BARRAGEM DE SOBRADINHO CONTINUA NA “UTI”, MAS JÁ “RESPIRA SEM AJUDA DE APARELHOS”

Sobradinho

As fortes chuvas que caem em Minas Gerais, Goiás e região Oeste da Bahia têm levado grandes volumes de água para a calha do Rio São Francisco e, lentamente, começam a recuperar o nível da Barragem de Sobradinho, no Norte da Bahia. No último sábado, dia 16 de dezembro, o nível do reservatório atingiu a marca de 4,16% – pode até parecer pouco, mas, há exatamente um mês atrás, o nível da água equivalia a 2,8%. A vazão do rio São Francisco está em 1.200 m³/s – um mês atrás a vazão mal chegava aos 360 m³/s. Com a melhoria do nível do reservatório, a vazão da Barragem está mantida em 600 m³/s, o que ajuda a, pelo menos, manter as condições precárias da foz do rio São Francisco, que como todos devem lembrar, vem sofrendo com a intrusão de água salina. Como eu expressei no título da postagem, usando termos médicos como referência, a situação da Barragem de Sobradinho ainda é muito grave, mas vem apresentando sinais animadores de melhora.

O ano de 2017 foi cheio de baixos e cada vez mais baixos na Barragem de Sobradinho. Em junho, escrevi uma postagem já alertando sobre os riscos de colapso em Sobradinho: o nível das águas estava abaixo dos 15% da capacidade total, o volume mais baixo desde a formação do Lago há 38 anos. Naquela ocasião, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, foi obrigada a reduzir a vazão para 650 m³/s, a menor de sua história, como uma forma de evitar (ou pelo menos adiar) a chegada do reservatório no chamado “volume morto”. A mesma medida foi estendida à Usina Hidrelétrica de Xingó já na região do baixo Rio São Francisco. Essa redução de vazão aumentou os problemas enfrentados na foz do rio São Francisco, especialmente a intrusão ou língua salina: o Velho Chico, sem forças para enfrentar as águas do Oceano Atlântico, sofre cada vez mais com a entrada de águas salgadas na sua calha, fenômeno que torna as águas salobras e afeta o abastecimento de dezenas de cidades, a agricultura, a navegação, a pesca e a vida de dezenas de milhares de habitantes locais.

Todo este esforço acabou não surtindo o efeito esperado – no dia 27 de outubro, a Barragem de Sobradinho entrou no volume morto, com o nível de água no reservatório atingindo a inédita marca de 3,14%. Apesar de toda a região do Semiárido nordestino enfrentar uma das mais fortes estiagens dos últimos 100 anos, os baixos níveis de água na represa de Sobradinho estão associados aos problemas de falta de chuvas nos Estados de Minas Gerais e Goiás75% dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado nestes Estados, que, conforme já comentamos em postagens anteriores, também vêm sofrendo muito com a seca. Em regiões do Norte de Goiás, inclusive, a forte seca fez com que alguns rios perenes secassem completamente nos períodos mais secos dos últimos anos, lembrando muitos rios da região da Caatinga. Com a chegada deste período das chuvas no final de novembro, fortes tempestades passaram a castigar grandes áreas de Minas Gerais e de Goiás, causando enchentes e fortes estragos em algumas cidades. Apesar de todos os prejuízos, as águas destas fortes chuvas chegaram aos afluentes formadores e também ao rio São Francisco e, lentamente, correram para o Norte da Bahia, onde encontraram a Barragem de Sobradinho com um nível abaixo dos 3%. Pouco a pouco, o nível do reservatório foi aumentando e hoje já passou dos 4%. É importante se lembrar que o Verão, época das fortes chuvas nas cabeceiras das principais nascentes formadoras da bacia hidrográfica do São Francisco, só começa no dia 21 de dezembro – muita água ainda há de chegar na Barragem de Sobradinho.

É claro que há motivos de sobra para comemorar; porém, é sempre importante lembrarmos que os problemas na bacia hidrográfica do rio São Francisco são muito sérios e não basta ficar esperando a chegada do período das chuvas para que os volumes de água nas calhas dos rios aumentem. Os problemas em Minas Gerais se acumulam desde o século XVII, quando as primeiras jazidas de ouro foram descobertas no Estado – milhares de aspirantes a garimpeiros abandonaram as regiões produtoras de açúcar no litoral da Colônia e se embrenharam nas matas e rios das Minas Geraes. Costumo comentar que estes “garimpeiros” reviraram todas as pedras e barrancos das margens dos rios mineiros na busca de ouro e diamantes. Em menos de um século, seus esforços produziram o equivalente a 1.000 toneladas de ouro, riqueza que seguiu diretamente para os cofres de Portugal. Como ninguém é de ferro, sabemos que “certos volumes” de ouro foram desviados pelas autoridades e burocratas locais – muitos de vocês devem se lembrar dos “santos-do-pau-oco” que nos contavam nas aulas de História do ensino fundamental. A destruição de matas e de rios iniciada no Ciclo do Ouro só fez crescer até os dias de hoje, reduzindo em muito os caudais e contribuindo para o assoreamento das calhas dos rios que formam a bacia hidrográfica do rio São Francisco.

Em regiões do Cerrado em Goiás, Tocantins e Oeste da Bahia, a destruição das fontes de água é bem mais recente – começou a cerca de meio século com a expansão das culturas de grãos e de pastagens para a criação de gado. O Cerrado, mais conhecido como o Berço das Águas do Brasil, passou a sofrer intensamente com a derrubada de suas matas tão características, que hoje se calcula reduzidas a menos de 50% da cobertura vegetal original. Sem as árvores e arbustos com seus sistemas de raízes profundas, a recarga dos aquíferos do Cerrado está se tornando cada vez mais difícil, o que tem resultado em rios com volumes cada vez menores de água.

O resultado da destruição das matas de Minas Gerais e de áreas de Cerrado por todo o Brasil Central se vê com muita clareza nas poucas águas que o velho rio São Francisco vêm apresentando nos últimos anos – o outrora grandioso Rio da Integração Nacional agora mais parece um filete de água cercado de enormes bancos de areia por todos os lados. É essa destruição sistemática do rio São Francisco que levou a Barragem de Sobradinho ao colapso – sem água não existe um reservatório.

Qualquer melhora no nível da Barragem de Sobradinho deve sempre ser comemorada. A recuperação de todo o potencial do reservatório, porém, é um processo muito mais amplo, que envolve um longo e profundo projeto de recuperação ambiental de toda a bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Isso meus caros, será um trabalho para muitas e muitas gerações.

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