OS CICLONES QUE TÊM ATINGIDO A REGIÃO SUL DO BRASIL

ciclone-bomba

Um assunto que vem dominando os telejornais há vários meses é a unipresente epidemia da Covid-19, doença viral que já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas em todo o mundo e que, literalmente, destruiu a economia de muitos países. Esse é um tema bastante preocupante e que vem exigindo uma série de esforços individuais e coletivos para a sua superação. 

Dentro desse quadro delicado de acontecimentos, passamos a ouvir notícias nos últimos dias sobre ciclones na região Sul do Brasil, eventos climáticos que têm causado destruição e dor em muitas cidades em Santa Catarina, Paraná e no Rio Grande do Sul. Vamos tentar explicar o que está acontecendo. 

A Terra, essa grande massa de rochas e águas em que todos nós vivemos, se comporta como uma verdadeira “máquina planetária”, lidando com quantidades gigantescas de energia. Com seus movimentos de rotação e translação ao redor do Sol, a superfície do planeta (tanto as partes secas quanto os oceanos) acumula diferentes quantidades de calor. Parte importante dessa energia vai para o núcleo quente do planeta, formado por uma massa derretida de ferro e níquel.  

Outra parte significativa dessa energia se distribui entre a superfície das terras e dos mares, além da atmosfera. É justamente as diferenças entre as quantidades de energia (ou de calor) entre esses todos esses elementos que formam as correntes marinhas e de ar. Essas diferentes correntes formam a base dos fenômenos climáticos mais corriqueiros de nossas vidas como os ventos e as chuvas, assim como os eventos climáticos extremos como furações, tufões, tempestades, tornados e ciclones, entre outros. 

Um ciclone é formado a partir de uma grande perturbação na atmosfera terrestre. A depender da região do planeta onde ocorre esta perturbação, o evento receberá os nomes de Ciclone Tropical, que ocorre numa faixa ao longo da linha do Equador, ou Ciclone Extratropical, que ocorrem numa faixa de latitudes entre 30° e 40° nos Hemisférios Norte e Sul. O ciclone que atingiu a região Sul do Brasil se formou a partir da associação de frentes frias que vem do Sul do continente com uma queda repentina da pressão atmosférica.  

Explicando de uma forma bastante simplificada, a diferença de pressão (e, consequentemente, de temperatura) entre uma área central, conhecida como “olho do ciclone”, e as áreas ao redor forma o que é conhecido como força de gradiente de pressão, o que pode resultar em ventos com velocidade de até 300 km/h. Explicando de um jeito bem simples – esses fortes ventos são formados pelo deslocamento em alta velocidade do ar entre as áreas de alta pressão na direção das áreas de baixa pressão. 

Entre os dias 30 de junho e 1º de julho, parte da região Sul do Brasil foi atingida por um forte ciclone extratropical, chamado de ciclone-bomba em função da extrema velocidade em que se desenrolou a sua formação. De acordo com dados da rede de estações meteorológicas da EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a velocidade do vento no Sul do Estado atingiu a marca de 168 km/h. Em Urupema, na Serra Catarinense, os ventos atingiram 126 km/h; em Itajaí chegaram a 121 km/h. Outras 50 estações meteorológicas no interior do Estado registraram velocidades entre 89 e 117 km/h

A área de incidência desse ciclone se estendeu entre o Paraná e o Rio Grande do Sul, causando enormes estragos, inclusive em Curitiba. No total foram mais de 200 cidades atingidas, deixando um saldo de 13 mortos e um prejuízo material de centenas de milhões de reais. De acordo com informações divulgadas pelas concessionárias de energia elétrica da Região Sul, esse ciclone provocou a maior destruição de redes de transmissão de energia elétrica da história.

Os efeitos desse ciclone-bomba foram sentidos em todo o interior dos Estados da Região Sul e também no litoral do Estado de São Paulo. Um novo ciclone, com intensidade menor, atingiu os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul no dia 8 de julho, provocando muita chuva e alagamentos. 

