A DESTRUIÇÃO DAS FLORESTAS DO SUDESTE ASIÁTICO

Destruição de florestas no Sudeste Asiático

Nas últimas postagens publicadas aqui no blog falamos de um dos mais graves problemas ambientais dos países da área continental do Sudeste Asiático – a péssima gestão dos recursos hídricos, onde o grande destaque (no sentido mais negativo da palavra) é o rio Mekong. Infelizmente, os problemas ambientais da região extrapolam a questão das águas e avançam cada vez mais na direção das florestas. Os desmatamentos para a ampliação de áreas de produção agrícola e para a extração de madeira são cada vez mais recorrentes em toda região. 

A exceção de Mianmar, nome atual da antiga Birmânia, que é uma país bastante fechado e que ainda mantém a imensa maioria de suas áreas florestais bem conservadas, a situação das florestas nos demais países do Sudeste Asiático é, no mínimo, caótica. Uma das causas recentes dessa acelerada perda de cobertura florestal na região são as importações de madeira para a China, país que está entre os maiores consumidores desse recurso no mundo. Indonésia e Malásia estão entre os maiores exportadores de madeira para a China. Também entram nessa conta e expansão das plantações de palma da Guiné, cujo fruto é usado na produção do azeite de dendê, e de seringueiras produtoras do látex

Apesar de Mianmar escapar da lista dos grandes destruidores de florestas locais, o país vive um gravíssimo problema social, e por consequência ambiental, ligado às populações hohingyas, um grupo étnico que pratica a religião muçulmana e que fala um idioma de origem bengali, uma das línguas oficiais da Índia. Para entender a situação desse grupo étnico, é preciso apelar para a geografia física – o continente asiático é divido “ao meio” pelas Montanhas Himalaias.  

Do lado oriental dessas Montanhas, a população é de origem mongol – são chineses, coreanos, japoneses, vietnamitas, entre outros. Do lado ocidental, as populações são de origem indo-europeias – são indianos, afegãos, iranianos, árabes, turcos, caucasianos e eslavos, entre outros. Ou seja, a divisão territorial criada pela grande cadeia das Montanhas Himalaias criou uma divisão na geografia humana e cultural entre os diferentes povos da Ásia. 

Em Mianmar, essa divisão física dos territórios não existe, o que permitiu a migração dos povos indo-europeus do grupo rohingya ainda na Idade Média. As populações nativas de Mianmar, de origem mongol, nunca aceitaram completamente a presença desses “estrangeiros” em seu território. Nos últimos anos essa discriminação partiu para o campo da violência e centenas de milhares de rohingyas foram obrigados a fugir para a fronteira com Bangladesh (vide foto abaixo), criando uma gigantesca onda de refugiados que ainda está longe de ser resolvida. 

Rohingyas

As atividades de exploração intensa dos recursos florestais no Sudeste Asiático são antigas e começaram na época das grandes navegações, quando os primeiros exploradores europeus chegaram na região em busca das “especiarias do Oriente”. Além dos valiosos temperos, pimentas, pedras preciosas e corantes orientais, esses exploradores/mercadores também tinham grande interesse nas ótimas madeiras da região como o sândalo e o aloé, usadas tradicionalmente na construção de móveis e objetos de luxo. Depois passaram a ganhar importância as madeiras para a construção civil e naval. 

Países como Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra rapidamente foram conquistando seus espaços na região e estabeleceram suas colônias, entrepostos comerciais e protetorados. Falando de maneira bem resumida, surgiram as colônias portuguesas em Gôa, Damão e Diu na Índia, Macau na China e Timor no Extremo Leste do arquipélago indonésio; as Filipinas da Espanha, o vice-reino da Índia da Inglaterra, a Malásia da Holanda e a Indochina da França. Todas essas nações europeias usaram e abusaram dos recursos naturais da região por muito tempo.  

Citando um único exemplo: a criação dos grandes seringais produtores de látex nas colônias inglesas da região, que foram os responsáveis diretos pelo fim da demanda do látex da Amazônia a partir do final do século XIX. Milhares de quilômetros de florestas nativas do Sudeste Asiático foram derrubadas para a introdução das seringueiras “inglesas” (lembrando aqui que os ingleses roubaram as sementes da seringueira na Amazônia). 

Em décadas mais recentes, foi a expansão das plantações da palma da guiné a grande vilã do desmatamento regional, principalmente na Indonésia e na Malásia. Conforme comentamos em postagens anteriores, o óleo da palma, mais conhecido aqui no Brasil como azeite de dendê, foi elevado à falsa condição de “combustível renovável”. O óleo de palma passou a ser exportado em grande escala para ser usado como aditivo no óleo diesel em muitos países, principalmente na Europa. 

