OS ANIMAIS AMEAÇADOS NA REGIÃO DO MAR DO CARIBE, OU VOCÊ CONHECE O SOLENODONTE?

Solenodonte

De acordo com algumas teorias científicas, um grande meteoro atingiu a Península de Iucatã (ou Yucatán em castelhano), no México, há cerca de 65,5 milhões de anos atrás. Esse evento desencadeou uma série de alterações climáticas globais que resultaram na extinção dos dinossauros e na morte de, pelo menos, 75% das espécies vivas do planeta, tanto animais como vegetais. Curiosamente, uma pequena espécie de mamífero que vivia a poucas centenas de quilômetros de Iucatã conseguiu sobreviver à hecatombe planetária e chegou até os nossos dias. Falo aqui do solenodonte, um animal aparentado com as toupeiras e os musaranhos. 

Conhecidos popularmente como almiqui, esses animais só são encontrados nas ilhas de Cuba e de São Domingo no Mar do Caribe. O solenodonte-de-Cuba (Solenodon cubano) e o solenodonte-do-Haiti (Solenodon paradoxus) são muito parecidos e ambos estão em risco iminente de extinção. A espécie cubana (vide foto), inclusive, chegou a ser declarada extinta em 1970. Anos depois, felizmente, alguns animais foram encontrados em um fragmento de mata isolado no extremo Oeste de Cuba.  

Os almiqui podem atingir um comprimento de corpo de até 32 cm, além de contar com uma cauda com aproximadamente 20 cm. A espécie tem hábitos noturnos, sendo um dos poucos mamíferos venenosos existentes no planeta. A espécie, que conviveu com os dinossauros e sobreviveu a uma das maiores extinções em massa de espécies da história, hoje está perigosamente ameaçada pelos intensos desmatamentos e a fragmentação das matas onde tem seus habitats. 

Ainda falando em Cuba, um dos animais locais mais ameaçados é o crocodilo-cubano (Crocodylus rhombifer), uma espécie de réptil nativa da ilha. O animal só é encontrado atualmente na região do Pântano de Zapata, na Ilha de Cuba, e na Ilha da Juventude. A espécie habitou outras ilhas da região no passado e fósseis desse crocodilo já foram encontrados nas ilhas Caymans e Bahamas. 

O crocodilo-cubano é uma espécie de pequeno a médio porte, que pode atingir até 2,3 metros de comprimento e um peso médio de até 80 kg. Existem relatos antigos (e talvez bem exagerados) de espécimes capturados que tinham até 3,5 metros de comprimento e 215 kg de peso. Além da intensa destruição dos seus habitats, a espécie sofre com a caça predatória – a carne do animal é vendida no mercado negro cubano com preços entre US$ 5.00 e US$ 7.00 por kg. 

Uma espécie marinha que já foi abundante em todo o Mar do Caribe e que praticamente desapareceu dessas águas é o manatee ou peixe-boi-marinho (Trichetus manatus). No passado, os peixes-boi-marinhos eram encontrados desde o litoral do Estado da Georgia, na costa Leste dos Estados Unidos, até o litoral do Estado do Rio de Janeiro aqui no Brasil. No Mar do Caribe, a espécie era encontrada numa extensa faixa que atravessa as Bahamas, as Grandes e as Pequenas Antilhas. Essa espécie é “prima” do peixe-boi-da-Amazônia.

Assim como aconteceu no litoral do Brasil, esses animais foram intensamente caçados ao longo de séculos para aproveitamento da sua carne, que segundo os relatos tem o mesmo sabor da carne bovina, e do seu grosso couro. Os peixes-boi-marinhos desapareceram da maioria das ilhas caribenhas há mais de um século. O litoral e as regiões pantanosas do Sul do Estado americano da Flórida estão entre os últimos refúgios dos manatees

Atualmente, uma das maiores ameaças a esses animais são os choques com embarcações, principalmente barcos de pesca, lanchas turísticas e motos aquáticas. A ilha de Gadalupe, um território da França no Caribe, é um exemplo da luta pela preservação da espécie. As autoridades ambientais locais estão se empenhando para a reintrodução da espécie, inclusive com apoio do Brasil.  

Nosso país “emprestou” alguns peixes-boi-marinhos que viviam em tanques do CMA – Centro de Mamíferos Aquáticos, de Itamaracá, em Pernambuco. Os animais foram levados para o Parque Nacional de Guadalupe, onde estão sendo desenvolvidos projetos de reprodução da espécie em cativeiro. Os franceses pretendem soltar os eventuais filhotes nas águas e manguezais ao redor da ilha, de onde desapareceram há cerca de 100 anos. 

