OS QUEIJOS E AS ÁGUAS DA SERRA DA CANASTRA

Serra da Canastra

A Serra da Canastra, localizada na região Sudoeste do Estado de Minas Gerais, é um recanto de Cerrado tipicamente mineiro, com muitos morros, rios, clima ameno, pastos naturais e fazendas produtoras de leite. O nome do lugar surgiu a partir da associação da forma do chapadão da serra com um baú usado pelas famílias nos tempos coloniais, que era chamado de canastra. Nos últimos anos, a região passou a ganhar notoriedade em todo o Brasil por causa da qualidade dos seus queijos, que desde de maio de 2008, passaram a integrar o Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, título concedido pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.  

Em 2012, o Queijo Canastra recebeu o Selo de Indicação Geográfica do INPI – Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Desde então, somente sete municípios estão autorizados a produzir os queijos com a denominação Canastra: Bambuí, Delfinópolis, Medeiros, Piumhi, São Roque de Minas, Vargem Bonita e Tapiraí. Com mais este trunfo nas mãos, a Serra da Canastra consolidou ainda mais a sua vocação como importante destino turístico em Minas Gerais. Além dos queijos e da culinária, o que atrai dezenas de milhares de turistas para as cidades da região, a Canastra vem se destacando como um polo de turismo de aventura, especialmente entre os amantes do mountain bike, rafting, trilhas, rapel, cicloturismo, cachoeirismo (rapel nas cachoeiras), entre muitos outros esportes radicais. 

A história geológica da Serra da Canastra é bem interessante e remonta ao tempo da fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana, iniciada a cerca de 160 milhões de anos atrás. A Canastra fazia parte de uma grande cadeia montanhosa com cerca de 800 km de comprimento e 300 km de largura, localizada no centro de Gondwana. Conforme a América do Sul foi se separando e se afastando da África, a movimentação dos solos foi fragmentando essa cadeia montanhosa e surgiram as formações rochosas que deram origem às Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Mar, do Espinhaço e de Maracaju. Essa movimentação de solos também levou à formação de duas depressões, à Nordeste e à Sudoeste, onde se formaram, respectivamente, as bacias hidrográficas dos rios São Francisco e Paraná

Durante a primeira metade do período geológico conhecido como Paleogeno, entre 65 e 40 milhões de anos atrás, houve um aumento brusco da temperatura na região, que passou a conviver com fortíssimos períodos de chuvas. Os maciços rochosos passaram a enfrentar intensa erosão e intemperismo químico, o que moldou as paisagens e produziu alterações na composição química das rochas dos solos, que hoje são ricas em minerais. Para você ter uma ideia desse grau de erosão, a formação rochosa original da Serra da Canastra possuía altitudes superiores a 3.500 metros – hoje, os pontos mais altos do relevo se situam em altitudes de 1.500 metros.  

Esse processo de erosão e de intemperismo, associado à movimentação dos solos, também levou à formação inúmeras de fraturas entre os blocos rochosos e ao acúmulo de fragmentos das rochas decompostas nesses espaços, criando as condições para a infiltração das águas das chuvas e formação de grandes depósitos subterrâneos de água na Serra da Canastra. Toda a formação é uma importante fonte de recursos hídricos, com importantes nascentes e cursos de água. 

Um dos mais importantes rios brasileiros com nascente na Serra da Canastra é o São Francisco. Oficialmente, a nascente do rio fica no município de Medeiros. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Nos paredões e formações rochosas de toda a Canastra existem centenas de pequenas nascentes e afloramentos de água, que vão correndo morro abaixo e se juntando, formando assim cursos d’água que correm na direção das bacias hidrográficas dos rios São Francisco e Paraná. 

Pela sua importância em recursos hídricos, paisagísticos e em vida silvestre, a Serra da Canastra foi transformada em Parque Nacional em 1972 através de decreto. Dos 200 mil hectares previstos inicialmente, somente 83 mil hectares foram efetivamente desapropriados e os antigos proprietários das terras foram indenizado – a área restante não foi regularizada e há dúvidas se algum dia ainda será. O Parque Nacional da Serra da Canastra inclui, entre outros monumentos naturais, o Chapadão da Canastra e a nascente do rio São Francisco. Um dos pontos turísticos mais procurados do Parque é a Casca D’anta, uma cachoeira com 186 metros de altura no rio São Francisco. 

Como acontece em toda a área do Cerrado Brasileiro e já comentamos em diversas postagens aqui no blog, a vegetação nativa desse bioma tem um papel fundamental na recarga dos lençóis subterrâneos de água e aquíferos, o que foi uma razão a mais para a transformação da região da Serra da Canastra em Parque Nacional. As raízes profundas dessa vegetação facilitam a infiltração da água das chuvas nos solos durante o período das chuvas, que tem uma maior intensidade entre os meses de novembro de março. A preservação de espécies animais e vegetais, que vêm sofrendo enorme pressão por conta do avanço das frentes agrícolas em áreas do Cerrado, também estão entre os destaques do Parque Nacional da Serra da Canastra. 

Com paisagens que incluem montanhas, rios, cachoeiras e piscinas naturais, a Serra da Canastra é uma ótima opção de lazer para os amantes do turismo de aventura. Mas se você é do tipo “paradão” e não gosta muito de adrenalina, tudo bem: os queijos e a culinária mineira da Canastra vão conquistar você! 

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