Destruição de florestas

Nos últimos anos, a faixa de “grande vilã” dos desmatamentos no Sudeste Asiático passou para as mãos da China. Na condição de uma das economias que mais cresce no mundo, a China se transformou numa voraz consumidora de minerais, combustíveis, madeiras e outras matérias primas essenciais para o seu desenvolvimento. Pela proximidade geográfica, os países da região foram transformados em grandes fornecedores de muitos desses produtos. 

As importações de madeira pelos chineses tiveram um grande aumento a partir de 1998, quando a região central do país sofreu com as fortíssimas inundações do rio Yangtzé. A fim de prevenir futuras tragédias, o Governo Central da China passou a impor fortes restrições à exploração de madeira nas florestas dessa região. Até 1998, as importações de madeira pela China eram da ordem de 4 milhões de toneladas métricas – em 1999, logo após o início das restrições, essas importações saltaram para 10 milhões de toneladas métricas e não pararam de crescer desde então

Grupos empresariais chineses possuem grandes concessões para exploração de áreas florestais na Malásia, Indonésia e em Papua Nova Guiné, países que possuem legislações ambientais muito fracas e altamente permissíveis, onde praticamente “tudo pode”. Os longos tentáculos chineses também se estendem para a Tailândia, Camboja, Laos e Vietnã. Em anos recentes, grupos empresariais vietnamitas passaram a avançar na direção dos paupérrimos Laos e Camboja, buscando terras para a implantação de seringais e plantações de palma da Guiné. Grandes áreas florestais nesses países também passaram a sofrer com os desmatamentos. 

No arquipélago das Filipinas, a situação é um pouco diferenciada – por causa de antigos laços comerciais e pela proximidade geográfica, o país foi transformado no grande fornecedor de madeiras para o Japão, nação que durante várias décadas foi a grande potência econômica da Ásia. Conforme comentamos em postagem anterior, as Filipinas ocupam a nada honrosa posição de país com um dos maiores percentuais de destruição de florestas nativas do mundo

Essa destruição massiva de recursos florestais e hídricos se junta aos enormes problemas sociais das populações desses países, transformando o Sudeste Asiático numa das regiões mais insustentáveis do mundo. O moderno conceito de Sustentabilidade é formado pelo equilíbrio das áreas Social, Econômica e. Ambiental. No Sudeste Asiático, infelizmente, o que mais se vê é uma busca frenética e selvagem apenas pelos ganhos econômicos de curto prazo

Sem um cuidado maior com os aspectos Sociais e Ambientais, essa região não vai conseguir chegar muito longe… 

O AMEAÇADO BAGRE-GIGANTE DO RIO MEKONG, OU FALANDO DO DECLÍNIO DA FAUNA AQUÁTICA DE UM GRANDE RIO

Bagre-gigante do rio Mekong

A imagem que ilustra está postagem foi retirada de uma reportagem publicada pela National Geografic Brasil em 2018. Ela mostra o dono de um restaurante em Hanói, no Vietnã, mostrando orgulhosamente um bagre-gigante de 136 kg pescado ilegalmente no Camboja. Essa espécie de peixe, que é considerada uma verdadeira iguaria no Sudeste Asiático, é uma das mais ameaçadas do rio Mekong e resume a situação da fauna aquática fluvial do Sudeste Asiático. 

Conforme temos comentado nas últimas postagens, o importante rio Mekong está sendo agredido por todos os lados. Essas agressões incluem a construção de sucessivas barragens ao longo de sua calha e também a intensa poluição por esgotos domésticos e detritos, lançados por uma infinidade de cidades e populações que vivem ao longo de sua grande bacia hidrográfica. Em anos mais recentes, tem crescido o número de agressões criadas pelo lançamento de efluentes industriais de todos os tipos, gerados por um grande número de empresas que estão se instalando nos países do Sudeste Asiático. 

