SAARA: O MAIOR DESERTO DO MUNDO

Saara - Lucas Galuzzi

Quando falamos em deserto, é praticamente impossível não lembrarmos imediatamente do Saara, o maior deserto do mundo. Com mais de 9,2 milhões de km² de área total, ocupa uma superfície 10% maior que todo o território brasileiro, que tem 8,5 milhões de km². O Saara se estende por todo o Norte da África, englobando um total de 12 países: Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Saara Ocidental, Sudão, Sudão do Sul e Tunísia. A população somada de todos estes países está próxima dos 290 milhões de habitantes, porém na região do Saara vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Caso você se recorde, eu comentei em um dos posts anteriores que na Região do Semiárido brasileiro vivem 23,5 milhões de pessoas, numa área equivalente a 10% do Saara – é importante ter esses dados em mente para que você consiga entender uma das causas primárias da desertificação de grandes áreas do semiárido: a superpopulação.

Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes – o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território. Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e desembarcar no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do Saara.

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu um a leve alteração no seu eixo de rotação, que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram. É aqui que entra em cena uma tese interessante, resultado de uma série de pesquisas publicadas nos últimos anos (a pesquisa mais recente foi publicada no último mês de março), para a qual devemos prestar atenção: o processo de desertificação do Norte da África que levou ao surgimento do Saara foi acelerado por ações humanas – evidências arqueológicas indicam que o avanço da criação e pastoreio de animais a partir de 10 mil anos atrás foi acompanhado de um processo de substituição de trechos de matas por pastagens (qualquer semelhança com a queima de árvores da caatinga para a formação de campos não é mera coincidência). Sem a proteção dessas matas e com o avanço das mudanças climáticas naturais e de redução das chuvas, essas regiões tiveram um processo mais rápido de desertificação. O resto é história e geografia.

Estudos científicos desta magnitude, envolvendo uma região tão grande e complexa, é claro, vão necessitar de muitos e muitos anos mais para aprofundar as pesquisas e comprovar todos os resultados nos campos da arqueologia, geologia, botânica, zoologia, geografia física e humana, meteorologia e climatologia, história entre outras ciências. Porém, a analogia entre uma ancestral superexploração dos recursos naturais de áreas de antigas savanas no Norte da África e os processos de desertificação observados em áreas da Região do Semiárido brasileiro devem servir como um alerta. Como descrito no post anterior, as áreas em processo de desertificação grave no Brasil já somam 230 mil km² somente em áreas da caatinga, além de uma área com 69 mil km² na região Norte do Estado de Minas Gerais – lembrando que estas duas regiões concentram a maior parte da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. A derrubada de árvores dos caatingais e do agreste para uso da madeira e da lenha, as queimadas para preparação do solo para agricultura e para formação de pastos, além da criação extensiva de animais – principalmente os caprinos, são ações humanas que, comprovadamente, estão transformando terrenos férteis em áreas desérticas, onde os solos ficam imprestáveis para agricultura e formação de pastos. Muitos de vocês podem até pensar que este processo de desertificação se deve as poucas chuvas que caem nestas regiões – a precipitação média anual de chuvas na nossa Região do Semiárido está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano.

A soma de todos estes problemas ambientais somado à superpopulação que vive na Região do Semiárido colocam o Rio São Francisco cada vez mais sob estresse (ou stress) – toda a região da sua bacia hidrográfica está com seus biomas sob severa pressão ambiental e as necessidades de água da população não param de aumentar. É uma conta que hoje já não fecha e tem todos os componentes para piorar a longo prazo.

5 Comments

  1. […] Todo esse “mundo” de águas doces, porém, não está a salvo de secas grandiosas como aquelas registradas em tempos recentes como 1963, 2005 e 2010, quando rios caudalosos acabaram transformados em filetes d’água. O fluxo de massas de vapor em direção da região Amazônica está no centro da manutenção das chuvas periódicas que alimentam os rios e regulam o clima da região. A velocidade em que mudanças climáticas globais vêm sendo observadas, particularmente em função do Aquecimento Global, poderão afetar drasticamente os volumes de chuvas que chegam anualmente na Amazônia, com consequências imprevisíveis para a flora, a fauna e o clima regional. E um grande exemplo de mudança climática é o Deserto do Saara.  […]

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  2. […] Indesejados no litoral, os criadores e suas boiadas iniciaram um processo maciço de penetração na região do Semiárido Nordestino. Áreas de vegetação de caatinga começaram a ser queimadas para a ampliação das áreas de pastagens e a criação de roças para a agricultura de subsistência. Esse processo de ocupação dos sertões do Nordeste por populações humanas e animais prosseguiu ao longo dos séculos e transformou o Semiárido Brasileiro na região semiárida mais habitada do mundo. Hoje, cerca de 23,5 milhões de pessoas vivem na região do Semiárido Brasileiro, uma população que chega a ser dez vezes maior que a de outras áreas semiáridas do mundo.  […]

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