica, que ficou isolada, literalmente, por séculos. Se não fosse por esse isolamento, a Amazônia já teria sucumbido há mais tempo ao machado e ao fogo dos colonizadores, a exemplo da maior parte Mata Atlântica. Outro fator determinante a favor da Amazônia foi a grande concentração de florestas e de selvagens. Europeus brancos ocidentais do início da Idade Moderna se julgavam muito acima da natureza – e podendo ficar longe dela, melhor; para o gosto desses homens já haviam suficientes índios e matas nas faixas costeiras do Leste português e ouro e prata no Oeste espanhol – para que arrumar mais problemas? Enquanto nada mais estimulante ou novas riquezas surgissem, esses colonizadores continuariam onde já haviam se estabelecido.  

Legalmente, o Amazonas era espanhol – o Tratado de Tordesilhas assinado entre os Reinos de Portugal e de Castela indicava claramente sua localização na faixa de terras a Oeste daquela linha imaginária que dividiu o Novo Mundo. Pela falta de recursos técnicos na época para a localização geográfica precisa do Meridiano de Tordesilhas, diferentes cartógrafos, portugueses e espanhóis, fizeram as suas projeções nos mapas –em todas essas projeções do Meridiano, a maior parte da Amazônia sempre ficava no lado espanhol.   

A primeira expedição espanhola que se dispôs a se aventurar pelo coração da região Amazônica foi organizada por Francisco de Orellana (1490 – c. 1550). Orellana era espanhol de Trujillo, terra natal da família Pizarro, importante sobrenome na história da conquista da América, clã familiar ao qual ele próprio pertencia. Veio para a América com dezesseis anos. Sua ligação com os Pizarro foi muito importante – muitos destes ocupavam posições chave nos governos locais, especialmente no Panamá.  

Acompanhando o grande conquistador Francisco Pizarro, o jovem Francisco de Orellana, participou dos ataques a Lima, Trujillo e Cuzco. O jovem hidalgo conquistou muita honra e ouro, é claro – nobres espanhóis, na época, vinham para o Novo Mundo para conquistar riquezas. Numa destas batalhas, Francisco de Orellana perdeu um olho, que foi atingido por uma flecha indígena.  

Por volta de 1540, ocioso e dono de muitas posses, Francisco de Orellana ouviu falar de uma expedição que estava sendo organizada por Gonzalo, irmão caçula da família Pizarro. Esta expedição se dirigiria para o centro da Floresta Amazônica, do outro lado da Cordilheira dos Andes. Circulava entre os espanhóis o testemunho de vários índios, onde se descrevia a mítica história de um rei local, que nunca usava roupas: ele se vestia unicamente com ouro em pó. Todas as manhãs ele tinha seu corpo untado com óleo e recoberto com ouro em pó; ele tomava banho todas às noites em um lago para ‘limpar seu corpo’. Essa é a origem da lenda do El Dorado, que aparece em muitos registros da época.  

Os espanhóis encontraram tantas riquezas na América e se deparam com tamanha grandiosidade nos impérios Asteca e Maia, que a ideia de um lago com fundo coberto de ouro em pó dos banhos desse rei fazia sentido e deve ter sido a mais encantadora das histórias do Peru.  

Histórias sobre o El Dorado já circulavam em todos os territórios espanhóis no Novo Mundo há alguns anos e muitos fidalgos tinham planos de encontrá-lo. Em 1529, Diego de Ordáz, militar que participou da conquista do México junto com Fernando Cortês e que realizou expedições exploratórias no Panamá e na Colômbia, solicitou o direito de explorar as terras míticas, que imaginava encontrar-se dentro dos atuais territórios da Colômbia e Venezuela. Sua expedição explorou regiões marginais da Amazônia e descobriu e explorou o rio Orenoco, mas não conseguiu encontrar o lendário El Dorado. Morreu em 1532 no naufrágio de sua nau quando a expedição iniciava o retorno para a Espanha.  

A expedição de Gonzalo Pizarro foi montada com tudo o que fosse necessário para conquistar o El Dorado: mais de duzentos espanhóis, quatro mil índios, milhares de cavalos e suprimentos para meses de viagem. Partiram de Lima em 1541 e, depois de alguns penosos meses de viagem, por entre pântanos, selvas e rios, a grande expedição se limitava a um punhado de homens famintos e desesperados. As doenças, a fome e a hostilidade das tribos indígenas da floresta (que não guardavam semelhança alguma com os civilizados Incas das montanhas e altiplanos dos Andes) destruíram o sonho espanhol. Orellana e Pizarro se desentendem.   

Francisco de Orellana e um pequeno grupo resolvem continuar seguindo os rios da região numa pequena flotilha de canoas, em direção ao Oceano Atlântico, que imaginavam não estar tão distante. Pizarro decidiu voltar para o Peru. Os dois grupos conseguiram atingir seus objetivos: Pizarro retornou a Quito com um grupo de cem homens esfarrapados e atormentados pela fome; Orellana atingiu o Oceano Atlântico depois de nove meses de penosa viagem correnteza abaixo; sua expedição estava reduzida a um grupo com vinte e seis homens. A grande expedição em busca do El Dorado durou dezenove meses, custou milhares de vidas e não encontrou nenhum ouro.  

Orellana ainda conseguiu voltar para a Espanha e tudo fez para conseguir montar uma nova expedição para voltar a explorar o Rio Amazonas, que ele e seu grupo tiveram o privilégio de percorrer pela primeira vez desde próximo da nascente, nos Andes, até a foz no Oceano Atlântico; o alto custo, tanto material quanto em vidas humanas, enterrou momentaneamente o interesse espanhol pela região.  

Anos depois dessa trágica expedição, os espanhóis organizariam uma nova empreitada em busca das riquezas do El Dorado. Essa grandiosa expedição sairia de Lima em 1559, tendo no comando um nobre espanhol – Pedro de Ursúa, e passaria para a história como um sinônimo de traição, que em espanhol é chamada de maraña. Foi justamente essa traição a inspiração para o batismo de um dos principais afluentes do trecho inicial do rio Amazonas – o rio Marañón. 

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