OS GADOS E AS GENTES DO SERTÃO NORDESTINO

Boi magro na caatinga

Prosseguindo como tema que abordamos na última postagem, a invasão das áreas de vegetação de caatinga pelos bois expulsos do litoral, precisamos falar dos diversos desdobramentos dessa nova realidade ecológica, que passou a mudar substancialmente as condições do bioma. 

Existiam dois “caminhos” principais dessa rota dos bois rumo aos sertões,  um caminho em Pernambuco e outro na Bahia, que também era a rota dos bois gordos que eram trazidos de volta ao litoral para serem vendidos nas feiras livres. Toda a energia das populações litorâneas estava concentrada no plantio da cana e na produção do açúcar – essas pessoas precisavam comer, mas não havia produção de alimentos em larga escala na faixa litorânea. Os moradores das cidades tinham suas próprias hortas de fundo de quintal, onde se conseguia produzir alguma mandioca, verduras e legumes, além da criação de aves e suínos. Os pobres escravos que trabalhavam nos canaviais, muitas vezes eram obrigados a usar o pouco tempo de folga das suas exaustivas jornadas de trabalho, para plantar algum roçado às escondidas em algum canto das terras dos patrões, conseguindo assim algumas calorias extras. O sertão nordestino, especialmente a região do Agreste, acabou transformado num importante centro de produção de alimentos para as populações do litoral – farinhas de madioca, carne seca, queijos, mel, entre outros alimentos, além é claro dos bois vivos.

Essa circulação de boiadas pelos longos caminhos dos sertões começou a estimular alguns empreendedores, sem espaço para trabalhar no litoral, a montar pequenas pousadas e empórios voltados para os vaqueiros – muitas vezes eram as suas próprias casas que eram abertas para hospedar esses viajantes, onde os serviços eram trocados por algumas moedas ou até mesmo por um novilho. Com o tempo, muitas dessas paradas acabaram se transformando em cidades – de memória posso citar Caruaru, no Agreste pernambucano, e Feira de Santana, na Bahia. Além das pequenas cidades e vilas que surgiam por todos os lados, muitas famílias buscavam o sertão para conseguir um espaço para viver e produzir alguma cultura ou produto que pudesse ser vendido nas cidades. Não tardou muito para o Sertão ficar cheio de gentes e de gados. 

A palavra gado, normalmente, é usada para falar de rebanhos de bovinos – porém, ela também descreve rebanhos de cabras, bodes, ovelhas, cavalos, burros, galinhas e outros animais criados pelo homem. A queima dos caatingais, que começou a ser feita pelos criadores de gado para a ampliação dos campos, agora também passou a ser uma rotina para esses pequenos agricultores, que precisam abrir áreas para os seus roçados de subsistência e para a criação de pastagens e espaços para seus animais domésticos. A Caatinga também passou a fornecer lenha para os fogões, madeira para a construção de casas, cercas, móveis e demais utensílios. Um bioma reconhecidamente com baixa disponibilidade de água e de recursos naturais, a Caatinga passou a sustentar cada vez mais bocas, de gentes e de animais domésticos. Uma pequena amostra dessa sobrecarga:

De acordo com informações de especialistas em zootecnia e em agronomia, é necessário 1 hectare de pastagem para atender as necessidades nutricionais de 5 a 15 kg de peso vivo – isso significa que uma cabra com um peso de 60 kg vai necessitar de, pelo menos, 4 hectares ou 40 mil m² de pastagem para sobreviver – isso corresponde a área de 4 campos de futebol no padrão FIFA. Essa grande área é necessária para que o ambiente tenha tempo para se recuperar, ou seja, enquanto a cabra come a vegetação em um lado deste campo, a vegetação do outro lado terá tempo para crescer e se regenerar. Um boi magro, para efeito de comercialização, tem um peso de 360 kg e vai necessitar de uma área de pastagem bem maior – 24 hectares ou 244 mil m². Observe que este cálculo foi feito usando o valor mais baixo do consumo – 5 kg de peso vivo/hectare: o valor mais alto é três vezes maior. Se você por acaso já teve oportunidade de viajar pela região do semiárido nordestino, lembrará de ter visto rebanhos com dezenas e mais dezenas de cabras, bodes, carneiros e bois pastando em áreas bem menores do que a recomendação dos especialistas, o que lhe dá uma ideia da sobrecarga no bioma.

Há um outro detalhe importante – a região do Semiárido está sujeita a secas sistemáticas. Nessas ocasiões, a vegetação e os pastos secam, deixando a maioria dos animais domésticos sem ter o que comer. Os bois, nessas ocasiões, definham lentamente (vide foto) e acabam por morrer de fome. Os caprinos, ao contrário, começam a comer qualquer coisa mastigável que apareça pela frente, inclusive a raiz de plantas e de gramas. Os expertos animais cavam o solo e saem roendo as raízes com muito gosto.

Os solos finos e já esgotados de muitas regiões do Semiárido, acabam ficando estéreis e sujeitos aos processos de desertificação. Aqui é importante lembrar que os solos férteis combinam matéria orgânica, minerais, água e ar – sem a presença de vegetação para formar a matéria orgânica e sem água, o que resta nos solos são os resíduos minerais como a areia, o silte e a argila. Mesmo com a volta das chuvas, esses trechos estéreis não apresentam mais as condições para suportar qualquer vida vegetal, ficando assim sujeitos à erosão pelas águas das chuvas e pelos ventos.

Estimativas indicam que uma área total de 230 mil km² da Caatinga (1/4 do bioma) está em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri.

Vamos falar desse gravíssimo problema em detalhes na próxima postagem.

2 Comments

  1. […] O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, dedicou vários anos ao estudo da devastação das matas e das terras no Ceará. Em suas andanças pelos sertões cearenses, ele atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região:   […]

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