Todo esse conjunto de agressões ambientais cria enormes problemas e dificuldades para a sobrevivências da fauna aquática do rio Mekong e de todos os seus afluentes. Conforme já comentamos em postagem anterior, esse rio sempre foi um dos mais ricos em vida aquática de todo o mundo. Já foram catalogadas mais de 1.200 espécies de peixes, onde se incluem algumas espécies únicas como os bagres-gigantes (Pangasianodon gigas), a carpa-de-lama-siamesa (Catlocarpio siamensis), mais conhecida como trey riel e a arraia-gigante (Dasyatis laosensis)

Arraia-gigante do Mekong

Rios não são apenas canais escavados nos solos e que servem como via de drenagem de águas pluviais. A história de um rio envolve inúmeros processos geológicos, climáticos e, principalmente, biológicos. A fauna e flora aquática de um rio resultam de uma longa história evolutiva, que em muitos casos, pode remeter ao início da vida no planeta – falamos aqui de eventos iniciados há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás. As primeiras formas de vida aqui do nosso “planetinha azul” surgiram primeiro nas águas dos oceanos e, bem depois, passaram a colonizar outros ambientes como rios, lagos e, finalmente, a terra seca. 

O rio Mekong possui uma grande variedade de espécies animais e vegetais, muitas delas exclusivas do seu ecossistema. Vou destacar as espécies gigantes já citadas: os bagres-gigantes ou peixes-gato desse rio. Em 1981 foi capturada uma fêmea da espécie na Tailândia, que media 2,7 metros e pesava 293 kg. Há relatos, que podem ser as boas e velhas histórias de pescador, de exemplares com até 350 kg. Também já foram capturadas arraias-gigantes com 4,2 m, tamanho que inclui a cauda, e peso superior 300 kg

A evolução e a sobrevivência de espécies fluviais com essas dimensões pressupõem que as águas do rio sustentem uma grande e variada quantidade de espécies vivas. Essas espécies formam as chamadas “cadeias tróficas” ou alimentares, que vão das espécies microscópicas que vivem nos bentos ou sedimentos do fundo do rio e que formam a base da cadeia alimentar, até as espécies que são predadas diretamente pelos grandes peixes. 

A poluição das águas dos rios que formam a bacia hidrográfica do rio Mekong é fatal para muitas das espécies, que desaparecem e deixam vazios na cadeia trófica, prejudicando sistematicamente as espécies que ocupam degraus superiores na cadeia alimentar. A contínua construção de represas hidrelétricas ao longo da calha do rio, por exemplo, prejudica a distribuição de sedimentos e matérias orgânicas essenciais para a nutrição de diversas espécies de plantas e animais das comunidades bentônicas ou microfauna – falamos aqui de animais microscópicos que são encontrados a uma razão de até 5 indivíduos para cada grão de areia. Esse problema repercutirá numa reação em cadeia, afetando todos os animais maiores que se alimentam dessas plantas e pequenos animais 

Também é importante citar a sobrepesca de várias espécies, como é o caso dos bagres-gigantes. Esse peixe é considerado um dos mais nobres e saborosos, sendo muito procurado nos países do Sudeste Asiático e em grande parte da Ásia. Consumidores de diversos países não se negam a pagar verdadeiras fortunas para saborear essa iguaria, consumida em eventos especiais como casamentos, festas religiosas e no dia do Ano Novo. Os diversos países que formam a bacia hidrográfica do rio Mekong até estabelecem restrições para a pesca da espécie, porém, existem grandes redes de pescadores ilegais e de contrabandistas especializados. 

Como resultado da fragmentação do habitat, da poluição e da sobrepesca, muitas espécies estão desaparecendo em grande parte da bacia hidrográfica, só sendo encontradas em alguns rincões e ambientes mais isolados. Essa pulverização de populações também cria consequências na reprodução das espécies, contribuindo para a redução e diminuição da diversidade genética das populações, o que no médio e longo prazo significa a extinção de muitas das espécies

Na região do delta do rio Mekong no Vietnã, os principais problemas estão associados à redução dos caudais do rio e à invasão da área por água do mar. Diversas espécies de plantas e animais que, ao longo de milhões de anos passaram por processos evolutivos para se adaptar ao ambiente, agora sofrem com a redução do seu habitat e com a invasão de espécies marinhas. Os problemas também se refletem na salinização dos solos agrícolas – o arroz, principal alimento cultivado no delta, não tolera solos e águas salgadas. 

Além dos peixes, crustáceos, moluscos, vermes e plantas totalmente aquáticas, os problemas ambientais nas águas do rio Mekong afetam outras espécies semi-aquáticas onde se incluem mamíferos, répteis, anfíbios e insetos, entre outras. Entre as espécies ameaçadas existe um animal carismático e que é uma das chamadas “espécies bandeira” do rio – os golfinhos-do-irrawaddy, sobre os quais já falamos em postagens anteriores. Esses divertidos golfinhos costumavam ser abundantes em grande parte da calha do Mekong e atraíam verdadeiras multidões de turistas. 

