O AMEAÇADO PEIXE-BOI DA AMAZÔNIA

Peixe-boi

Essa série de postagens sobre os impactos da degradação das águas sobre a biodiversidade aquática e semiaquática não ficaria completa sem falarmos dos peixes-boi da Amazônia, uma das espécies animais mais ameaçadas do Brasil. Juntamente com seus primos marinhos, os peixes-boi amazônicos sempre foram intensamente caçados por causa da sua saborosa carne vermelha, do forte couro e também pela sua gordura, matéria prima usada para a fabricação de um óleo usado para iluminação pública em séculos passados. 

Eu tenho lembranças de peixes-boi desde a minha mais tenra infância na cidade de São Paulo – no caminho que eu fazia até a escola havia um camelô que vendia uma pomada milagrosa feita com a “autêntica gordura do peixe-boi da Amazônia”. O homem fazia uma interessante performance teatral, apresentando em detalhes as características “mágicas” do produto, que curava de dor de dente a “mau-olhado”. A apresentação era concluída com uma luta entre uma cobra e um lagarto, algo muito tradicional entre os camelôs de São Paulo. Se a pomada milagrosa funcionava ou não, tenho minhas dúvidas – sei que esse homem passou décadas vendendo esse produto no Largo 13 de Maio, em Santo Amaro. 

Os peixes-boi pertencem a ordem dos Sirênios ou Sirenia, uma grande família de mamíferos que sofreu um longo processo evolutivo para uma vida totalmente aquática. Existem registros fósseis de dezenas de espécies desses animais, que viveram em épocas e lugares diferentes em todo o mundo. De todas essas espécies, 5 chegaram aos tempos modernos e 4 ainda sobrevivem em mares e rios

O peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) é a menor entre as espécies existentes atualmente, podendo chegar até 2,5 metros de comprimento e a um peso de até 300 kg. É encontrada nos rios da Bacia Amazônica e também na Bacia do rio Orenoco, a principal da Venezuela. Entre as espécies marinhas, o peixe-boi-marinho ou manatee (Trichetus manatus)  é a espécie encontrada ao longo da costa do Oceano Atlântico desde a Flórida, no Sul dos Estados Unidos, até a Região Nordeste do Brasil. Uma outra espécie, o peixe-boi-africano (Trichetus senegalensis) vive ao longo da costa africana do Oceano Atlântico. Essas espécies podem atingir até 4 metros de comprimento e um peso superior a 800 kg. 

Uma espécie extinta, a vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis gigas), também conhecida como dugongo-de-steller e vaca-marinha-de-bering, habitava uma extensa faixa do Oceano Pacífico entre o Norte do Japão e a costa da Califórnia, nos Estados Unidos. Esses animais atingiam mais de 8 metros de comprimento e até 11 toneladas de peso. A espécie foi descrita pela primeira vez em 1741 pelo naturalista alemão Georg Steller, num momento em que já estava seriamente ameaçada pela intensa caça – em 1768 foi capturado o último exemplar da espécie. 

O quarto e último membro da ordem dos Sirênios ainda vivos é o dugongo (Dugong dugon), que já foi encontrado em uma extensa área de mares tropicais dos Oceanos Índico e Pacífico, mas que atualmente está restrito ao Estreito de Torres, entre o Norte da Austrália e a Nova Guiné, e a região da Grande Barreira de Coral Australiana. Esses animais podem atingir 3 metros de comprimento e mais de 500 kg de peso. Diferente dos seus primos peixes-boi, os dugongos possuem dentes, o que lhes permite comer, além de plantas, pequenos peixes e crustáceos. O nome da espécie vem da palavra malaia duyung, que significa sereia. 

Os primeiros avistamentos de peixes-boi amazônicos por europeus se deram nos primeiros anos do século XVI, quando cartógrafos e exploradores a serviço das Coroas de Espanha e Portugal passaram a vasculhar as extensas terras recém descobertas nas Américas. Nesses primeiros encontros, esses exploradores supersticiosos imaginavam se tratar das mitológicas sereias, criaturas que hipnotizavam os marinheiros com seu canto mágico. Logo depois, descobriram que a carne desses animais era muito semelhante à carne do boi e que sua densa gordura produzia um óleo semelhante ao óleo de baleia, um produto muito valorizado na época medieval e que era usado em lamparinas para a iluminação de casas e ruas. Começou assim a superexploração da espécie.

A caça dos peixes-boi em larga escala teve início em meados do século XVII, quando os padres Jesuítas instalaram as suas primeiras missões na região Amazônica. Esses religiosos chegaram junto com os primeiros contingentes militares de Portugal, que receberam a missão de construir fortificações e assentamentos que garantiriam a posse das terras. Pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre Portugal e Espanha em 1494, todas as terras localizadas a Leste de um meridiano imaginário pertenceriam a Portugal – esse meridiano cruzava o território brasileiro nas proximidades da cidade de Belém do Pará, ao Norte, e da Ilha de Santa Catarina, ao Sul. O Forte Presépio, que foi o embrião da cidade de Belém do Pará, foi uma dessas primeiras construções na região Amazônica. 

