MANTIQUEIRA: “A MONTANHA QUE CHORA”

Serra da Mantiqueira

Comecemos com um pouco de folclore:

Segundo uma antiga lenda dos índios Tupi, havia uma linda princesa encantada em uma das tribos. Ela era tão bela, que os bravos guerreiros lutavam entre si a fim de chamar a sua atenção. Mas a princesa não reparava nesses homens – ela era apaixonada pelo Sol, que nunca tinha tempo para reparar na sua beleza. 

Com o passar do tempo, o Sol passou a perceber a formosura da moça e acabou se apaixonando por ela. Para passar mais tempo com sua princesa, o Sol começou a estender a duração dos dias – as pessoas e os animais das matas não conseguiam mais dormir nas madrugadas. Para sentir o cheiro da amada, o sol se aproximava da Terra, o que provocava grandes queimadas nas matas. A Lua ficou enciumada e raivosa por não poder mais reinar durante as noites – ela foi reclamar junto ao deus Tupã. 

Tupã não gostou dessa paixão do Sol por uma simples mulher. E como punição, ele decidiu que o Sol nunca mais deveria vê-la. Então Tupã ergueu a maior montanha que já existiu e dentro dela encerrou a princesinha. Sabendo que nunca mais veria seu amado Sol, a princesinha chorou rios de lágrimas, que formaram as nascentes de muitos rios. Os índios passaram então a chamar aquela montanha de amantikir – a montanha que chora. Para nós, o nome desse lugar é Mantiqueira. 

A Serra da Mantiqueira é um conjunto de montanhas que se estende por cerca de 500 km ao longo da divisa dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A região concentra uma grande infinidade de nascentes e afloramentos de água, que formam importantes rios da região Sudeste, sobre os quais vamos falar um pouco nessa postagem.  

Grandes formações rochosas como a Serra da Mantiqueira sofrem fraturas ao longo do tempo, que são provocadas pela movimentação dos solos pela ação das forças tectônicas. Os espaços criados por essas fraturas são preenchidos com os fragmentos resultantes dos processos de intemperismo e erosão das rochas. Esses acúmulos de fragmentos formam solos permeáveis, que permitem a acumulação de grandes volumes da água das chuvas. Essa água aflora em alguns pontos e forma as nascentes de inúmeros cursos d’água – é por isso que a Serra da Mantiqueira é uma verdadeira “caixa d’água”. 

Um rio ilustre com nascentes na Serra da Mantiqueira é o Rio Grande, que tem 1.360 km de extensão desde de suas nascentes até a foz no Paranaíba, rio com o qual se junta para formar o rio Paraná. Suas águas movimentam as turbinas geradoras de 12 usinas hidrelétricas, que juntas respondem por 25% da capacidade instalada do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. Em uma dessas hidrelétricas, o represamento do rio Grande forma o maior espelho d’água de Minas Gerais – o Lago de Furnas, também conhecido como o “Mar de Minas”. A bacia hidrográfica do rio Grande ocupa uma área total de 143 mil km², englobando áreas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais – o rio, inclusive, marca um longo trecho da divisa entre esses dois Estados. 

Outro importante rio com DNA da Serra da Mantiqueira é o Rio Doce. O rio Piranga, com nascentes localizadas no município mineiro de Ressaquinha, na Serra da Mantiqueira, é o principal formador do rio Doce. O rio Piranga se encontra com as águas do rio do Carmo no município de Rio Doce e, a partir desta confluência, passa a ser chamado de Rio Doce. A extensão total do rio até a sua foz no Oceano Atlântico em Linhares, no Estado do Espírito Santo, é de 853 quilômetros. Um total de 228 municípios estão incluídos total ou parcialmente na bacia hidrográfica do rio Doce, sendo 202 no Estado de Minas Gerais e 26 no Espírito Santo. A população total que vive na região da bacia do rio Doce soma 3,2 milhões de habitantes, o que comprova que esse não é um “riozinho” qualquer. 

Esse importantíssimo curso d’água, conforme já tratamos em diversas postagens, foi literalmente reduzido a lama após o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração em 2015. Já se passaram mais de 3 anos desde o fatídico desastre e o rio Doce continua cheio de problemas – grandes volumes de sedimentos tóxicos ainda se encontram depositados na calha do rio, o que contamina as suas águas e impede que as populações as usem no abastecimento de cidades e na agricultura. Os pescadores também continuam sofrendo – a produção pesqueira atual não lembra, nem de longe, os volumes que se produziam num passado recente; no pouco peixe que se pesca hoje, pairam dúvidas sobre eventuais contaminações. 

Dois rios menores que os rios Grande e Doce, mas não menos importantes, são o Camanducaia e o Jaguari, que têm nascentes em terras mineiras da Serra da Mantiqueira, porém correm para o Sul, na direção do Estado de São Paulo. Esses rios estão entre os formadores do Sistema Cantareira, o principal manancial de abastecimento das regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. Esses rios mostram o quão importante é a Serra da Mantiqueira – suas águas chegam a percorrer 160 km desde o Sul de Minas Gerais até a Região Metropolitana de São Paulo, tendo de seguir por diversas  represas, canais, túneis e estações de bombeamento, até chegar nas torneiras sedentas de milhões de paulistanos.

Entre os anos de 2014 e 2015, quando um seca monumental atingiu a Serra da Mantiqueira, houve uma queda brusca na produção de água nas suas nascentes e as represas do Sistema Cantareira praticamente secaram – milhões de paulistas foram submetidos a uma forte redução no fornecimento de água por vários meses. Obras emergenciais de interligação entre outros sistemas produtores, como o Guarapiranga e Rio Grande, tiveram de ser feitas as pressas, para substituir as águas do Sistema Cantareira. Já se passaram vários anos desde aqueles dias difíceis sem água, mas muita gente ainda teme pela volta de um seca forte como aquela.

Abençoadas sejam as águas da “montanha que chora”. Amém!

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