Golfinho-do-irrawady brincando

Os golfinhos-do-irrawady estão reduzidos a poucas dezenas de animais nos dias de hoje, encontrados em apenas alguns trechos do rio com melhores condições ambientais. As principais causas do desaparecimento da espécie são a poluição das águas e a redução dos estoques de alimentos para os animais, os afogamentos em redes de pesca, os atropelamentos por embarcações, além dos encalhes em bancos de areia devido à redução dos caudais do rio. 

A situação da espécie só não é mais trágica por que os golfinhos-do-irrawady também são encontrados em diversas regiões de foz de rios em outros locais do Sul e Sudeste da Ásia, inclusive nos arquipélagos indonésio, malaio e filipino, além de áreas no Norte da Austrália e de Papua Nova Guiné. 

Além dos irreparáveis problemas para as espécies animais e vegetais das águas do rio Mekong, as populações humanas estão sendo diretamente afetadas pela degradação ambiental. As dificuldades vão desde o abastecimento de água e irrigação de plantações até a redução da produção pesqueira, fonte essencial de proteínas para muita gente. As divisas obtidas com o turismo também começam a fazer falta, ameaçando a renda de muitas famílias. Turistas não vão continuar atravessando o mundo para visitar um rio poluído e sem vida nos confins da Ásia, mesmo com o apelo histórico e cultural dos exóticos países da região. 

Em resumo, essa é a triste situação de um dos mais importantes rios do mundo e de milhões de habitantes da Tailândia, Camboja, Mianmar, Laos e Vietnã, além de um pequeno trecho da China. 

A EXPANSÃO INDUSTRIAL DA CHINA EM PAÍSES DO SUDESTE ASIÁTICO

Fábrica de tênis no Sudeste Asiático

Em postagens recentes, tratamos dos gravíssimos problemas de poluição do ar e da água na China. A necessidade de grandes volumes de energia elétrica para alimentar fábricas e empresas de todos os setores está na raiz da poluição do ar nas médias e grandes cidades da China – perto de 80% dessa geração é feita pelas poluentes usinas termelétricas a carvão, Já a poluição das águas, essa está ligada aos lançamentos irregulares de esgotos domésticos e industriais, despejos de resíduos de cidades e fazendas, além do carreamento de resíduos de fertilizantes e pesticidas usados na agricultura do país. 

Felizmente, as coisas estão começando a mudar no país, ainda que muito lentamente. Em 2018, o Governo Central da China introduziu uma série de mudanças na legislação ambiental do país, buscando com isso uma reversão da caótica situação das cidades e rios do país. Um exemplo dessas mudanças foi a proibição das importações de resíduos plásticos para reciclagem na China, uma medida que provocou a migração de muitas dessas importações para países da região como Vietnã, Malásia, Filipinas, Indonésia, Índia e Bangladesh

Essa mudança na política ambiental chinesa está provocando uma verdadeira guinada na mentalidade empresarial do país, acostumada até então com o mais selvagem dos capitalismos do mundo. Grandes e médias empresas estão implantando seus programas de gestão ambiental e, muito lentamente, já se percebem melhoras na qualidade do ar e da água em muitas regiões. A China é hoje o país líder na emissão de Certificações Ambientais da Série ISO 14001

É claro que não se consegue “fazer a cabeça” de todos os capitalistas selvagens da China ao mesmo tempo – muitos dos que estão fazendo dinheiro com suas empresas sujas optaram por continuar a trabalhar do mesmo, jeito transferindo as atividades mais poluentes para países vizinhos do Sudeste Asiático, onde as frágeis leis ambientais estão cheias de brechas

A guerra comercial que vem sendo travada entre os Estados Unidos e a China também vem dando a sua contribuição para a migração, ao menos parcial, de algumas atividades de empresas chinesas para os países vizinhos. Essa mudança de “domicílio” visa burlar as cotas de importação estabelecidas pelos norte-americanos para vários produtos chineses e também para fugir do pagamento de taxas extras de importação.  

Nos primeiros meses de 2019, citando um exemplo, as exportações do Vietnã para os Estados Unidos cresceram 40% enquanto as exportações da China diminuíram 14%, conforme apontou a alfândega norte-americana. As autoridades dos Estados Unidos estão atentas a esse inesperado aumento de exportações dos países do Sudeste Asiático para o país e a todas as possíveis fraudes fiscais envolvidas. 

Um outro fator importante para a migração de indústrias chinesas para as “vizinhanças” são os crescentes aumentos dos custos de produção na China. Durante décadas a fio, os baixíssimos salários pagos aos operários chineses estimularam a produção de todos os tipos de produtos no país. Com o crescimento econômico e tecnológico que adveio dessa fase dos trabalhos mais braçais, houve um aumento substancial na qualificação da mão de obra na China e também uma mudança no perfil da produção.  

