EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS, OU ADAPTANDO-SE ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS

Quito

A temporada das chuvas de Verão está no seu auge, com muitas cidades brasileiras sofrendo com os efeitos de volumes de precipitação acima da média: enchentes violentas, desmoronamentos de encostas, destruição de trechos de rodovias e milhares de famílias desabrigadas são alguns dos aspectos mais visíveis da estação. Antes de explorar muitos destes problemas em diversas cidades e regiões, gostaria de começar falando de um lado do problema ainda tratado como mera hipótese por muita gente: as famosas mudanças climáticas.

Pouca gente discorda que o planeta está enfrentando mudanças em sua dinâmica climática global – regiões têm enfrentado períodos anormais de seca; outras sofrem com volumes de chuvas muito acima da média; extremos de frio e de calor também estão sendo vivenciados por populações em diferentes partes do mundo. O “pomo da discórdia” se dá no debate sobre as origens dos problemas: muitos defendem que as mudanças climáticas estão ligadas à toda uma somatória de agressões ambientais derivadas das ações humanas ao longo da história, particularmente das emissões de gases de efeito estufa. Outros tantos afirmam que os aumentos das temperaturas já observados em diferentes partes do planeta, com suas devidas consequências, são parte de um conjunto de mudanças cíclicas naturais do planeta, que nada tem a ver com as atividades humanas – o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um ferrenho defensor desta tese. Logo após sua posse em 2017, Trump retirou seu país de diversos acordos internacionais para o controle de emissões de gases de efeito estufa.

Enquanto diversos grupos discutem sobre as verdades e mentiras do aquecimento global, instituições sérias e pragmáticas trabalham na busca de soluções adequadas para se combater os efeitos visíveis das mudanças climáticas. Merece destaque o trabalho do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, uma organização financeira internacional com sede na cidade de Washington, Estados Unidos, e criada no ano de 1959 com o propósito de financiar projetos viáveis de desenvolvimento econômico, social e institucional, além de promover a integração comercial regional na área da América Latina e o Caribe.

O BID está financiando uma série de projetos pilotos voltados a adaptação de cidades e regiões às mudanças climáticas, que são bem reais e bastante problemáticas em muitos lugares. Alguns exemplos: na cidade de Quito, no Equador, está em implantação uma mudança nas fontes de captação de água para o abastecimento da população; no Peru, estão sendo redesenhados sistemas de irrigação e de exploração de água do subsolo por causa do aumento dos períodos de seca em várias regiões do país; no Uruguai, sistemas de manejo e drenagem de águas pluviais estão sendo redimensionados por causa do aumento da intensidade das chuvas; na Nicarágua, estão sendo implantados mecanismos para o controle do nível do Lago Manágua como forma de se prevenir inundações; em Honduras, estão sendo desenvolvidos projetos para a construção de diques para controle de enchentes e mudanças nos sistemas de perfuração e operação de poços artesianos por causa do aumento do nível do mar e salinização dos aquíferos e em Trinidad-Tobago, estão em andamento projetos para a construção de estações de tratamento de água e de esgotos adaptadas ao aumento do nível do mar já observado nas ilhas.

Para que todos percebam a gravidade dos efeitos das mudanças climáticas já observados em algumas regiões da América Latina e Caribe, problemas que estimularam as ações pró ativas do BID, deixem-me apresentar com maiores detalhes o caso do abastecimento de água da cidade de Quito.

A simpática Quito é uma das capitais mais altas do mundo, com sua altitude a 2.800 metros acima do nível do mar e uma população de mais de 2,7 milhões de habitantes. A cidade tem entre suas principais atrações o centro histórico, com a típica arquitetura colonial espanhola, com casarões, praças e igrejas caprichosamente preservadas e declaradas Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. A posição geográfica de Quito, no ponto exato onde o mundo é dividido em Norte e Sul, levou ao batismo da linha imaginária que separa os Hemisférios com o nome do país: a Linha do Equador.

Bem longe do cotidiano dos habitantes e dos pontos pitorescos com suas multidões de turistas, existe uma característica de Quito desconhecida da maioria – toda a água usada no abastecimento da cidade é originada em derretimentos de glaciares ou geleiras no alto dos Andes (vide foto). Estas fontes ancestrais de água, exploradas desde os tempos das primeiras populações que chegaram a estas montanhas, correm um sério risco atualmente: o aquecimento global já se faz notar nos Andes Equatorianos – as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo já perderam entre 42 e 60% de suas massas. O problema não se limita ao país: das 10 geleiras que existiam na Venezuela em 1952, só restam 5; na Colômbia, 8 geleiras desapareceram restando apenas 6;  Na Cordillera Blanca no Peru, a cadeia de montanhas em área tropical com a maior concentração de geleiras do mundo, os 722 glaciares existentes sofreram uma redução de 22,4% desde 1970; na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas. Vários rios com nascentes alimentadas pelo degelo destes glaciares já apresentam visíveis reduções nos seus volumes de água.

Com vistas ao iminente colapso do abastecimento de água de Quito, o Governo Equatoriano, está desenvolvendo um projeto para a captação de água nos páramos andinos, criando desde já uma fonte alternativa de abastecimento para a população. Páramos são ecossistemas com vegetação arbustiva que ocorrem a partir de altitudes acima de 3.000 metros até a linha de neve no alto das montanhas. Graças a esta vegetação, os solos dos páramos funcionam como verdadeiras esponjas, retendo grandes quantidades de água – áreas de banhados dos Pampas do Sul do Brasil têm características bem similares. Os páramos são encontrados em várias regiões montanhosas do mundo – a Cordilheira dos Andes abriga 30 mil km² de páramos na Venezuela, Colômbia, Peru e Equador.

Aqui no Brasil, temos observado diversas alterações nos padrões climáticos de várias regiões, com chuvas acima da média em muitos lugares, secas prologadas em outros, mar avançando com violência na direção de algumas praias, entre muitos outros problemas. Todas estas “anomalias” provocam impactos na vida das populações e forçam Governos dos diversos níveis a correr atrás de soluções emergenciais, onde volumosos recursos públicos são gastos, muitas vezes sem muito critério. Além dos flagrantes desperdícios de recursos, vale lembrar que quando as situações de calamidade pública são decretadas, Governos podem realizar gastos dos mais diversos sem a necessidade de se realizar concorrências públicas – isso abre espaço para desvios e malfeitos de todos os tipo.

Enquanto países vizinhos, em estágios de desenvolvimento abaixo do nosso, demonstram preocupações com os impactos do aquecimento global e das mudanças climáticas no futuro de suas cidades, aqui no Brasil ainda patinamos na solução de problemas básicos de abastecimento de água, tratamento de esgotos e manejo de águas pluviais. Fazemos verdadeiras “gambiarras” de infraestrutura para resolver problemas antigos enquanto tem muita gente projetando soluções para problemas com vistas aos próximos 50 ou 100 anos…

Vamos falar destes desafios nas próximas postagens.

4 Comments

  1. […] Os desmatamentos e as queimadas em áreas florestais, a pecuária, a agricultura, a produção industrial e a geração de energia elétrica, entre outras atividades humanas, completam a extensa lista dos emissores dos gases de efeito estufa. A grande concentração desses gases na atmosfera tem provocado um lento e gradual aumento da temperatura no planeta Terra, o que, por sua vez, vem provocando toda uma série de eventos climáticos extremos.  […]

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