AS CACHOEIRAS, AS MATAS E OS MITOS DA SERRA DO CIPÓ

Cachoeira do Tabuleiro

A Serra do Cipó é uma formação rochosa localizada na região Central do Estado de Minas Gerais e faz parte do complexo geológico da Serra do Espinhaço. A formação se distribui entre os municípios de Itambé do Mato Dentro, Jaboticatubas, Morro do Pilar, Nova União, Conceição do Mato Dentro e Santana do Riacho. As formações datam do período Pré-Cambriano e se formaram a partir de depósitos marinhos há cerca de 1,7 bilhão de anos atrás. A área abriga o Parque Nacional da Serra do Cipó, uma Unidade de Conservação (UC) com cerca de 100 mil hectares. 

Localizada a cerca de 90 km do centro da cidade de Belo Horizonte, a Serra do Cipó é um dos trechos mais conhecidos e visitados de toda a Serra do Espinhaço dentro do Estado de Minas Gerais. Essa região apresenta uma das maiores concentrações de cachoeiras de todo Estado, que são um dos grandes atrativos turísticos da formação geológica. No Parque Nacional da Serra do Cipó existem várias cachoeiras abertas para a visitação pública. 

Entre essas quedas d’água, a mais famosa é a Cachoeira do Tabuleiro, considerada a cachoeira mais alta do Estado de Minas Gerais e a terceira do Brasil. São 273 metros de queda d’água, que se precipita abruptamente a partir de uma grande formação rochosa com paredões avermelhados (vide foto). A Cachoeira Farofa, com 270 metros de altura e distribuída em três quedas, é outro destaque. A lista de cachoeiras famosas também inclui a Cachoeira da Capivara, formada por três quedas sucessivas com uma altura total de 220 metros, e a Véu de Noiva, que tem apenas 70 metros de altura, mas surpreende pelo grande volume de água.  

O acesso a todas essas quedas d’água é feito através de várias trilhas, o que torna a visitação ao Parque numa grande aventura. Essas trilhas, que se estendem por vários quilômetros, também são muito utilizadas por ciclistas e visitantes a cavalo. Os rios e riachos formam inúmeras piscinas naturais, que funcionam como uma espécie de “prêmio” para o final de grandes caminhadas. Alguns trechos desses rios possuem águas calmas e convidativas, ideais para a prática de canoagem e stand up padle. Na falta de uma orla marítima mais próxima, os mineiros costumam aproveitar bem as águas dos rios e das piscinas naturais dessa região. 

Além da grande quantidade de recursos hídricos como cachoeiras, piscinas naturais e rios, a Serra do Cipó apresenta paisagens deslumbrantes como grandes formações rochosas, cânions, cavernas e sítios arqueológicos bem preservados. Um dos destaques das paisagens da Serra são os campos rupestres, ecossistemas encontrados ao longo de toda a Serra do Espinhaço, onde se encontram espécies vegetais endêmicas. Esses ambientes ocorrem no topo de serras e chapadões, com altitudes superiores a 900 metros, com afloramentos rochosos onde predominam as gramíneas, arbustos e arvoretas de pequeno porte. Esses ecossistemas ocorrem normalmente em áreas de transição entre o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica

Nos terrenos mais baixos, a vegetação típica do Cerrado predomina, abrigando inúmeras espécies animais e vegetais ameaçados de extinção. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Estado de Minas Gerais é um dos líderes em perda de vegetação nativa – mais de 60% do Cerrado Mineiro já desapareceu. Áreas protegidas como o Parque Nacional da Serra do Cipó se apresentam como uma derradeira esperança para a sobrevivência de animais como o lobo-guará, onças-pardas, gatos-do-mato, veados-campeiros, entre outros, além de inúmeras espécies vegetais nativas do bioma. 

Como a entrada com alimentos (inclusive com ingredientes e apetrechos para churrasco) e com bebidas é bastante limitada nas dependências do Parque, existem inúmeros restaurantes e bares nas regiões lindeiras, o que faz a festa dos turistas, especialmente durante as noites. O destaque, é claro, fica por conta da típica culinária mineira e da boa e saborosa cachaça de alambique. Além da proximidade com a Região Metropolitana de Belo Horizonte, o que facilita o turismo de um dia (os famosos bate-e-volta), existem inúmeros hotéis, pousadas e áreas de camping no entorno da Serra do Cipó, atendendo assim os turistas que vêm de lugares mais distantes.

Como acontece em qualquer lugar do Brasil e especialmente em Minas Gerais, o folclore da Serra do Cipó também é bastante rico. O personagem de maior destaque na cultura popular local foi um andarilho, que vivia nas montanhas com seus dois irmãos – José Patrício, mais conhecido como Juquinha da Serra. Durante décadas, ele foi visto por toda a região colhendo flores, que eram dadas aos turistas em troca de comida, roupas ou qualquer outro objeto. E como costuma acontecer com todos esses tipos populares, surgiram inúmeras lendas e ”causos” sobre a vida de Juquinha da Serra, que morreu em 1983. 

Segundo algumas dessas lendas, Juquinha foi amamentado por uma loba, talvez numa referência a Rômulo e Remo, os mitológicos fundadores da cidade de Roma. Outras conversas falavam que ele comia escorpiões, que fora picado mais de cem vezes por cobras e que tinha mais de cem anos de idade. Um dos “causos” mais marcantes de sua vida é fato de ter morrido por duas vezes – consta que, certo dia, seu corpo foi achado pelos irmãos sem pulso ou batimentos cardíacos. Dizem que, no meio de um triste velório, Juquinha acordou e que se levantou do caixão, assustando todos os presentes. Poucas semanas depois dessa “primeira” morte, Juquinha morreu de verdade.  

Segundo consta, ele sofria de catalepsia, uma doença que produz situações de paralisia  corporal que se parecem com a morte. As “duas mortes” de Juquinha só fizeram aumentar as lendas e fatos reais sobre a sua vida. Em 1987, os Prefeitos das cidades de Alto Pilar e de Conceição do Mato Dentro resolveram prestar uma homenagem ao mais ilustre morador da Serra do Cipó (e, é claro, faturar alguns “trocados” a mais com o turismo) e encomendaram uma estátua de Juquinha para uma artista plástica da região. A estátua (vide foto abaixo), que mostra o personagem sentado, tem quase três metros de altura e foi instalada no alto de um platô com vista privilegiada da Serra do Cipó, de onde é possível se enxergar a Cachoeira da Capivara. 

Coisas bem típicas do Estado de Minas Gerais. É bom demais da conta, sô!

Juquinha da Serra do Cipó

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