Os Estados da Região Sul do Brasil, além de São Paulo, Mato Grosso do Sul e a região do Triângulo Mineiro, e também as regiões contíguas nos países vizinhos, formam um extenso corredor onde há grande probabilidade de formação de fortes vendavais. Essa região, aliás, é considerada como o segundo maior “Corredor de Tornados” do mundo, só ficando atrás do Meio-Oeste dos Estados Unidos e dos seus famosos twisters.  

Massas de ar frio vindas da Patagônia, no sul do Continente, e massas de ar quente vindas da Amazônia e do Oceano Atlântico, costumam se encontrar na região. O encontro de duas dessas massas de ar, com diferentes temperaturas e com a rotação dos ventos em sentidos opostos pode gerar, como resultante, uma terceira massa de ar com uma grande concentração de energia – essa é a origem dos fortes vendavais. 

Os vendavais compreendem ventos com velocidades entre 50 e 102 km/h, o que corresponde a valores entre 7 e 10 na Escala de Beaufort (esses valores são aproximados porque essa Escala usa a unidade Milhas para a velocidade). Nessas faixas da Escala, os ventos vão de moderados a muito fortes. Esses ventos são gerados pelo deslocamento violento de uma massa de ar e normalmente estão associados aos sistemas formadores de tempestades.

Ventos com velocidade entre 103 e 119 km/h são chamados de ciclones extratropicais e, quando a velocidade dos ventos supera a casa dos 120 km/h, eles passam a ser chamados de ciclones tropicais ou furacões.  

Essa escala de velocidade de ventos foi criada originalmente em 1810 pelo hidrógrafo irlandês Sir Francis Beaufort, a partir de observações feitas no mar pelos navios da Marinha Inglesa. Os valores da Escala correspondem ao número de rotações de um anemômetro, um equipamento que mede a velocidade do vento. Essa Escala foi aprimorada e, no final de década de 1830, foi padronizada para uso em todos os navios da Marinha Real Inglesa. Ao longo da década de 1850, ela se tornou popular e passou a ter outros usos não militares.  

Com o avanço da tecnologia e com a disponibilidade de imagens de satélite cada vez mais precisas, os meteorologistas têm conseguido estimar com maior probabilidade as áreas onde podem ocorrer fortes tempestades e vendavais. Com a devida antecedência, essas informações podem ser repassadas para as populações através de noticiários de TV e de internet, ajudando assim a minimizar os impactos e a salvar vidas. 

As famosas e tão propaladas Mudanças Climáticas Globais, conjunto de mudanças no clima do planeta que estão sendo produzidas, entre outras causas, pela destruição maciça de florestas e pela poluição atmosférica, podem estar por trás do aumento da frequência e da incidência de fortes ciclones na Região Sul. Aqui é importante lembrar que ainda não há certeza científica absoluta sobre isso.

Em 2004, a mesma região foi atingida pelo Catarina, o primeiro furacão já registrado no Brasil. Esse furacão destruiu cerca de 1.500 casas e danificou outras 40 mil. A produção agrícola foi uma das atividades mais prejudicadas há época – a tempestade destruiu 85% da produção de bananas e 40% das plantações de arroz em mais de 14 municípios da região. O Catarina deixou um saldo de 11 mortos, 518 feridos e prejuízos calculados em mais de R$ 1,2 bilhão

Apesar do aparente aumento da frequência e da intensidade desses fenômenos, a Região ainda não conta com um eficiente sistema de alerta antecipado da chegada de novos ciclones e tempestades fortes, como acontece em países como os Estados Unidos. Se as Mudanças Climáticas, ao que tudo indica, vieram para ficar, precisamos também ficar preparados para as suas consequências. 

A julgar pelo que temos assistido, os ciclones passarão a fazer parte de “nossas paisagens” e de nossas vida daqui para a frente. 

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