Atualmente, parte importante da produção do país agrega um grande conteúdo tecnológico local, o que, entre outras coisas, implica no pagamento de salários mais altos para os trabalhadores mais qualificados. Esses aumentos de custos estão tornando a mão de obra chinesa cara demais para atividades mais manuais como a produção de roupas, calçados, brinquedos e outras “quinquilharias” Made in China.  

Muitas das empresas desses setores estão partindo em busca de mão de obra mais  barata  (quando não escrava e/ou infantil) e legislações ambientais mais “brandas” em países vizinhos como a Tailândia, Filipinas, Vietnã, Indonésia, Laos, Camboja e Mianmar. Os tradicionais métodos de produção selvagem e a intensa poluição gerada nas linhas de produção estão chegando a esses países nas bagagens dos empresários chineses. 

Trabalho infantil em Mianmar

Aqui vale um parêntese: a partir da década de 1960, com o surgimento do movimento ambientalista, empresas poluídoras da Europa e dos Estados Unidos foram obrigadas a se refugiar em países do chamado Terceiro Mundo, onde se incluem nações como a China, a Índia e o Brasil. Surgiram assim grandes centros industriais poluídos como Cubatão, no litoral do Estado de São Paulo, e Bhopal, na Índia. Também foram desencadeadas grandes tragédias ambientais e sociais nesses locais.

Um grande exemplo desses novos tempos são os famigerados tênis da empresa norte-americana Nike, que ficaram famosos em todo o mundo décadas atrás por empregarem intensivamente mão de obra infantil nas linhas de produção em países pobres da Ásia. No ano 2000, 40% dos tênis vendidos pela Nike foram produzidos na China e 13% no Vietnã. Atualmente, 41% da produção da empresa vem do Vietnã e 32% continuam sendo fabricados na China. Essa mesma tendência é verificada em inúmeras outras empresas internacionais de produtos de consumo

Mão de obra escrava

Agora, vamos mostrar o lado ruim desse brusco crescimento industrial nos países do Sudeste Asiático. Poucos meses atrás, a polícia ambiental vietnamita foi deslocada para as cercanias da cidade de Ho Chi Minh, no Sul do país, para investigar as causas da intensa poluição em um trecho de 15 km do rio Vai Thi. A polícia identificou uma série de empresas que lançavam despejos industriais no rio através de tubulações clandestinas. Entre essas empresas havia um curtume, atividade famosa pelo uso de produtos compostos por metais pesados como os sais de cromo, mercúrio e cianureto. Também foram fechadas empresas do ramo alimentício e de produtos químicos. 

Uma dessas empresas recebeu uma multa de US$ 16 mil e foi condenada a pagar uma indenização por danos ambientais no valor de US$ 7.65 milhões. Devido a uma série de recursos existentes na legislação ambiental local, a empresa recorreu das multas e continua funcionando normalmente. Os policiais também ordenaram o fechamento do curtume, que recorreu aos órgãos competentes e continua funcionando e poluindo o rio com toda a naturalidade de sempre. Esse “jeitinho” Asiático se repete em todos os países da região, o que está transformando essa parte do mundo numa espécie de paraíso para as empresas poluidoras, principalmente as de origem chinesa. 

O rio Mekong, que é o principal corpo d’agua do Sudeste Asiático, está recebendo grandes quantidades de poluentes e resíduos gerados por todas essas atividades industriais e está pagando um alto preço pela degradação de suas águas. Essa contaminação está prejudicando a pesca, o abastecimento de populações e, principalmente, a produção agrícola. Conforme comentamos na última postagem, o arroz é o principal alimento consumidos pelas populações da Ásia e a bacia hidrográfica do rio Mekong é um dos grandes celeiros dessa cultura agrícola

Apesar de todos nós aqui no Ocidente estarmos bem longe de todo esse caos ambiental, social e econômico, nós damos a nossa contribuição para a sua existência quando compramos os produtos feitos pelas empresas locais – nossos tênis incrementados, roupas, brinquedos, produtos eletrônicos “bem balatinhos”, entre outros supérfluos comprados em barracas de camelôs. 

Essa selvageria industrial pós-contemporânea está matando e vai matar muita gente, seja em acidentes de trabalho seja através do envenenamento das águas, ares e terras. E nós, direta e indiretamente, estamos sendo cúmplices de tudo isso. 

