A DEVASTAÇÃO DAS FLORESTAS CENTRO-AMERICANAS E O DECLÍNIO DA CIVILIZAÇÃO MAIA

Tikal

Nas postagens anteriores falamos dos incêndios florestais realizados por diversas nações indígenas da América do Norte, incêndios esses que provocaram grandes mudanças nas paisagens ecológicas de várias regiões, como nas Pradarias, e resultaram em alterações significativas das populações de diversas plantas e animais. Esse perfil “incendiário” desses indígenas contrasta com a imagem de protetores da natureza, rótulo criado por muitos grupos ecologistas. Como qualquer outro grande grupo humano com necessidade de grandes volumes de alimentos, esses índios se valeram da força do fogo para criar áreas agrícolas e abrir campos abertos para a caça. 

Vamos deslocar o nosso foco para a América Central, a região mais densamente habitada em tempos pré-Colombianos. Foi nessa região que surgiram e floresceram alguns dos mais impressionantes impérios do Novo Mundo, onde merece destaque o grande Império Maia. Os primeiros assentamentos maias na região datam de 1.800 a.C.; o auge dessa civilização, chamado pelos historiadores de Período Clássico, ocorreu entre os anos 250 e 950 d.C., quando a população pode ter chegado à casa dos 13 milhões de habitantes. Então, sem mais nem menos, o grande império que se estendia por toda a Península de Yucatan, começou a se fragmentar. Grandes cidades foram abandonadas e surgiram cidades-estados por todos os lados, sem um governo central. Quando os primeiros conquistadores espanhóis chegaram na América Central no século XVI, encontraram um povo enfraquecido e dividido – 170 anos depois, o último foco de resistência maia seria silenciado para sempre pelos espanhóis. 

Várias teorias foram surgindo, numa tentativa de explicar o colapso do Império Maia: superpopulação, invasão por povos  estrangeiros, colapso de rotas comercias, revolta de populações camponesas, doenças epidêmicas, mudanças climáticas, esgotamento de solos e caça excessiva de megafauna. Uma hipótese levantada há vários anos atrás, a de uma grande seca regional, ganha cada vez um maior espaço nos meios científicos. Um estudo recente, desenvolvido por cientistas da Universidade de Cambridge e da Universidade da Flórida demonstrou a intensidade dessa seca. 

Estudando resíduos minerais dissolvidos em diversas camadas de sedimentos do fundo de um lago da região, os cientistas conseguiram traçar o padrão meteorológico do período de decadência do Império Maia, entre 800 e 1.000 d.C. A análise dos dados permitiu verificar uma redução média na precipitação entre 41 e 54%, sendo que em alguns períodos a redução chegou a 70%. A umidade relativa do ar diminuiu entre 2 a 7%. Essa seca contínua pode ter afetado intensamente a produtividade agrícola, especialmente a cultura do milho, o mais importante alimento consumido pela população

É aqui que chegamos a um aspecto da agricultura praticada pelos maias que nos soará bastante familiar: o fogo era usado para abrir espaços nas matas para a formação de campos agrícolas, onde o milho era semeado diretamente no solo carbonizado. Apesar de possuírem avançados conhecimentos em matemática, astronomia, arquitetura e outras ciências, além de possuir um sistema de escrita que rivalizava com as mais importantes línguas europeias, os maias não possuiam ferramentas metálicas – especialmente arados, fato que colocava a sua agricultura em padrões pré-históricos. Usando ferramentas rudimentares de madeira e sem o uso de técnicas para a preparação dos solos, a produtividade das culturas agrícolas era muito baixa. E a necessidade de alimentar uma população tão grande pode ter levado à queima de quantidades cada vez maiores de florestas (isto é uma das hipóteses) para a criação de campos agrícolas. 

Uma característica física marcante das planícies da Península de Yucatan é a falta de rios – os maias dependiam das chuvas para encher seus reservatórios de água para uso no abastecimento das cidades e na irrigação de lavouras. Conforme comentamos em postagem anterior, o solo fértil é uma combinação de matéria orgânica, água, ar e resíduos minerais – a perda de qualquer um destes componentes compromete a fertilidade e até mesmo a integridade física dos solos. Com a provável queima de grande parte da cobertura florestal, os solos de Yucatan foram perdendo a capacidade de reter volumes expressivos de água, o que comprometeu a capacidade dos solos em reter nutrientes – ficou-se sem as matas, sem a água e sem a produção agrícola, levando assim uma civilização inteira ao colapso.

Existem diversos outros fatores ambientais e climáticos que podem ter contribuído para essa situação crítica, mas a intervenção humana nas florestas de Yucatan, com certeza, teve a sua participação no colapso do Império Maia. Com o passar do tempo, novas peças desse verdadeiro quebra-cabeça serão encontradas e chegaremos cada vez mais perto de respostas concretas sobre as causas do colapso dessa grande civilização.

As florestas voltaram a crescer sobre as terras da Penísula de Yucatan, encobrindo as ruínas das grandes cidades e os monumentos da antiga Civilização Maia (vide foto). Vários povos de origem maia ainda podem ser encontrados em vários países da região – são herdeiros de passado de glórias, porém sem um grande futuro pela frente. Em comum com seus antepassados, a mesma necessidade da terra para produzir o precioso milho – quiçá continuem respeitando os limites da natureza. 

 

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