O PANAMÁ DE VASCO NUÑEZ DE BALBOA E DE THEODORE ROOSEVELT, JR

Theodore Roosevelt

Na última postagem falamos rapidamente da teoria da Deriva dos Continentes e da formação das áreas continentais que encontramos atualmente no Mapa Mundi. Durante esse processo, as grandes massas de terra que formam as atuais América do Norte e América do Sul ficaram separadas por mais de 130 milhões de anos. Todas as formas de vida que existiam sobre essas áreas seguiram por caminhos evolutivos próprios e o isolamento gerou faunas e floras bem diferentes.

O isolamento dessas áreas continentais só terminou com a formação do Istmo do Panamá em um momento entre 2 e 23 milhões de anos atrás, quando diversos eventos vulcânicos formaram uma “ponte de terra” com aproximadamente 80 km de largura. Além de interligar as duas grandes massas de terra e criar um importante corredor para a biodiversidade, a formação do Istmo do Panamá bloqueou as correntes marinhas que circulavam entre o Oceano Pacífico e o Mar do Caribe, isolando as populações de animais e plantas, o que levou a processos evolutivos isolados de cada lado do Istmo. Essas mudanças nas correntes marinhas também criaram mudanças no clima local.

Passando da história geológica para a história humana, existem dois personagens chaves para se entender a história do Panamá e os fatos que culminaram com a construção do Canal do Panamá, inaugurado em 1914. O primeiro é o aventureiro espanhol e “caloteiro” Vasco Nuñez de Balboa, descobrir do caminho até o Oceano Pacífico em 1513. O segundo, bem mais contemporâneo, foi Theodore Roosevelt, Jr, Presidente dos Estados Unidos entre 1901 e 1909.

A América Central e as Ilhas do Mar do Caribe ganharam relevância para os conquistadores espanhóis, e por extensão para todo o mundo, a partir de 1492, data da chegada da expedição de Cristóvão Colombo. Entre os inúmeros aventureiros ibéricos que sonhavam com as míticas riquezas do Novo Mundo e que se alistavam nas expedições marítimas se encontrava um jovem de Jerez de los Cabaleros. Seu nome era Vasco Nuñez de Balboa.

Existem muitas dúvidas sobre a origem de Balboa, mas sabe-se com certeza que ele veio de uma família de nobres empobrecidos. Fugindo de dívidas e de credores, Balboa se alistou aos 26 anos na expedição de Rodrigo de Bastidas para a Colômbia, onde desembarcou em 1501. Participou de explorações nas costas da Venezuela, Colômbia e Jamaica, se estabelecendo por fim em Santo Domingo, na Ilha Hispaniola. Exerceu diversas atividades, porém, sem conseguir atingir o sucesso financeiro e as riquezas tão sonhadas pelos conquistadores.

Em 1509, fugindo mais uma vez dos seus credores, Balboa se juntou a uma expedição para a região da atual Colômbia. Graças ao seu carisma pessoal e também devido aos profundos conhecimentos da região que adquiriu em expedições exploratórias anteriores, Vasco de Balboa foi ganhando a confiança dos administradores coloniais e acabou sendo nomeado Governador da região em 1511.

O auge da vida conturbada de Vasco Nuñez de Balboa se deu em 1513, quando ele organizou uma expedição em busca do lendário “Mar de Sur”. Diversas lendas dos índios locais falavam da existência de um grande mar do outro lado do Panamá. Balboa e seus expedicionários passaram 30 dias percorrendo a região com guias indígenas. Uma lenda local conta que já no final da jornada, Balboa, acompanhado apenas pelo seu cachorro Leoncito, subiu em um morro e de lá avistou o Oceano Pacífico.

Essa descoberta abriu o caminho para a conquista do Peru e de suas fabulosas riquezas e mudou os rumos da colonização espanhola nas Américas. Os conquistadores construíram navios e portos nas costas do Oceano Pacífico e realizavam a integração de cargas e pessoas com os portos no Mar do Caribe através dessa rota terrestre pelo Panamá. Apesar dessa grande conquista, o destino final de Vasco de Balboa não foi dos melhores – anos mais tarde, ele acabou sendo acusado de conspiração contra a Coroa de Espanha e foi executado em 1517.