O BOM E VELHO ARROZ, OU FALANDO DE ALGUNS DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS DO RIO MEKONG

Plantações de arroz no rio Mekong

O arroz é o terceiro cereal mais produzido no mundo, só perdendo em volume colhido para o trigo e para o milho. Rico em carboidratos, o arroz é responsável pela alimentação de metade da humanidade, principalmente na Ásia. Existem diversas espécies silvestres da planta em todo o mundo. As espécies consumidas atualmente pela humanidade foram domesticadas há cerca de 10 mil anos atrás, quando teve início a Revolução Verde da agricultura. 

Um dos gêneros mais importantes é o Oryza, que engloba cerca de 23 espécies de arroz encontradas na Ásia, na África e nas Américas. De acordo com os especialistas, as espécies Oryza rufipogon e Oryza sativa originaram, através de diversos cruzamentos artificiais, algumas das principais espécies de arroz produzidas na atualidade

O arroz foi, muito provavelmente, o primeiro e principal alimento cultivado na Ásia. Evidências arqueológicas indicam que a planta “já domesticada” era cultivada ao longo do rio Yangtzé na China entre 8 mil e 10 mil anos atrás. Existem alguns estudos controversos que remetem o início do plantio do arroz “selvagem” por populações neolíticas há 15 mil anos na Coreia.

Na literatura escrita da China, as primeiras referências textuais ao arroz datam de 5 mil anos atrás. No Subcontinente Indiano, o arroz também vem sendo cultivado desde o surgimento das primeiras civilizações nos vales dos rios Indus e Ganges. O cereal é citado em todas as escrituras sagradas desses povos, sendo usado também como oferenda em diversas cerimônias religiosas. 

De acordo com o que existe de consenso entre historiadores e arqueólogos, a cultura do arroz se expandiu a partir da China para todo o extremo Leste da Ásia,  principalmente para a Coreia e o Japão, e Sudeste Asiático, onde se inclui os arquipélagos indonésio, malaio e filipino. A partir do Subcontinente Indiano, a cultura se estendeu por toda a Ásia Central, Oriente Médio e Europa, onde as primeiras plantas desembarcaram  entre os séculos VII e VIII na Península Ibérica e nos Balcãs. 

Diversas populações americanas pré-colombianas cultivavam espécies locais de arroz. Os indígenas brasileiros plantavam uma espécie que era chamada de abati-uaupé ou “milho d’água”. Consta que alguns tripulantes da expedição de Pedro Álvares Cabral coletaram algumas amostras desse arroz em uma área alagada a cerca de 5 km do local de desembarque da expedição descobridora em 1500. Existem também registros de Américo Vespúcio, navegador e geógrafo que participou de uma grande expedição exploratória entre 1503 e 1504 sob o comando de Gonçalo Coelho, sobre grandes plantações dessa espécie de arroz em áreas alagadas da Amazônia. 

Mekong, o principal rio do Sudeste Asiático, vem sendo uma importante área de cultivo de arroz desde a antiguidade. A planta acompanhou os diversos grupos humanos que se se assentaram na região e o rio Mekong, com seus ciclos de cheia e de seca, ofereceu as condições ideias para o cultivo e a produção desse alimento para grandes populações. 

Entre as principais necessidades da cultura do arroz destacam-se a sua grande exigência por água em abundância e de ambientes com temperaturas sem variações bruscas, características típicas da região do Sudeste Asiática e de grande parte da bacia hidrográfica do rio Mekong. Outra necessidade da cultura é o uso intensiva de mão de obra, algo que nunca foi problema nessa região superpovoada. 

Uma das mais importantes regiões produtoras de arroz do mundo fica localizada no delta do rio Mekong, no Vietnã. Essa região ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², equivalente a duas vezes o território do Estado de Sergipe, além de possuir cerca de 4 mil ilhas e 3.200 km de canais. Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes. 

As formações conhecidas como deltas são encontradas normalmente na foz de rios de planície, onde as águas se dividem em vários braços ou canais antes do encontro com as águas de um lago, rio ou oceano. Devido à baixa declividade dos terrenos, as regiões dos deltas favorecem o acúmulo de sedimentos carreados pelos rios, o que leva a formação de ilhas. Com solos férteis e grande disponibilidade de água, a região do delta do Mekong se transformou numa espécie de “paraíso” para os plantadores de arroz. Aliás, as mais antigas referências escritas dos chineses em relação aos vietnamitas tratam esse povo como “os pacíficos plantadores de arroz do Sul”. 

