JAMAICA: TERRA DO AÇÚCAR, DO RUM E DA ”GANJA”

Cannabis na Jamaica

A Jamaica é uma das mais famosas ilhas do Mar do Caribe. Nas últimas décadas ganhou uma enorme projeção mundial graças a um dos seus mais contagiantes ritmos – o reggae, e ao Movimento Rastafári. Entretanto, até um passado recente, o pequeno país era famoso por outro produto típico, “um pouco mais forte” que o ritmo musical – o rum. Destilado a partir do melaço fermentado da cana de açúcar, o rum é uma bebida de forte teor alcoólico, entre 40 e 55° GL. A bebida começou a ser produzida em todo o Caribe a partir do século XVII, época em que os jamaicanos e os haitianos concorriam em busca do título de melhor rum do Caribe. 

O rum da Jamaica é considerado um dos mais fortes e encorpados. A bebida foi popularizada em países da Europa e nos Estados Unidos pelos marinheiros, piratas e corsários, que durante muito tempo fervilhavam no Mar do Caribe em busca dos galeões espanhóis carregados de ouro e prata. Conta-se que esses homens sempre tomavam alguns bons goles de rum antes de atacar algum navio desavisado. 

Com pouco mais de 10 mil km², a Jamaica é a terceira maior ilha das chamadas “Grandes Antilhas” e abriga uma população de aproximadamente 3 milhões de pessoas. A ilha fica localizada ao Sul da Ilha de Cuba e a cerca de 200 km a Oeste da Ilha de Santo Domingo, onde encontramos o Haiti e a República Dominicana. Apesar de muito próximas, cada uma dessas ilhas teve uma história diferente, o que criou problemas parecidos em alguns casos e muito diferentes em outros. 

A Jamaica foi “descoberta” em 1494 por uma expedição liderada por Cristóvão Colombo, já na sua segunda viagem às Américas. Os espanhóis encontraram uma grande população de indígenas tainos e aruaques vivendo em cerca de 200 aldeias por toda a ilha. Em 1509, foi construído o primeiro assentamento europeu na ilha – Sevilha, que acabou sendo abandonado em 1524. Em 1534 foi fundada acidade de San Jago de la Vega, (atual Saint Catherine), elevada à posição de capital da colônia.

Os espanhóis organizaram diversas expedições para exploração da ilha, mas nunca demonstraram um maior interesse na colonização. Nessa época, seus conquistadores estavam expropriando grandes tesouros em ouro e prata no México e no Peru, e todos os olhares estavam fixos na área continental. Em 1655, os britânicos tomaram à força o último forte ainda controlado pelos espanhóis na ilha e assumiram o controle da Jamaica. 

Como aconteceu com a maioria das ilhas do Mar do Caribe, os britânicos transformaram a Jamaica num imenso canavial, com direito a toda a devastação florestal requerida pela atividade. Ao longo de dois séculos, a ilha foi uma grande produtora de açúcar e também a colônia que mais dependia da mão de obra de escravos africanos do Novo Mundo. Na década de 1820, a colônia chegou a produzir anualmente mais de 77 mil toneladas de açúcar

A partir de 1807, quando o tráfico de escravos foi proibido, os ingleses passaram a “importar” chineses e indianos para complementar o quadro de trabalhadores da colônia. Com a abolição da escravidão na Jamaica em 1838, milhares de trabalhadores indianos, mão de obra considerada extremamente barata pelos britânicos, passaram a ser deslocados para a ilha a fim de substituir os antigos escravos nas plantações de cana e produção do açúcar.  

Esses indianos trouxeram as primeiras mudas da Cannabis (vide foto), a conhecida maconha, e popularizaram o hábito de fumar a erva entre os nativos. A “ganja”, nome local da maconha, passaria a fazer parte da vida e da cultura popular dos jamaicanos, participando inclusive de diversos rituais de religiões locais como o conhecido Movimento Rastafári

Ao longo de todo o século XX, a produção agrícola da Jamaica passou a ser diversificada, deixando de ser totalmente dependente da cana e do açúcar. O país passou a produzir e exportar bananas, café, cacau, frutas cítricas, cocos e especiarias. A partir do final da década de 1950, a Jamaica começou a ganhar cada vez mais autonomia em relação ao Reino Unido, conseguindo a sua independência em 1962. Mesmo independente, a ex-colônia mantém uma boa relação com sua antiga metrópole – mais de 85% do açúcar produzido na Jamaica é exportado para a Inglaterra. 

