A DESTRUIÇÃO DA FLORESTA DO CONGO

Agricultura de subisistência no Congo

Muito se fala da destruição da Floresta Amazônica.

Meses atrás, durante a tradicional época das queimadas na região, começaram a circular imagens e vídeos nas redes socias e nos telejornais de todo o mundo, mostrando que “o pulmão do mundo” estava sendo transformado em cinzas. Diversas celebridades e autoridades internacionais assumiram uma posição de defesa da Amazônia e começaram a dar “pitacos” sobre algo que não conheciam corretamente. Na época publicamos uma longa série de postagens falando sobre esse tema e mostrando a realidade da Amazônia e de sua população. Essas postagens foram depois compiladas no formado de livro – A NOSSA AMAZÔNIA

A Floresta do Congo, uma gigantesca selva equatorial africana, ocupa uma área total de mais de 2 milhões de km², o que equivale a quase metade da área do trecho brasileiro da Floresta Amazônica. Se incluirmos na conta alguns sistemas florestais de transição como savanas e florestas secundárias, a área total dessa Floresta aumentará para 3 milhões de km². A Floresta do Congo se espalha entre a República Democrática do Congo, República do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Camarões e República Centro-Africana. Se a Amazônia é considerada o “pulmão do mundo”, a Floresta do Congo seria uma espécie de segundo pulmão mundial. 

Floresta do Congo

Especialistas afirmam que a Floresta do Congo abriga um total de 10 mil espécies de plantas, sendo que 30% são exclusivas do bioma. Também é o habitat de uma infinidade de espécies de animais da fauna carismática (espécies que representam ecossistemas) como elefantes, girafas, chimpanzés e gorilas, entre muitas outras (vide foto). Espalhados nessa extensa área vive um total de 75 milhões de pessoas pertencentes a, pelo menos, 150 etnias diferentes

Apesar de todos esses números grandiosos, é provável que muitos dos leitores jamais tenha ouvido falar desta floresta e dos seus inúmeros problemas, onde se incluem os desmatamentos para a abertura de cavas para exploração de minerais raros como o coltan, para exploração de madeira para exportação e também para a formação de pequenos campos agrícolas para os refugiados da mineração. Ao contrário do que se vê em relação à Floresta Amazônica, as selvas africanas estão desaparecendo ante um silêncio ensurdecedor. 

Para que todos tenham uma ideia da devastação ambiental que se desenrola no continente africano, o Greenpeace, uma grande organização ambientalista internacional, realizou uma investigação e descobriu que 2,6 milhões de hectares de matas ao redor da Floresta do Congo foram transformados em áreas de cultivo da palma do dendê, principalmente na Libéria, em Serra Leoa e na República do Congo. Como as terras na África são muito baratas e os Governos não costumam impor nenhuma restrição ambiental, é inevitável o avanço dessas plantações na direção da grande Floresta do Congo.

Uma das grandes fontes de problemas desse grande ecossistema é a mineração descontrolada, especialmente de coltan, um mineral com grande demanda pela indústria eletroeletrônica. Sem maiores controles pelas autoridades dos países, principalmente na República Democrática do Congo, detentora de 75% das reservas mundiais desse minério, a mineração ameaça a sobrevivência da Floresta. Essas ameaças têm várias frentes. 

Conforme já comentamos em postagem anterior, a mineração no Congo é controlada por uma infinidade de grupos militares e paramilitares, que travam uma longa guerra civil há várias décadas. Esse conflito já matou perto de 6 milhões de pessoas, sendo que aproximadamente 4 milhões dessas mortes estão ligadas a disputas pelo controle de áreas de mineração. Entre os envolvidos estão políticos e funcionários públicos, militares das forças governamentais, líderes tribais, entre muitos outros. Essa grande fragmentação do poder no país torna a situação caótica e expõe os moradores de várias regiões a uma vida de terror. 

Habitantes das vilas e pequenas cidades são forçados a trabalhar nas cavas de mineração, muitas vezes numa condição de escravidão ou de semiescravidão. Frequentemente, os trabalhos são feitos sob a mira de fuzis de seguranças e militares. Ao final das exaustivas jornadas de trabalhos, esses mineradores ainda passam por uma rigorosa revista e, nos casos em que existem suspeitas de desvios de pedras e minerais valiosos, há cruéis castigos físicos e detenções. 

Os problemas não param por aí – o avanço das frentes de mineração expulsa milhares de famílias de suas terras ancestrais, sem qualquer espaço para negociação ou pagamento de indenizações. A abertura de novas cavas de mineração transforma os solos numa sucessão de crateras, o que impedirá qualquer possibilidade de retorno dos antigos proprietários e uso futuro dessas terras para agrícultura ou pecuária. 

As famílias expulsas, que muitas vezes são classificadas como “refugiados da mineração” partem para outras localidades em busca de alternativas para um recomeço de vida. É justamente aqui que as áreas cobertas por florestas surgem como uma alternativa – são abertas clareiras no meio da mata, onde a finalização dos trabalhos é feita com o uso do fogo, numa técnica que lembra muito a coivara dos indígenas brasileiros

Nos terrenos recém desmatados são formadas pequenas culturas de subsistência, o que garantirá a sobrevivência dessas famílias por um curto período de tempo. Assim como acontece com os solos da Amazônia, os solos da Floresta do Congo têm uma baixa produtividade e, sem a proteção da cobertura vegetal, perdem rapidamente a fertiidade. Depois de 2 ou 3 anos de uso, esses solos ficam completamente improdutivos, o que leva as populações a uma migração constante em busca de novas áreas para viver e trabalhar. Esses movimentos migratórios levam a uma destruição contínua de novos trechos de matas.  

Diferente da Floresta Amazônica, onde os desmatamentos e as queimadas destroem grandes áreas contínuas de terras que podem ser identificadas por imagens de satélites, a destruição da Floresta do Congo é feita lentamente em pequenas áreas e com ferramentas manuais. Esse avanço contínuo está transformando a Floresta do Congo, especialmente no Leste do país, em uma sucessão de fragmentos florestais isolados. A coleta de lenha para cozinhar (especialmente num raio de 5 km ao redor das vilas) e o corte de árvores para processamento da madeira também causam grandes impactos. 

Além da destruição da cobertura florestal e de todos os problemas ambientais que isso gera, esses refugiados se valem da caça de animais silvestres para complementar a sua alimentação, abatendo inclusive espécies animais raras e em forte risco de extinção. Essa também é uma rotina entre os mineradores, que normalmente recebem quantidades de alimentos insuficientes de seus “patrões”. Uma das espécies mais ameaçadas é o gorila-de-Grauer, a maior espécie de primata do mundo e sobre a qual falaremos na próxima postagem. 

Grandes empresas europeias estão entre as maiores compradoras de coltan e de outros minerais raros do Congo para a produção de componentes eletroeletrônicos. Essas grandes empresas se encontram em países como Holanda, França, Alemanha, Suécia, Finlândia, Inglaterra e Itália, entre outras nações. Talvez, o silêncio mundial em relação à destruição da Floresta do Congo esteja ligado à cumplicidade dessas empresas e dos Governos de seus países com a mineração ilegal. 

Cuidar e se preocupar com a Floresta Amazônica é fundamental, mas não podemos nos esquecer da destruição da floresta equatorial africana, da sangrenta guerra civil e da mineração descontrolada, que criam uma cruel e silenciosa realidade na República Democrática do Congo. 

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