Grandes áreas alagáveis ao longo do rio Mekong no Camboja, no Laos, na Tailândia, em Mianmar e na China também passaram a abrigar importantes centros produtores desse cereal. O grande volume de chuvas na região, principalmente na chamada Temporada das Chuvas da Monção, permitiu o desenvolvimento de técnicas de cultivo do arroz em encostas de morros, onde os agricultores constroem pequenos campos alagáveis no formato de terraços ou “degraus”. 

Plantação de arroz em terraços no Vietnã

Toda essa técnica agrícola ancestral está sendo muito ameaçada nos últimos anos pelas mudanças climáticas, pela redução dos caudais do rio Mekong e de muitos dos seus afluentes, além de intensa contaminação das águas por esgotos, poluentes químicos e resíduos de defensivos agrícolas. A região do delta do rio Mekong também sofre com a intrusão de água do mar devido à redução dos caudais, o que também ameaça os solos com a salinização. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Oceano Índico, entre todos os mares do planeta, é o que mais vem sofrendo com as mudanças climáticas. O aumento da temperatura do planeta está provocando o derretimento acelerado de grandes massas de gelo no Continente Antártico. Grandes volumes de água doce têm alcançado o Oceano Índico, provocando alterações na direção e na temperatura de importantes correntes marítimas. 

Essas mudanças no Oceano Índico têm reflexos na formação das correntes de ventos que carregam as grandes nuvens de chuva na direção dos continentes. Como resultado, muitas regiões estão apresentando alterações significativas nos padrões tradicionais das chuvas – regiões do Sul e Sudeste da África tem sofrido com fortes secas. No extremo Leste da África as chuvas estão acima da média histórica. As Chuvas da Monção no Subcontinente Indiano e no Sudeste Asiático, por sua vez, estão bastante irregulares de um ano para outro. 

Outro problema, comentado na postagem anterior, está sendo provocado pelo grande número de barragens de usinas hidrelétricas já construídas e/ou em construção ao longo do rio Mekong por diferentes países. Essas construções estão alterando os ciclos naturais de cheias do rio, inviabilizando assim o plantio do arroz em áreas que antes eram alagáveis. É essa alteração na dinâmica das águas que também está por trás da invasão da região do delta do rio Mekong por águas do mar. 

Por fim e não menos importante, existe também um grave problema de poluição das águas. Mais de 100 milhões de pessoas vivem na região da bacia hidrográfica do rio Mekong. São inúmeras cidades gerando grandes volumes de esgotos e resíduos sólidos, que acabam sendo lançados nas águas do rio sem nenhum tratamento ou critério. Os campos de arroz também representam graves problemas devido ao uso cada vez maior de defensivos químicos e fertilizantes – resíduos desses produtos acabam sendo carreados pelas chuvas para a calha do rio

Um problema bem mais recente está tomando conta de diversos trechos do rio – o forte crescimento industrial. Mudanças na legislação ambiental e trabalhista na China estão levando a uma verdadeira corrida migratória de empresas chinesas para os países do Sudeste Asiático, onde os salários são mais baixos e as legislações trabalhistas e ambientais são bem mais frouxas do que as da China. Esta “industrialização selvagem” está transformando grandes trechos do rio Mekong e de seus afluentes em verdadeiros esgotos a céu aberto. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

OS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS E POLÍTICOS DO RIO MEKONG

Rio Mekong

Mekong é o maior e o mais importante rio da região do Sudeste Asiático. Com cerca de 4.300 km de extensão (algumas fontes falam de 4.990 km), ele nasce no trecho tibetano da Cordilheira do Himalaia, uma região controlada pela China desde meados da década de 1950, e atravessa outros cinco países da região: Mianmar, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã, onde se abre numa grande região deltaica. 

Cerca de 100 milhões de pessoas, pertencentes a quase uma centena de grupos étnicos diferentes, vivem ao longo das margens do rio Mekong e dependem, direta ou indiretamente, de suas águas. Somente no Delta do rio Mekong no Vietnã, uma região com aproximadamente 40 mil km², vivem cerca de 17 milhões de pessoas, população que depende das águas do rio para abastecimento, transporte e irrigação dos campos de arroz. 

O Vietnã, país sobre o qual falamos rapidamente na nossa última postagem, é o terceiro maior produtor mundial de arroz, produto que é considerado um dos melhores do mundo. Aliás, há várias décadas o país exporta a maior parte da sua produção e importa arroz de qualidade inferior para o abastecimento de sua população, gerando assim receitas em moeda estrangeira para equilibrar sua balança de pagamentos. 

