AS ILHAS, OS VENTOS E AS CORRENTES MARÍTIMAS DO MAR DAS CARAÍBAS

Galeões espanhóis

A América Central é composta por duas áreas distintas – uma massa continental que forma uma espécie de “ponte de terra” entre as Américas do Norte e do Sul, onde encontramos sete países: Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala e Belize. Essa região compreende territórios com uma área total de pouco mais de 522 mil km². 

A segunda área da América Central é insular, onde se encontram 12 países e 22 territórios ilhéus no Mar do Caribe, também chamado de Mar das Caraíbas (em português de Portugal) e Mar das Antilhas. Esse mar ocupa uma área total com mais de 2,75 milhões de km². O mar do Caribe surgiu entre 160 e 180 milhões de anos atrás como consequência da fragmentação dos antigos continentes da Laurasia e Gondwana, quando surgiram as grandes massas de terra que formariam as Américas do Norte e do Sul. 

A região onde se encontra o Mar do Caribe é o ponto de encontro de diversas placas tectônicas. A Placa do Caribe, a principal da região e que conta com cerca de 3,2 milhões de km² de área, é cercada pelas Placas Sul-americana, Norte-americana, Norte dos Andes, do Panamá e dos Cocos, além de um pequeno trecho da Placa de Nasca. Esse encontro de diversas placas tectônicas resultou em uma intensa atividade vulcânica ao longo das áreas e teve como consequência a formação de inúmeras ilhas. 

Essa característica geológica também torna a região sujeita a frequentes abalos sísmicos. Em 2010, citando um exemplo, um catrastófico terremoto atingiu o Haiti, deixando entre 100 e 316 mil mortos,  360 mil feridos e mais de 1,5 milhão de desabrigados. Hoje, por infeliz coincidência, um terremoto com intensidade de 7,4 graus na escala Richter atingiu o Sul do México, no Estados de Oaxaca.

Como normalmente acontece com as ilhas de origem vulcânica, seus solos eram originalmente completamente rochosos. Com o passar do tempo, forças erosivas de chuvas e ventos, além do sol, resultaram em processos de degradação dessas rochas e início a formação dos solos férteis. Sementes de árvores e de plantas de todos os tipos começaram a chegar a essas ilhas carregadas pelos ventos. Esses ventos também carregaram diversas espécies de insetos, principalmente os voadores. Inúmeras espécies de aves das áreas continentais do entorno também acabaram por se estabelecer nas ilhas. 

Correntes marinhas combinadas com a força dos ventos arrastaram troncos de árvores, frutas, sementes e vegetação flutuante para as ilhas, permitindo assim uma lenta colonização dos novos territórios por essas espécies. Essas verdadeiras “jangadas flutuantes” também transportaram como passageiros clandestinos répteis, anfíbios, insetos, vermes e mamíferos, entre outros seres, que, pouco a pouco, passaram a colonizar essas ilhas. 

As diversas oscilações do nível do mar também deram a sua colaboração para a colonização das Ilhas do Caribe com as mais diferentes formas de vida animal e vegetal. Nos períodos de recuo dos oceanos (na última Era do Gelo, o nível dos oceanos sofreu uma baixa de 160 metros), surgiram diversas “pontes” de terra interligando algumas dessas ilhas, o que permitiu a migração de espécies entre os diferentes territórios. Com a subida do nível dos oceanos, essas ilhas voltaram a ficar isoladas e muitas espécies começaram a evoluir de forma independente, criando todo um mosaico de espécies endêmicas. 

A flora atual das Ilhas do Caribe tem cerca de 13 mil espécies de plantas, sendo que mais de 6,5 mil são endêmicas das ilhas. As ilhas abrigam cerca de 500 espécies de répteis, sendo que 94% dessas espécies são endêmicas. Também são encontradas cerca de 170 espécies de anfíbios e cerca de 90 espécies de mamíferos, grande parte delas endêmicas das diferentes ilhas. Influenciadas por diferentes correntes marinhas, as águas do Mar do Caribe abrigam 450 espécies de peixes, sendo 42% delas endêmicas

Além dos inúmeros aspectos ecológicos individuais de cada uma das ilhas, a colonização  humana e a história dos territórios insulares do Mar do Caribe foram influenciadas por características muitos particulares das correntes oceânicas, como a famosa Corrente do Golfo do México, e também das correntes de ventos. A combinação dessas características tornava a navegação a vela entre a América Central e a Europa mais fácil e bem mais rápida do que a mesma navegação entre a América do Sul, em particular o Brasil, e a Europa. 