Saltando no tempo, chegamos ao início do século XX. A região que hoje compõe o território do Panamá pertencia a Colômbia e estava sendo cobiçada pelos Estados Unidos, que há época já era uma das grandes potenciais mundiais. Com a conquista de toda a região do Oeste americano, os Estados Unidos agora dominavam os mares a Leste e a Oeste do seu grande território. Apesar do seu grande poderia militar e econômico, os norte-americanos ressentiam de uma interligação mais rápida e mais curta entre as suas duas costas.

Até aquele momento, as embarcações norte-americanas dispunham de duas rotas para percorrer de um porto na costa Leste até outro na costa Oeste. O principal deles era seguir até o Cabo Horn, no extremo Sul da América do Sul e atravessar navegando pelas águas do Estreito de Magalhães. Um navio que saísse de Nova York, na costa Leste, com destino a São Francisco, na costa Oeste, teria de navegar cerca de 22.500 km, praticamente metade da circunferência do globo terrestre. Outra opção, bem mais perigosa e um pouco mais curta, seria a de seguir navegando pelo Norte do Canadá e chegar ao Oceano Pacífico através do Estreito de Bering. Essa viagem só era possível durante os meses do verão.

Geógrafos e militares norte-americanos defendiam, há muito tempo, a necessidade da construção de um canal com aproximadamente 80 km de extensão no Panamá. Empresários franceses, inclusive, já haviam feito uma tentativa de construção desse canal em 1880, mas fracassaram de forma retumbante. Essa obra encurtaria muito as viagens marítimas – a mesma viagem entre Nova York e São Francisco feita via Canal do Panamá cairia para apenas 9,5 mil km. A favor do projeto dos norte-americanos estava a bem sucedida experiência do Canal de Suez, no Egito, que desde de 1869 permitia viagens bem mais curtas entre a Europa e o Extremo Oriente.

É aqui que entra em cena a figura de Theodore Roosevelt, Jr (vide foto) e de sua política externa. Ao invés de iniciar exaustivas e demoradas negociações com a Colômbia, o Presidente norte-americano se embrenhou por um discutível atalho – os Estados Unidos passaram a apoiar um grupo de rebeldes do Norte da Colômbia que lutava pela independência do Panamá. Esse grupo já havia iniciado uma série de ataques contra instalações militares do Governo na região. O Governo da Colômbia reagiu enviando tropas para apaziguar os ânimos na região. Em resposta aos movimentos da Colômbia, os Estados Unidos enviaram dois navios de guerra em apoio aos revolucionários. Coincidentemente, esses navios ficaram ancorados exatamente na região onde os norte-americanos pretendiam construir o canal.

Entre muitas idas e vindas, os rebeldes separatistas conseguiram declarar a independência do Panamá da Colômbia em dezembro de 1903, com apoio explícito de Washington. A Colômbia, que não tinha a menor intenção de entrar em rota de conflito com Presidente Roosevelt e as poderosas forças armadas dos Estados Unidos, acabou por aceitar a independência da região. O Panamá passou a contar com um território total com pouco mais de 78 mil km², pouco menos de duas vezes a área do Estado do Rio de Janeiro.

Em “reconhecimento” ao apoio do Presidente Roosevelt ao movimento revolucionário, o novo governo do Panamá aceitou vender uma faixa de terras com 82 km de extensão a um custo de US$ 10 milhões, onde os norte-americanos pretendiam construir o seu canal. Essa faixa de terras passou a ser conhecida como a Zona do Canal do Panamá, um território que seria controlado exclusivamente pelos norte-americanos até o ano de 1977 e, entre 1977 e 1999, seria controlado por norte-americanos e panamenhos. As obras de construção do Canal do Panamá começaram já em 1904 e, depois de inúmeros problemas, foram finalmente inauguradas em 1914.

Com o fim da concessão dos direitos de operação, os Estados Unidos transferiram o controle do Canal para o Governo do Panamá. A operação do Canal é a grande fonte de receitas do país – o custo para a passagem de um grande cargueiro pode custar até US$ 200 mil. Nos últimos anos, os panamenhos vêm trabalhando arduamente para ampliar o seu Canal e permitir a passagem de navios cada vez maiores.

O grande descobridor do caminho rumo ao Oceano Pacífico através das selvas do Panamá, Vasco Nuñes de Balboa, foi homenageado pelo Governo local – a moeda oficial do país é o Balboa panamenho. Se você for hoje visitar o Panamá, será praticamente impossível encontrar uma nota ou moeda de Balboa em circulação. A moeda mais utilizada no país é o dólar norte-americano, que foi levada para o Panamá pelos esforços de Theodore Roosevelt. Uma grande ironia da história.

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