A SERRA DE DEUS-TE-LIVRE, OU FALANDO DA SERRA DE OURO BRANCO

Serra de Ouro Branco

A Serra de Ouro Branco é uma formação rochosa com aproximadamente 20 km de extensão, 1.614 hectares de área e com altitudes médias entre 1.250 e 1.568 metros, que surge abruptamente sobre o relevo nas proximidades da cidade homônima. A formação geológica marca o limite Sul da Serra do Espinhaço, província geológica que se estenderá por mais de 1.000 km na direção Norte, até o interior do Estado da Bahia. Nos tempos do Ciclo do Ouro, que perdurou ao longo de todo o século XVIII, ela era conhecida pelos populares como Serra de Deus-te-livre.  

A Estrada Real, um caminho criado para escoar o ouro e os diamantes extraídos nas Minas Gerais para cidade de Parati, no litoral Sul do Estado do Rio de Janeiro, e que depois seguiam para Portugal, atravessa a Serra de Ouro Branco através de uma passagem difícil. Salteadores e bandidos de todas as espécies se escondiam ao longo dessa passagem, buscando oportunidades de atacar os carregamentos Reais. A prece “Deus te livre” era invocada pelos religiosos nas bênçãos dadas aos soldados e tropeiros que partiam de Ouro Branco e que teriam a difícil missão de cruzar a Serra de Ouro Branco. Vem daí o nome dado pelos populares a Serra.

Apesar de ser relativamente pequena, a Serra de Ouro Branco possui uma grande diversidade de formações vegetais, a começar pelos campos rupestres, sobre os quais falamos na última postagem. O mosaico inclui ainda matas de galerias, capões, afloramentos rochosos, campos de gramíneas, campos de brejos e, por fim, os chamados campos de Vellozia squamata, uma planta conhecida popularmente como canela-de-ema. Muitas das espécies encontradas na Serra são endêmicas, ou seja, só são encontradas na formação.

Além dessa complexa e rica cobertura vegetal, a Serra de Ouro Branco ainda apresenta em suas paisagens inúmeros sítios arqueológicos, antigas fazendas e casarios com arquitetura colonial. Entre os vestígios arqueológicos existentes, há alguns bem vergonhosos – existe um trecho da Estrada Real, inclusive com várias pontes de pedra finalizadas e nunca usadas, que teve a sua construção abandonada pelas autoridades da época. O desperdício de dinheiro público em obras inúteis, talvez até com superfaturamento, faz parte da história de nosso país.

A Serra de Ouro Branco teve uma grande importância histórica no povoamento das Minas Gerais – exploradores da bandeira paulista de Manuel Borba Gato encontraram veios de ouro na região no final do século XVII. O ouro encontrado tinha uma coloração pálida, sendo chamado de “ouro branco” pelos bandeirantes. O nome da Serra e do povoado, fundado por volta de 1694 com o nome de Santo Antônio de Ouro Branco, tem ligação direta com os achados auríferos. Até a chegada dos primeiros bandeirantes, a região era habitada pelos ferozes índios Carijós. 

Os solos de origem sedimentar, em sua maioria do tipo arenoso oriundo de rochas quatzíticas, proporcionam fartos recursos hídricos e formam importantes áreas de recarga dos aquíferos que alimentam as bacias hidrográficas dos rios Paraopebas e Doce. Algumas das suas nascentes alimentam o lago da Barragem de Soledade, construído na década de 1970 e responsável pelo abastecimento da cidade de Ouro Branco. Os moradores locais, como bons mineiros que são, contam muitos “causos” e estórias de assombração envolvendo a Serra de Ouro Branco e seus arredores. 

Uma dessas estórias envolve justamente a Barragem de Soledade – contam os locais que o espectro fantasmagórico de um antigo frade costuma aparecer durante as noites, após a meia-noite como sempre se diz nesses contos, assustando qualquer transeunte desavisado. Existia na área inundada da barragem uma espécie de convento religioso e um dos frades da ordem lutou bravamente contra as autoridades, tentando evitar que a construção fosse desapropriada. Como a área era de um particular que simplesmente emprestava o lugar para os frades, a justiça ordenou que os religiosos desocupassem o lugar. Diz-se então que, mesmo depois de morto, o fantasma do frade inconformado volta para protestar. 

Outras narrativas populares, das mais deliciosas, falam de um grande tesouro  escondido numa gruta nas encostas íngreme da Serra, tendo como protagonista ninguém menos que Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido entre nós como Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira. Segundo se conta, lembrando do antigo ditado popular “quem conta um conto aumenta um ponto”, Tiradentes era amigo dos responsáveis pela coleta dos dízimos nas igrejas da região, que também eram os encarregados pelo transporte dos valores, numa rota que passava pela cidade de Ouro Branco..

É justamente aqui onde reside o problema: dizem que os valores registrados como “saída” de dízimo nas igrejas em Ouro Preto, a cidade mais rica da região, são maiores do que os valores efetivamente registrados como “entrada” nas igrejas da cidade de Ouro Branco. De acordo com os entusiastas dessa teoria da conspiração mineira, Tiradentes e seus comparsas roubavam parte do dinheiro, que era escondido na dita gruta dos paredões da Serra. 

Há nesse particular, inclusive, descrição de atos com requintes de crueldade – um escravo era baixado até a gruta por meio de cordas, com a missão de esconder o tesouro, e, para evitar que ele revelasse o local para outras pessoas, acabava sendo largado na gruta; os mais trágicos afirmam que muitos escravos, em desespero, acabavam se jogando paredão abaixo. Essa lenda, por mais sem pé nem cabeça que seja, já povoou os sonhos de muita gente – muitos desses saíram em aventura pelos rincões da Serra de Ouro Branco, na esperança de comprovar a veracidade da conversa. 

Mesmo que você não acredite nas narrativas sobre fantasmas ou sobre esse tesouro escondido, a Serra de Ouro Branco tem muitos tesouros naturais que estão as sua espera, que vão te surpreender positivamente. Aventure-se por lá! 

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