OS PRECIOSOS DIAMANTES DA SERRA DOS CRISTAIS, OU FALANDO DA CIDADE DE DIAMANTINA

Diamantina

A Serra dos Cristais, também conhecida como Serra do Rio Grande, já foi um grande deserto há cerca de 1,8 bilhão de anos atrás. Era um deserto de areias planas, com dunas pequenas e sem nenhuma vegetação. Naquele período, conhecido na geologia como Paleoproterozoico (na escala do Tempo Geológico, refere-se ao período entre 2,5 e 1,6 bilhão de anos atrás), o clima da região era extremamente árido e chovia muito pouco – quando chovia, porém, eram verdadeiras tempestades, que formavam fortes enxurradas que carreavam grandes quantidades de sedimentos.

As rochas que formam a atual Serra dos Cristais, que sofreram forte soerguimento e intemperismos ao longo das eras, são testemunhas desse passado longínquo – mais de 80% das rochas são de origem sedimentar, que se formaram a partir das camadas de areias do deserto, e o restante é formado por conglomerados de cascalhos, agrupados por força das grandes enxurradas. Esses tipos de rochas, que são altamente permeáveis e porosas, permitem a acumulação de grandes volumes da água das chuvas e proporcionam o surgimento de nascentes e afloramentos de águas. De forma muito resumida, é mais ou menos essa a história geológica da Serra dos Cristais, um dos trechos da Serra do Espinhaço na região Centro-Norte do Estado de Minas Gerais. 

Para contar a história mais recente da região, precisamos voltar ao início do século XVIII, quando bandeirantes paulistas passaram a vasculhar os rios e riachos da Serra na “catta preta” ou cata às pretas, as pedras escuras onde se pode encontrar as pepitas  e/ou pequenos fragmentos de ouro. Esses exploradores acharam inicialmente o ouro, e, anos depois, os cobiçados diamantes. Em 1713, fundaram na região um pequeno povoado, o Arraial do Tijuco – a palavra tijuco tem origem Tupi e significa lama. O nome está associado aos pântanos que se formavam na beira dos rios nos locais onde se estabeleciam os garimpos. O nome Arraial do Tijuco identificou o povoamento por mais de um século. 

As primeiras notícias sobre os achados de diamantes na Serra dos Cristais, evento que está diretamente ligado ao nome dado à região e que deram ao Brasil o título de primeiro grande produtor moderno dessas pedras preciosas, datam de 1729. Inicialmente, a busca e a exploração do ouro e dos diamantes nessa região eram de livre extração, com a obrigatoriedade do pagamento do Quinto à Coroa Portuguesa. Pedras preciosas como os diamantes, ao contrário do pesado ouro, eram bem fáceis de esconder e assim sonegar o pagamento dos impostos. Quando as autoridades Coloniais perceberam o grande volume de pedras preciosas que estava sendo contrabandeado, especialmente para a Inglaterra, a região foi completamente isolada e passou a ser vigiada por tropas militares sob ordens do Governador Geral do Brasil. 

O Governo Colonial, seguindo instruções vindas da Coroa Portuguesa, criou um território fechado, que passou a ser chamado de Distrito Diamantino, onde era necessária a obtenção de uma outorga real para a exploração mineral e pela qual se pagava uma quantia fixa pelo direito de exploração. Em 1771 esse sistema foi modificado e a Fazenda Real assumiu o monopólio da exploração dos diamantes. Foi criada a Junta da Administração Geral dos Diamantes, que ficava sob o comando de um intendente.  

Em 1831, a riqueza gerada pela produção de diamantes fez com que a próspera cidade mudasse seu nome para Diamantina (vide foto). Há um detalhe importante aqui – as reservas auríferas em outras regiões de Minas Gerais, como nas famosas cidades de Ouro Preto, Ouro Branco e São João Del Rey, haviam se esgotado nas últimas décadas do século XVIII e essas antigas e ricas cidades viviam o auge da decadência econômica. 

É virtualmente impossível se falar em Diamantina sem lembrar de alguns dos seus mais ilustres filhos, especialmente da quase mítica Chica da Silva (1732-1796), a “escrava que virou rainha”. A história de amor entre essa escrava e João Fernandes de Oliveira, o intendente do Distrito Diamantino e um dos homens mais ricos do Brasil Colônia, marcou para sempre a história da cidade. O casal teve 13 filhos e vivia num palacete na cidade. 

Segundo algumas estórias (quiçá sejam lendas), a opulência e a ostentação de Chica da Silva eram tão grandes que ela mandou construir um grande lago dentro de sua propriedade; dentro desse lago foi construído um galeão (grande navio a vela da época) em tamanho real, dentro do qual a família realizava festas e bailes. Segundo documentos da época, a ex-escrava Chica da Silva chegou a possuir, ironicamente, mais de 100 escravos, que eram alugados a terceiros para trabalhar nas minas. 

Outro personagem histórico com origem na cidade foi José da Silva e Oliveira Rolim (1747-1835), que era filho de um intendente de diamantes e casado com Quitéria Rita, uma das filhas de Chica da Silva. Envolvido em diversos negócios ilegais e com o contrabando de diamantes, Oliveira Rolim entrou para a vida eclesiástica para fugir da prisão. Foi ordenado padre em 1779 em Coimbra – Portugal, passando a ser conhecido como Padre Rolim. No final da década de 1780, ele se envolveu com Tiradentes e outros revoltosos na chamada Inconfidência Mineira, o que lhe resultou em uma pena de 15 anos de prisão em Portugal e confisco de todos os bens. Após ser solto em 1805, voltou para o Brasil, onde passou a lutar para reaver seus bens – após a Independência do Brasil em 1822, conseguiu receber apenas uma indenização. 

Finalizando, um personagem contemporâneo da vida brasileira que nasceu em Diamantina: Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). Foi médico, oficial da polícia militar de Minas Gerais, Governador e Presidente da República entre 1956 e 1961, período em que realizou um dos feitos mais marcantes da moderna história do Brasil – a construção da cidade de Brasília, que em 1960 passou a ser a nova capital do país. 

A imponente Serra dos Cristais e a belíssima cidade histórica de Diamantina, elevada em 1999 à condição de Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, são apenas parte das riquezas locais da Serra do Espinhaço – a “ecologia humana” da região também demonstra todo o seu valor com suas inúmeras histórias e lendas, serenatas e vesperatas, além de uma rica tradição folclórica. 

 

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