OS RISCOS DE COLAPSO NA BARRAGEM DE SOBRADINHO

Uvas do Rio São Francisco

O Lago de Sobradinho vive seu pior momento – o nível das águas está abaixo dos 15% da capacidade total, o volume mais baixo desde a formação do Lago há 38 anos. A CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, foi obrigada a reduzir a vazão para 650 m³/s, a menor de sua história, como uma forma de evitar que o reservatório entre no chamado “volume morto”. A mesma medida foi estendida à Usina Hidrelétrica de Xingó já na região do baixo Rio São Francisco. Essa redução de vazão está criando uma série de problemas na região da foz do Velho Chico que, sem forças para enfrentar as águas do Oceano Atlântico, sofre cada vez mais com a intrusão das águas salgadas na calha do Rio, evento que está afetando o abastecimento de dezenas de cidades, a agricultura, a navegação, a pesca e a vida de dezenas de milhares de habitantes locais.

A situação seria menos preocupante se o fenômeno da estiagem não persistisse há cinco anos. A primeira vista, poderíamos associar o baixo volume de águas no reservatório à seca que vem assolando toda a região do Semiárido por este mesmo período – porém, conforme já comentamos em post anterior, 75% dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado no Estado de Minas Gerais que, apesar de não viver em seus melhores períodos de chuvas, não justificaria sozinho a uma redução tão grande do volume de águas do Lago de Sobradinho. Podemos então concluir que os problemas vividos hoje em Sobradinho representam toda a somatória de problemas ambientais demonstrados rapidamente nesta sequência de postagens; ou seja – uma espécie de “prêmio” pelo conjunto das obras.

A traumática construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho forçou a remoção e o deslocamento de aproximadamente 75 mil pessoas, liberando as terras que viriam a ser alagadas pelo enchimento do Lago, conforme apresentado no último post. Aliás, a construção de barragens para o abastecimento de água ou para a geração de energia elétrica sempre produz o deslocamento forçado de grandes contingentes de populações ribeirinhas, as quais, sem uma devida compensação financeira ou apoio para o recomeço da vida em outra região, correm sérios riscos de marginalização. A recente construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Estado do Pará, é um exemplo desse processo nefasto – muitos ribeirinhos deslocados da região por causa das obras incharam a periferia da cidade de Altamira, que já está enfrentando sérios problemas de falta de infraestrutura de serviços públicos e apresentando um aumento dos índices de violência.

Deixando o problema específico das populações deslocadas para uma outra postagem, o enchimento do Lago de Sobradinho criou uma nova paisagem ecológica na região do Semiárido – um grande espelho d’água razoavelmente estável numa região carente do recurso. Essa mudança na paisagem estimulou todo um conjunto de mudanças na região, especialmente no estímulo à produção agrícola irrigada – a região se transformou, ao longo de várias décadas, num importante polo de produção de frutas, inclusive para exportação, proporcionando o chamado “emprego e renda” para milhares de sertanejos. O “Vale do Rio São Francisco” também se tornou a denominação de origem de várias linhas de vinhos regionais, com parreirais irrigados com as águas do Velho Chico (vide foto). Apesar da forma traumática como foi levado a cabo, o represamento do Rio São Francisco atendeu aos objetivos estabelecidos pelo antigo regime militar: proporcionar a regularização da vazão do Rio, gerar energia elétrica e estimular a produção agropecuária pelo aproveitamento das águas. O baixo nível das águas do Lago de Sobradinho nos últimos anos tem colocado tudo isso perigosamente em cheque.

Os produtores de frutas da região vem amargando sucessivas perdas de produção e enormes prejuízos financeiros criados pelas dificuldades na captação de água para a irrigação de suas plantações. Com a redução do volume de água armazenada no Lago de Sobradinho, a linha de margem passou a sofrer um forte e constante recuo, obrigando os produtores a instalar tubulações cada vez mais extensas e de bombas cada vez mais potentes a fim de conseguir irrigar as suas plantações – em alguns lugares a água recuou vários quilômetros, inviabilizando a produção rural.

A produção de energia elétrica na Usina de Sobradinho também corre riscos – o funcionamento das unidades geradoras depende do fluxo constante de um certo volume de água descendo a partir de uma altura mínima, o que garante a energia potencial necessária para girar as turbinas. Com a queda contínua do nível do reservatório, o desnível mínimo para o acionamento das máquinas é atingido e a produção de energia corre o risco de ser reduzia ou interrompida.

Em resumo – o Lago de Sobradinho se transformou numa vitrine de todos os problemas ambientais, econômicos e sociais vividos em toda a bacia hidrográfica do Rio São Francisco. A coisa é muito mais séria do que pode aparentar e exige mudanças drásticas na relação entre os homens e as águas, de preferência enquanto ainda existir alguma água.

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