A geografia única do Caribe levou à evolução de espécies dentro de um processo conhecido na biologia como endemismo – espécies animais e vegetais originárias das áreas continentais ficaram isoladas nas diferentes ilhas por milhões de anos, levando ao surgimento de uma infinidade de espécies únicas e exclusivas de cada ilha. Um exemplo da riqueza biológica e dos riscos vividos pelas espécies pode ser observado na pequena ilha de Barbados. 

Entre as espécies mais representativas da fauna da ilha está o macaco-verde (Cercopithecus aethiops sabaeus), uma espécie de origem africana (vide foto abaixo), que foi introduzida e se adaptou perfeitamente à ecologia da ilha. Também encontramos o veado-mateiro e a cutia, espécies tipicas da América do Sul que, em algum momento de baixa do nível do oceano em um passado distante, conseguiram migrar para a ilha através de “pontes de terra”. Outra espécie é o jacaré caiman, originário das Américas Central e do Sul, que tem populações isoladas em diversas ilhas caribenhas.

Macaco-verde de Barbados

O Governo local criou uma reserva ecológica para tentar salvar essas espécies – a Barbados Wildlife Reserve. Para muitas espécies locais, como o guaxinim-de-Barbados (Procyon gloveralleni), a extinção chegou muito antes dessa consciência de preservação. 

Um exemplo notável da pressão ambiental sofrida por espécies do Mar do Caribe foi a que se abateu sobre as focas-monge-das-Caraíbas (Monachus tropicalis), um animal extinto há mais de 80 anos. Populações dessas focas eram encontradas em áreas litorâneas continentais do Mar do Caribe desde a Península de Iucatã, no México, até o sul da Flórida, nos Estados Unidos, além das Grandes e Pequenas Antilhas, entre outras ilhas da região. 

Foca-monge-das-Caraíbas

O primeiro relato sobre as focas-monge se deve a Cristóvão Colombo, que em 1493 fez anotações sobre a espécie em seu diário de bordo, descrevendo-a com o nome de “lobo-do-mar”. Colombo enfatizou o tamanho dessa foca, que podia chegar aos 2,4 metros de comprimento e mais de 130 kg de peso, imaginando as suas múltiplas “utilidades” para as populações humanas. As focas-monge foram impiedosamente caçadas ao longo dos séculos devido à sua valiosa pele, considerada excelente para a fabricação de botas, gordura e também pela sua carne.  

Na costa dos Estados Unidos, os pescadores acusavam essas focas de dizimar os cardumes de peixes e, sempre que avistavam um espécime atiravam para matar. A espécie, que era endêmica e abundante em todo o Mar do Caribe, não suportou toda essa pressão – o último exemplar vivo da foca-monge-das-Caraíbas foi avistado em 1932

Além desses exemplos citados, cada uma das diferentes ilhas do Mar do Caribe possui centenas de espécies de animais, insetos, peixes, moluscos, crustáceos, árvores e plantas endêmicas, todas altamente ameaçadas de extinção por causa da devastação da cobertura florestal e de corpos d’água, poluição, super exploração turística de praias e recifes de coral, desastres naturais, entre outras ameaças. 

Cada uma dessas espécies foi um triunfo da evolução e resultado de processos que se desenrolaram ao longo de milhões de anos de isolamento. O desaparecimento de qualquer uma delas é uma perda irreparável para toda a humanidade e pode significar também o desaparecimento de outras espécies – animais e vegetais, interdependentes. 

Um simples e pequeno beija-flor que desaparece de uma ilha, por exemplo, pode significar o fim de alguma espécie de árvore que tem suas flores polinizadas pela ave, além de ameaçar diversas outras espécies – animais e vegetais, que dependam e/ou vivam nessa árvore. Cada uma das ilhas caribenhas possui diversas espécies de beija-flores endêmicos, o que nos dá uma ideia dos riscos ambientais envolvidos. Multiplique esses riscos em razão das inúmeras espécies endêmicas em cada uma das ilhas.

A situação em todo o Caribe é muito grave, mas para muita gente, onde se incluem ecologistas e Governos, é só a “devastação” da Floresta Amazônica que importa.

PS: Hoje é dia do 4ª Aniversário do Blog.

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