A CRESCENTE ESCASSEZ DE ÁGUA EM EL SALVADOR, O PAÍS MAIS DESMATADO DA AMÉRICA CENTRAL CONTINENTAL

Cascata de Los Tercios

Ocupando uma área que tem praticamente o mesmo tamanho do Estado brasileiro de Sergipe, El Salvador tem pouco mais de 21 mil km² e é o menor país da América Central continental. Contando com uma população de pouco mais de 6 milhões de habitantes, o país foi, durante muito tempo, altamente dependente da agricultura. No início do século XX, perto de 90% da economia de El Salvador dependia da produção e exportação do café.  

Com o passar do tempo, a produção agrícola foi diversificada, passando a incluir a cana de açúcar, arroz, milho, feijão, sementes oleaginosas e tabaco. Nas últimas décadas, a indústria começou a ganhar algum destaque, especialmente nos setores de processamento de alimentos, bebidas, petróleo, têxteis, móveis e cimento. 

A expansão da agricultura em um país com território tão pequeno resultou numa enorme perda da cobertura vegetal natural – conforme a fonte consultada, essa perda se situa entre 80 e 94%. Esses números colocam El Salvador na segunda posição entre os países das Américas com a maior perda florestal, só ficando atrás do Haiti. Segundo estudos realizados em 2017 pela FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, El Salvador perdeu 30% de sua cobertura vegetal nos últimos 25 anos

De acordo com estudos do Centro Humboldt de El Salvador, esse intenso desmatamento está na raiz dos principais problemas ambientais do país, sendo a principal causa de enchentes, erosão de solos, assoreamento e contaminação das fontes de água do país. Os problemas, infelizmente, são ainda mais graves: a oferta ou disponibilidade atual de água no país está muito próxima da demanda para consumo da população, agricultura e indústria

Além de cada vez mais escassa, a água do país apresenta uma qualidade que vai de mal a pior. De acordo com estimativas do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais de El Salvador, cerca de 90% das fontes de água do país estão contaminadas com esgotos domésticos, resíduos de mineração e metais pesados, lixo e efluentes industriais, entre outros contaminantes, uma situação insustentável

A escassez de água afeta atualmente ¼ da população do país. Nas áreas rurais, mais de 600 mil pessoas não tem acesso a água potável e outras centenas de milhares tem acesso limitado ou intermitente a fontes de água. Nos últimos anos, os aquíferos das regiões do litoral e do centro do país sofreram um rebaixamento de 4 metros, o que, nas palavras da Ministra do Meio Ambiente Lina Pohl, é “extremamente alarmante”. A foto que ilustra essa postagem resume o drama vivido pelo país: ela mostra as pedras da famosa Cascata de Los Tercios, na região de Suchitoto, que nos últimos anos só tem água nos meses de chuva.

Nas áreas rurais, os habitantes de muitas vilas já se habituaram a acordar no meio da madrugada para retirar água dos poços – quem esperar o sol nascer poderá passar o dia com baldes e panelas secas. Nas cidades, o maior problema está na baixa produção de água potável nas estações de tratamento. Como as fontes de água estão muito contaminadas, o simples tratamento convencional com filtração e cloração não está sendo eficaz na potabilização da água. Essas estações estão sendo obrigadas a realizar um tratamento cada vez mais complexo da água e, por falta de infraestrutura, a produção é muito pequena.  

A América Central é uma região do mundo que sempre contou com grande disponibilidade de água. A crise que vem sendo enfrentada por El Salvador é recente e está ligada diretamente a má gestão dos recursos hídricos do país. Além dos desmatamentos e mal uso dos solos em atividades agrícolas, o país sempre foi extremamente conivente com o garimpo de ouro e outras atividades mineradoras.  

Conforme já tratamos em inúmeras postagens anteriores, os resíduos da mineração são extremamente danosos aos recursos hídricos. Expostos às fortes chuvas tropicais, resíduos de metais pesados como chumbo, cádmio, zinco e arsênico são lixiviados e arrastados pelas enxurradas para a calha de riachos e rios. 

No caso dos garimpos de ouro, os problemas são agravados pelo uso de mercúrio nos processos de separação do ouro de outros minerais. O mercúrio, que é um metal em estado líquido, é misturado com os sedimentos e se liga aos fragmentos de ouro, formando uma amálgama. Essa amálgama depois é exposta ao calor de um maçarico, que evapora o mercúrio e deixa apenas o ouro. De acordo com estudos recentes, para se produzir 1 kg de ouro nos garimpos é necessário, na média, o uso de 1,32 kg de mercúrio

Quando a amálgama é queimada pelos garimpeiros, o mercúrio evapora rapidamente e entre 65 e 83% desse vapor é lançado na atmosfera e espalhado pelos ventos, caindo sobre os solos junto com as chuvas. Entre 2 e 7% do mercúrio permanece ligado ao ouro, só sendo eliminado no processo de purificação do metal em fornos de altas temperaturas. O restante do mercúrio volta ao estado líquido, caindo diretamente sobre solos na forma de micro gotículas.

Com a chegada do período das chuvas, todos esses resíduos de mercúrio são arrastados para as calhas dos rios e contaminam as águas. O consumo de água contaminada por mercúrio é prejudicial à saúde humana – o metal se acumula no organismo e pode provocar danos graves no sistema nervoso central, normalmente irreversíveis, que compromentem os sistemas sensoriais e motores.

Para tentar controlar parte desse grande problema, El Salvador se transformou no primeiro país do mundo a proibir a mineração do ouro e de outros metais. Essa medida foi votada e aprovada no Congresso Federal do país em 2017, obtendo 69 votos de um total de 84, com apoio de todos os partidos. Foram quase dez anos de discussões e forte pressão popular. A medida passou a proibir tanto as atividades de mineração de grande porte realizadas por empresas quanto a mineração artesanal dos garimpeiros. 

Uma mudança tão radical na política de um país não ocorre sem se enfrentar grandes problemas. A mineradora multinacional Oceana Gold, que havia ganho uma concessão para exploração de ouro no país, moveu uma ação judicial contra o Governo de El Salvador pedindo uma indenização milionária. Depois de vários anos de embates nos tribunais do país, a Suprema Corte deu ganho de causa ao Governo de El Salvador e a Oceana Gold teve de pagar US$ 8 milhões em despesas judiciais do processo. 

A situação de El Salvador, que já é complicada, poderá ficar ainda pior – projeções indicam que a América Central será uma das regiões mais vulneráveis a eventos climáticos extremos nos próximos anos. Formada por uma faixa estreita de terra seca entre o Oceano Pacífico e o Mar do Caribe, a América Central já é frequentemente assolada por fortes tempestades e furacões. Como resultado das mudanças climáticas que estão em andamento em todo o mundo, a região também poderá ficar sujeita a reduções do volume de chuvas, especialmente por conta de fenômenos como o El Niño

A polêmica proibição das atividades mineradoras no país foi um grande passo, mas muito mais precisará ser feito e rapidamente. É preciso regulamentar adequadamente o uso dos recursos hídricos, investir em sistemas de coleta e tratamento de esgotos, na coleta e destinação dos resíduos sólidos urbanos e industriais, além de se fazer pesados investimentos em programas de reflorestamento e de conservação dos poucos remanescentes florestais que sobraram no país. 

Sabemos que é muita coisa para um país pequeno e pobre fazer, porém, são ações inevitáveis e inadiáveis. A escassez do recurso de hoje poderá se transformar em falta generalizada de água dentro de poucos anos. 

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