REPÚBLICA DOMINICANA: A ECONOMIA MAIS DINÂMICA DO CARIBE E SEUS MUITOS PROBLEMAS AMBIENTAIS

Punta Cana

A República Dominicana ocupa a maior parte da Ilha de São Domingo (ou Santo Domingo), com uma área total de 48,4 mil km² e com uma população de 10 milhões de habitantes. Aproximadamente 1 milhão de habitantes vivem na capital do país, Santo Domingo. Conforme comentamos na postagem anterior, a Ilha de São Domingo ou Hispaniola foi o berço da colonização das Américas. 

Santo Domingo foi a primeira cidade com ocupação permanente a ser fundada no Continente Americano em 1496. Entre as décadas de 1520 e 1530, a cidade assistiu à construção da Catedral de Santa Maria la Menor, a primeira das Américas, e também a inauguração da primeira universidade americana – Santo Tomás de Aquino, em 1538. Ao longo de todo o século XVI, Santo Domingo e a Ilha Hispaniola gozaram de grande prestígio econômico e político.  

Porém, já no início do século XVII, a Ilha acabou eclipsada pelas grandes conquistas espanholas no continente, perdendo grande parte da sua população e sendo relegada a um segundo plano. Em 1697, como extensão do Tratado de Ryswick e que envolvia diversas potências da época, as Coroas da Espanha e da França chegaram a um acordo para a cessão de toda a faixa Oeste da Ilha Hispaniola para os franceses. A França criou na região o Haiti, uma das mais importantes colônias do Caribe ao longo do século XVIII. 

A República Dominicana só voltou a ganhar relevância em 1804, quando o Haiti se tornou independente. Diferentes grupos políticos locais passaram a lutar pelo poder, com alguns querendo uma união com o Haiti e outros querendo simplesmente a independência da Espanha. O país conquistou a independência em 1844, porém, a Espanha voltou a dominar o país em 1861 e foi somente em 1865 que a República Dominicana consolidou em definitivo a sua autonomia política. 

A história econômica do país pós-independência não mudou muito em relação aos tempos de colônia: o país continuou essencialmente agrícola, com a cana e o açúcar sendo os produtos mais importantes, acompanhados de perto pela produção e processamento de café e tabaco. Politicamente, o país passou a assistir a uma sucessão de ditaduras e de intervenções militares apoiadas pelos Estados Unidos. Entre 1916 e 1924,  inclusive, os Estados Unidos ocuparam e interviram diretamente no país.

Uma das mais longevas ditaduras da República Dominicana foi a de Rafael Leónidas Trujilo, que dirigiu o país com mão de ferro entre 1930 e 1961. Como todo bom ditador latino americano, Trujilo perseguiu e assassinou opositores, prendeu jornalistas, impediu a formação de partidos de oposição, entre outras “maldades”. Ao longo de seu governo, Trujilo se apossou de perto de 70% das terras cultiváveis do país e dominava 90% das indústrias.  

Rafael Trujilo foi assassinado em 1961 e muitos historiadores locais afirmam que a CIA – Central de Inteligência Americana, foi a responsável. Uma junta militar, apoiada pelos Estados Unidos é claro, assumiu o Governo do país até 1966, quando Joaquim Balaguer assumiu a presidência, com um governo autoritário que se extendeu até 1978. Foi somente nas últimas décadas que a República Dominicana conheceu a democracia e a estabilidade econômica.

O país deixou de depender da exportação do açúcar e de outros produtos agrícolas bem recentemente, passando a assistir uma importante diversificação econômica. O setor de serviços, especialmente o turismo, passou a responder por mais de 60% do PIB – Produto Interno Bruto, e por mais de 62% da ocupação de mão de obra na República Dominicana

Entre 2010 e 2018, a República Dominicana foi o principal destino dos investimentos no Caribe, recebendo perto de metade de todos os investimentos estrangeiros diretos da região. Desse total, cerca de 18% dos investimentos se deram em setores ligados ao turismo. O país recebe atualmente perto de 20 milhões de turistas a cada ano, principalmente norte-americanos, canadenses e latino-americanos. Punta Cana (vide foto), no extremo Leste da Ilha de Santo Domingo, é o principal destino turístico dominicano.