A missão principal dos Jesuítas era o contato com os indígenas com o objetivo de convertê-los à fé cristã. Devido aos intensos embates que passaram a ser frequentes entre os militares portugueses e as tribos indígenas, os Jesuítas decidiram criar grandes fazendas para abrigar os índios – esse processo ficou conhecido na história como os “descimentos”. Dentro da filosofia de trabalho dos religiosos, separar os indígenas da floresta e das suas tradições culturais era o caminho mais fácil para civilizá-los e convertê-los ao cristianismo. 

Além de todos os esforços civilizatórios e de educação religiosa, os Jesuítas passaram a treinar os indígenas nas mais diferentes artes e ofícios. Não tardou muito para as fazendas dos Jesuítas se transformarem em grandes centros de produção e exportação dos mais diferentes produtos, indo de móveis e instrumentos musicais fabricados com as excelentes madeiras de lei da Amazônia, tecidos, cestarias, drogas do sertão (especiarias e temperos similares aos produzidos no Extremo Oriente), peixes e carnes salgadas – incluindo aqui o pirarucu, peixe amazônico que era exportado para Portugal com o rótulo de bacalhau, entre outros produtos. 

Um dos destaques da pauta de produtos das fazendas Jesuítas era o óleo feito com a gordura do peixe-boi. Na época do período Colonial brasileiro, a principal fonte de óleo para iluminação eram as baleias, animais caçados impiedosamente em mares de todo o mundo. No Oceano Atlântico Sul, baleeiros ingleses se instalaram nas Ilhas Falkland (as famosas Ilhas Malvinas pleiteadas pela Argentina) ainda no século XVII. Esses baleeiros passaram a capturar as baleias que migravam das águas da Antártida rumo as costas do Brasil, restando poucos animais para serem caçados por baleeiros brasileiros. Com a pouca oferta de óleo de baleia, o produto feito com a gordura dos peixes-boi, amazônicos e também marinhos, passaram a suprir as necessidades das cidades brasileiras e também da Metrópole em Portugal. 

Essa caça intensa se manteve até o final do século XVIII, quando os Jesuítas foram expulsos de todos os territórios de Portugal por ordem do Marques de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), um dos mais importantes e controversos políticos da história portuguesa. A partir de meados do século XIX, quando teve início o Ciclo da Borracha na Amazônia, os peixes-boi se transformaram numa importante fonte de proteína animal e de couro para o imenso contingente de seringueiros espalhados pela floresta. Com o colapso da produção do látex a partir de 1910, os seringueiros acabaram transformados em caçadores de animais silvestres, que tinham seus couros e peles altamente valorizados no mercado internacional. 

De acordo com estudos de pesquisadores brasileiros, cerca de 110 mil peixes-boi foram mortos entre 1904 e 1967, quando a caça de animais silvestres foi proibida no Brasil. Isso se refere apenas ao número oficial de animais abatidos para aproveitamento do couro, que foi exportado legalmente no período. A esses números precisam ser somados os animais caçados ilegalmente, especialmente após 1967, e também os animais que foram capturados para consumo da carne pelas populações locais. Mesmo tendo a sua caça proibida, a carne de peixe-boi é muito apreciada pelos “amazônidas” e não é difícil encontrar o produto nos mercados populares. 

Além da caça predatória, o peixe-boi é vítima frequente das redes dos pescadores, onde muitos animais ficam presos e acabam morrendo por afogamento. Um outro problema sério da espécie é o baixo número de filhotes que nascem – a gestação do peixe-boi dura 13 meses, nascendo normalmente um filhote de cada vez, que será cuidado pela mãe ao longo de pelo menos 4 anos até uma nova gestação. Esse baixo crescimento da população de peixes-boi é uma grande ameaça para a sobrevivência de uma espécie com população declinante. Existem atualmente diversos projetos de conservação e institutos de pesquisa que lutam para manter esses simpáticos animais vivendo livres nos rios da Bacia Amazônica. 

A luta pela sobrevivência dos peixes-boi é insana, mas, felizmente, ela agrega um número cada vez maior de pessoas motivadas e instituições de pesquisa. Que continue assim…

6 Comments

  1. […] Extensas áreas de manguezais no Delta do rio Níger não têm mais folhas e as suas raízes estão cobertas por uma camada de óleo (vide foto). As inúmeras espécies marinhas que buscavam essas áreas no passado desapareceram, transformando suas águas em verdadeiros desertos sem vida. Uma espécie emblemática que costumava viver nas águas dos canais do Delta e no rio Níger é o peixe-boi marinho africano (Trichechus senegalensis), primo-irmão do peixe-boi marinho que vive nas costas do Nordeste brasileiro e primo em segundo grau do peixe-boi amazônico.   […]

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