Nas últimas décadas, a produção agrícola vem diminuindo gradativamente a sua participação no PIB – Produto Interno Bruto, da Jamaica, respondendo atualmente por menos de 7%. O setor de serviços, ao contrário, cresceu muito e já responde por mais da metade da economia jamaicana. As áreas ligadas ao turismo são as grandes geradoras de receitas, recebendo mais de 1,3 milhões de turistas a cada ano. 

Outro setor que cresceu muito nos últimos anos foi a mineração, especialmente da bauxita, matéria prima para a produção do alumínio. A mineração, beneficiamento e produção desse metal representa um dos maiores problemas ambientais da Jamaica na atualidade, comprometendo solos, águas e também a qualidade do ar. Esse setor da economia jamaicana é dominado por empresas multinacionais da China.

Conforme já comentamos em uma série anterior de postagens, a mineração é uma das atividades que mais degradam o meio ambiente em todo o mundo. Os problemas começam com a abertura das áreas de cavas, onde florestas e remanescentes florestais são removidos. A escavação dos solos, o transporte e o estocagem temporária dos minérios causam inúmeros problemas nas fontes de água. Outro grave problema são os rejeitos minerais – para a produção de 1 tonelada de alumínio são geradas até 4 toneladas de rejeitos inservíveis

Os depósitos de rejeitos minerais são fontes inesgotáveis de problemas. Expostos às fortes temporadas de chuvas da região do Caribe, esses resíduos absorvem grandes quantidades de águas pluviais, água essa que lixivia (arrasta) partículas de metais pesados como chumbo, arsênico, ferro, estanho e cromo, entre muitos outros, carregando esses elementos para as fontes de água. Acidentes com depósitos de resíduos da mineração, como aconteceu em Mariana e em Brumadinho aqui no Brasil, também são um grande risco. 

Uma das mais problemáticas mineradoras em operação na Jamaica é a empresa estatal chinesa JISCO – Jiuquan Iron and Steel Company. Essa empresa recebeu no último ano, por parte do órgão ambiental da Jamaica, 16 multas judiciais por descumprimento das normas ambientais do país. As principais queixas estão relacionadas à poluição do ar gerada pela unidade de processamento de alumínio e por degradação de corpos d’água com resíduos minerais na área de entorno de um depósito com mais de 250 hectares

Quando a empresa iniciou a produção em sua unidade de processamento de alumínio em 2016, foram anunciados investimentos de mais de US$ 3 bilhões em toda a Jamaica, inclusive com a promessa de construção de uma segunda unidade industrial até 2019 (o que acabou não se concretizando). Esse tipo de anúncio em um país pequeno e pobre “soa como música” para os ouvidos dos políticos. Sedentos por eventuais “compensações financeiras” (entenda-se aqui pagamentos de propinas), esses políticos costumam fazer vista grossa a “eventuais pecados” ambientais que venham a ser cometidos. 

Como sempre costuma acontecer nessas situações, a empresa alega que “não poupa esforços para o monitoramento e controle ambiental de todos os seus processos industriais”. Outra desculpa repetida frequentemente é que a unidade industrial atual está sobrecarregada com a produção. Como parte de seus esforços de relações públicas, a JISCO desenvolve programas de educação para jovens e apoia financeiramente diversas escolas do país. 

Assim como aconteceu na Ilha de São Domingos, a indústria açucareira jamaicana foi responsável pela devastação da maior parte das florestas nativas do país – os maiores fragmentos florestais remanescentes se concentram nas áreas montanhosas da ilha. Os principais atrativos turísticos da Jamaica, assim como em outras ilhas caribenhas, ficam no litoral, o que ajuda a esconder dos turistas a maioria dos problemas ambientais do interior. 

Aos símbolos mais representativos da Jamaica – o reaggae, o açúcar, o rum e a “ganja“, podemos acrescentar os problemas ambientais causados pela mineração. Que coisa mais triste.

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