O Governo dominicano também criou, há cerca de vinte anos, uma zona franca, que reúne mais de 75 grupos industriais internacionais. Essas indústrias geram cerca de 170 mil empregos diretos e mais de 200 mil indiretos, respondendo atualmente por mais de 30% do PIB dominicano e pela segunda posição de maior empregador de mão de obra do país. O principal destino da produção local é o mercado norte-americano.

Apesar dos recentes bons ventos na economia dominicana, os cinco séculos de monocultura da cana de açúcar deixaram profundas marcas na sociedade e no meio ambiente do país. De acordo com o jornalista e ecologista dominicano Nelson Reyes Estrella, a destruição das florestas está na raiz dos problemas ambientais da República Dominicana. As estimativas mais recentes afirmam que perto de 70% da cobertura vegetal original do país sucumbiu diante do avanço da agric. Essa destruição das matas se reflete em graves problemas de escassez de água e de erosão de solos por toda a ilha (no lado haitiano, esses problemas são ainda mais graves)

Nas últimas décadas, o país passou a fazer grandes esforços para a preservação dos remanescentes florestais – foram criados 74 parques e reservas florestais, com área total equivalente a aproximadamente 30% da superfície do país. Todo esse esforço tardio visa proteger o que restou dos combalidos recursos hídricos do país: 108 rios, cerca de 100 lagoas e um grande lago. Todos esses corpos d’água sofrem com a redução dos caudais, destruição e desmoronamento de margens e com intenso assoreamento

Outro grave problema ambiental apontado por Reyes Estrella é a falta de uma legislação de ordenamento territorial na República Dominicana. Sem um zoneamento ecológico econômico adequado e sem uma fiscalização rígida, é impossível impedir os avanços pontuais de desmatamentos, que ainda ocorrem por todo o país. Além das tradicionais atividades ligadas a agricultura e pecuária, as atividades mineradoras, especialmente de níquel, de ferro e de ouro, crescem sem qualquer controle. 

Por fim, e não menos importante, temos o crescimento desordenado de cidades por toda a ilha. A mudança no perfil econômico do país se refletiu em uma intensa migração de populações das áreas rurais para os centros urbanos. Cerca de 2/3 dos dominicanos vivem atualmente em cidades e convivem com toda uma série de problemas ambientais que conhecemos bem: falta de acesso a redes de abastecimento de água e esgotos, geração de resíduos sólidos e grandes dificuldades para a sua coleta e disposição final, transportes deficientes, entre muitos outros.  

O desemprego é outro gravíssimo problema social que acaba se voltando contra o meio ambiente. Estima-se que 14% da população economicamente ativa do país (números anteriores à pandemia da Covid-19) esteja desempregada. Sem dinheiro para pagar aluguel, essas populações costumam ocupar áreas de encostas de morros, margens de rios e córregos, manguezais e matas ao redor das cidades, nada muito diferente do vemos em grandes cidades brasileiras. Essa massa também se volta contra os remanescentes florestais em busca de madeira e outros materiais para a construção de suas casas, além de depender de lenha para cozinhar.

A maioria dos turistas que visitam a República Dominicana são levados do aeroporto diretamente para os grandes complexos hoteleiros na costa, que funcionam como uma espécie de “ilha da fantasia”. Esses hotéis e resorts foram projetados para mostrar o que há de melhor no Caribe – as maravilhosas praias de águas transparentes, e ficam muito distantes da realidade da população e dos gravíssimos problemas ambientais do país. 

E como diz um velho ditado, o que os olhos não veem, o coração não sente.

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