Os ventos dominantes no Oceano Atlântico são divididos em dois grandes sistemas: o Sistema  Anticiclônico do Atlântico Norte, mais conhecido como Anticiclone dos Açores, e o Sistema Anticiclônico do Atlântico Sul, também conhecido como Anticiclone de Santa Helena. Todos os oceanos são caracterizados por sistemas semelhantes, onde a partir de um centro de alta pressão formam-se movimentos circulares de ventos e de correntes marítimas.  Sem entrar em maiores detalhes, essas diferentes correntes marinhas e de ventos facilitava a navegação a vela entre a Europa e as ilhas do Mar do Caribe e apresentava muito menos dificuldades do que a navegação para a América do Sul.

Exemplificando as diferenças de navegação entre as duas regiões: um galeão espanhol carregado com as riquezas expropriadas do Império Inca e que foram transportadas desde o Peru até o Panamá por via marítima e terrestre, gastava de dois a três meses para navegar até o Porto de Cádiz, no Sul da Espanha. Um mesmo modelo de galeão que saísse de Buenos Aires, na Província de La Plata – atual Argentina, carregado com a prata das Minas de Potosi, gastaria de oito meses a um ano, conforme as condições climáticas, para chegar ao mesmo porto na Espanha.  

Há relatos de galeões que foram danificados em tempestades no Atlântico Sul e que precisaram fazer escalas na costa da África para reparos, tendo levado perto de um ano e meio para completar essa viagem. Devido a essa dificuldade logística, a Coroa de Espanha passou a priorizar o transporte da prata de Potosi usando tropas de mulas através da Cordilheira dos Andes desde a Bolívia até o Vice-Reino do Peru, depois embarcando em navios no Oceano Pacífico até o Panamá, fazendo a travessia por terra até a costa do Mar do Caribe.

Frotas de galões fortemente protegidas por navios de escolta seguiam então do Panamá para a Espanha (vide imagem). Por razões de segurança, os espanhóis costumavam realizar apenas duas viagens dessas frotas a cada ano. Essa grande concentração de embarcações espanholas carregadas com ouro e prata transformou as águas do Mar do Caribe num verdadeiro “paraíso” para os piratas.

Essa facilidade logística nas navegações nessa região logo chamou a atenção de outras potências da Europa, especialmente a Inglaterra, a França e a Holanda, que não pouparam recursos e esforços para tomar parte das ilhas do Caribe dos espanhóis. Como a Coroa da Espanha estava mais preocupada com o saque de tesouros dos Astecas e dos Maias naqueles tempos, ela acabou não gastando recursos para reaver esses territórios perdidos para a “concorrência”. 

Esses territórios conquistados, e depois vários outros pertencentes à Espanha, foram transformados em centros produtores de açúcar, um produto altamente valorizado na Europa naqueles tempos. A história do açúcar nas ilhas do Mar do Caribe será contada na nossa próxima postagem. Como faziam os portugueses em seu extenso território na América do Sul, esses outros reinos europeus também passaram a se valer do tráfico de escravos africanos para suprir seus territórios insulares com a mão de obra necessária para o plantio da cana e a produção do açúcar. 

Os desmatamentos para a abertura de campos para a produção de cana de açúcar estão na raiz dos problemas ambientais das ilhas e também na base da formação das sociedades de praticamente todas as nações e territórios das Caraíbas. Em muitos casos, as ilhas tiveram praticamente toda a sua cobertura vegetal substituída por plantações, o que levou dezenas de espécies animais a extinção. Populações indígenas, como os temidos karibs ou caraíbas e os tainos, foram literalmente varridas do mapa.  

Em Cuba, citando um único exemplo, praticamente não restou nenhum vestígio dos antigos indígenas, a não ser na miscigenação de parte da população. Eu estive na ilha há alguns anos atrás e um dos únicos sinais da existência desses antigos nativos que encontrei foi a marca de uma cerveja local – Hatuey, nome de um antigo cacique dos índios tainos. Já as referências africanas, essas estão por todos os lados da ilha. 

Nas próximas postagens vamos explorar alguns dos graves problemas ambientais desse verdadeiro mosaico de povos e países insulares. 

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