IBA, UM QUASE “FURACÃO” BRASILEIRO

Iba

Nos últimos dias, o ciclone tropical Iba tem ocupado bastante espaço nos telejornais brasileiros. Localizado a cerca de 200 km da costa brasileira entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo, o Iba, nome dado pela Marinha e que significa “ruim” em tupi-guarani, ficou um passo de atingir a classificação de furacão – felizmente, ele perdeu força e entrou para a classificação de tempestade tropical. 

Os ciclones são sistemas onde a pressão do ar é menor em relação a áreas próximas. Nessas regiões, o ar quente, que é mais leve, tende a subir na atmosfera, gerando a formação de nuvens carregadas de unidade. Dependendo da região do globo terrestre onde os ciclones se formam, eles podem ser chamados de tropicais, subtropicais e extratropicais. Antes de atingir a classificação de ciclone, esses sistemas passam pela fase de depressão tropical, onde os ventos podem atingir uma velocidade de até 62 km/h, e de tempestade tropical, onde os ventos tem velocidade entre 62 e 117 km/h. 

A Marinha do Brasil, que é a responsável pelo monitoramento climático da área marítima do país, já trabalhava com a perspectiva de formação de um ciclone tropical nessa região neste início de outono. A Marinha possui uma lista de nomes para batizar os possíveis ciclones que se formem em águas marítimas brasileiras. Esses nomes, todos em tupi-guarani, incluem Jaguar (onça), Kurumi (menino), Mani (deusa indígena), Oquira (broto de folhagem) e Potira (flor). O nome Iba era o primeiro dessa lista e foi usado para batizar esse ciclone tropical.

Iba se formou no último sábado, dia 23, a cerca de 150 km da cidade de Porto Seguro, no Estado da Bahia, e começou a mostrar seus primeiros efeitos na costa na segunda-feira, dia 25, quando os ventos atingiram velocidade próxima dos 60 km/h na costa e superiores a 100 km/h em alto-mar. Esses ventos podem provocar ondas de até 4 metros de altura nas proximidades do litoral Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, o que levou a uma série de alertas da Marinha e da Defesa Civil para as embarcações, banhistas e populações das áreas costeiras

Em cidades do extremo Sul a Bahia, como em Mucuri e Nova Viçosa, as aulas foram suspensas preventivamente. A energia dos sistemas de iluminação pública dessas cidades também foi desligada, de forma a se evitar acidentes com eventuais quedas de fios e com curtos-circuitos. Esses tipos de medidas preventivas não são usuais aqui no Brasil, porém são praticadas adotadas em vários países em situações semelhantes e precisam passar a fazer parte dos protocolos de segurança de nossas cidades. 

Ciclones e tempestades tropicais que se formam em alto-mar podem ser devastadoras caso se desloquem em direção da costa. O ciclone Idai, que devastou extensas áreas de Moçambique, Botswana Malawi no último dia 15, fez exatamente isso e avançou por cerca de 500 km continente adentro. O nosso Iba manteve a sua posição em relação à costa e passou a se deslocar lentamente rumo ao Leste. 

A formação de ciclones tropicais e subtropicais no Oceano Atlântico Sul são fenômenos extremamente raros. A região possui forte ventos alísios, que impedem a formação desses sistemas, além de não existir perturbações tropicais ou uma zona convergência intertropical ao Sul da Linha do Equador. Outra característica dessa região é a presença de águas frias vindas do Sul do continente. Existem muitas divergências entre os meteorologistas quanto ao número exato, mas se considera que apenas 5 ciclones tropicais foram registrados no Atlântico Sul. O período de maior probabilidade para a ocorrência de um ciclone nessa região será no verão, quando as águas do Oceano estiverem mais quentes. 

Um desses raríssimos eventos foi o Furacão Catarina, um sistema que atingiu a região Sul do Brasil no final de março de 2004. O fenômeno climático teve início a partir do desenvolvimento de um ciclone extratropical de núcleo-frio em 12 de março. Cerca de uma semana depois, o sistema seguiu na direção Leste-Sudeste, até se estacionar no dia 22. Com a ação dos ventos e com a temperatura da água do mar acima da média, o sistema gradualmente passou a ganhar força, passando da classificação de ciclone extratropical para ciclone subtropical em 24 de março. Mantidas as mesmas condições ambientais, o sistema evolui para a classificação de ciclone tropical em 25 de março, com ventos bastante intensos. 

No dia 26 de março, o sistema passou a apresentar ventos de até 180 km/h e atingiu a categoria (ou tipo) 2 na escala de furacões Saffir-Simpson, ganhando o nome de Catarina, o primeiro registro de um ciclone tropical no Atlântico Sul. De acordo com análises de meteorologistas dos Estados Unidos, o Catarina foi na verdade um furacão, uma conclusão que não foi aceita pelos profissionais da área aqui no Brasil. 

O Catarina atingiu seu pico de intensidade no dia 28, data em que a tormenta atingiu a costa brasileira entre as cidades de Passo de Torres e Balneário Gaivota, em Santa Catarina. Cerca de 1.500 residências foram destruídas e outras 40 mil sofreram danos. O rastro de destruição deixou 11 mortos e 518 pessoas feridas. O Catarina também causou grandes prejuízos nas áreas rurais da região, destruindo cerca de 85% das plantações de banana e 40% dos campos de cultivo de arroz. Mais de 14 municípios da região decretaram situação de calamidade pública após a passagem do furacão/ciclone Catarina

Nos países mais desenvolvidos, as regiões propensas a riscos de furacões (denominação dada no Oceano Atlântico) e tufões (nome dado no Oceano Pacífico), contam com sofisticados sistemas de alerta que, conforme a gravidade da situação, permitem evacuar as áreas de riscos com antecedência, minimizando os riscos para as populações. Mesmo quando não há espaço para a evacuação, a população tem tempo de comprar mantimentos e água, além de conseguir reforçar portas e janelas com placas de madeira. São esses sistemas de alerta e toda uma infraestrutura de apoio que permitem minimizar os estragos e as vítimas dessas tragédias ambientais. E mesmo com tudo isso, tragédias como a que se seguiu ao furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans em 2005, ainda podem acontecer. 

Uma das prováveis consequências do Aquecimento Global será um aumento da temperatura das águas dos oceanos, algo que já pode ser observado no Oceano Índico. Esse eventual aumento na temperatura das águas do Oceano Atlântico Sul poderá tornar mais frequentes a ocorrência de ciclones como o Iba, aumentando consideravelmente a possibilidade de ocorrência de novos “furacões” como o Catarina. Vale lembrar que grande parte da população brasileira vive numa faixa estreita ao longo do litoral, em cidades que não estão preparadas para eventos climáticos dessa magnitude. 

Grandes cidades brasileiras como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, que fica a pouco mais de 60 km do litoral, mal conseguem conviver com as fortes chuvas de verão, quiçá à passagem de um furacão… 

Que os céus celestiais nos ajudem!

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