O delta do rio Mekong tem uma ligação muito especial com os falantes da língua portuguesa – o navio em que o grande poeta Luís Vaz de Camões viajava naufragou na região por volta de 1565, quando fazia uma viagem entre Macau, na China, e Goa, na Índia. Reza uma lenda, bastante contestada pelos historiadores, que foi durante esse naufrágio que Camões teve de tomar uma difícil decisão – salvar o manuscrito dos Lusíadas, obra em que estava trabalhando há vários anos, ou salvar Dinamene, sua jovem amante chinesa. Camões escolheu salvar seus manuscritos e passou meses vivendo como um náufrago no delta do rio Mekong, até conseguir ser resgatado. 

As águas do rio Mekong são altamente disputadas entre todos os países que formam a sua bacia hidrográfica, uma situação que cria grandes problemas a nível regional. Diversas barragens de usinas hidrelétricas já foram construídas e existem pelo menos doze grandes projetos em andamento. A China, país cada vez mais sedento por energia elétrica, já construiu três hidrelétricas no alto rio Mekong e está construindo mais uma unidade geradora – esse conjunto de represas já causou uma redução substancial nos caudais do rio. O Laos pretende construir oito unidades, o Camboja duas, além de duas hidrelétricas previstas na fronteira entre a Tailândia e o Laos.  

Esse grande número de barragens de usinas hidrelétricas já construídas e/ou em construção formam blocos independentes, sem que haja um diálogo mais aprofundado entre os diferentes países e sem a realização de grandes estudos de impacto ambiental em toda a bacia hidrográfica do rio Mekong. O rio está sendo, literalmente, retalhado em diferentes trechos, o que impede a livre circulação de espécies aquáticas e a comunicação e os transportados entre os diferentes grupos étnicos. Os governantes locais esqueceram que o rio Mekong é um meio ambiente único. 

Os graves problemas começam com as alterações já provocadas na dinâmica dos caudais do rio, que tradicionalmente alterna ciclos de grandes cheias e de grandes secas. A região do Sudeste Asiático é assolada anualmente pela temporada das Chuvas da Monção, fortes ventos gerados no Oceano Índico que carregam pesadas nuvens na direção do Sul e Sudeste da Ásia, provocando uma fortíssima temporada de chuvas e grandes enchentes. Essas chuvas carreiam grandes quantidades de sedimentos e matéria orgânica para a calha do rio, que distribui esses materiais sobre os solos das margens alagadas. 

Chuvas da Monção

Quando as águas baixam, as populações locais tem a sua disposição grandes extensões de solo fértil para plantar e produzir os alimentos que consumirão ao longo de todo o ano. Com a formação de sucessivas represas ao longo do rio Mekong, todo esse ciclo natural está sendo modificado: as grandes enchentes não existem mais e os antigos solos agrícolas não conseguem renovar a sua fertilidade. A produtividade de alimentos vem caindo ano após ano. 

Uma das regiões mais afetadas pela redução dos caudais do rio Mekong é a região do delta, no Vietnã, onde já ocorre um acelerado processo de invasão de água do mar (língua salina) e a salinização dos solos. Um problema semelhante ocorre aqui no Brasil, o que comentamos em diversas postagens: a redução dos caudais do rio São Francisco e a invasão da água do mar em sua foz. Assim como ocorre no rio Mekong, a calha do rio São Francisco foi tomada por uma sucessão de barragens de usinas hidrelétricas ao longo dos últimos 50 anos. A vazão do rio atualmente é apenas uma fração do que já foi no passado. 

A fauna aquática do rio Mekong também está sendo muito ameaçada. Uma das espécies mais carismáticas e ameaçadas do rio são os golfinhos-do-irrawaddy. Esses golfinhos podem atingir um comprimento de até 2,75 m e um peso máximo de 200 kg. A sua cor fica entre o cinza e o azul escuro, tendo a parte inferior em tons pálidos. A espécie, que já foi abundante no rio Mekong e uma grande atração para os turistas que visitam a região, está reduzida a poucas dezenas de indivíduos. 

Golfinhos-do-Irrawaddy

Populações isoladas de golfinhos-do-irrawaddy são encontradas em rios e estuários desde o delta do rio Ganges, na Baía de Bengala, até o Norte da Austrália, incluindo as costas do Estreito de Malaca, áreas costeiras das Ilhas Indonésias nos mares de Java, das Flores, de Banda, de Timor e de Arafura, além de áreas costeiras no Golfo da Tailândia e do Sul do Mar Meridional da China. Esses golfinhos, que compartilham ancestrais comuns com as orcas, têm como características principais a cabeça redonda e um bico muito curto, lembrando muito as belugas.  

Entre as principais causas do forte declínio populacional dessa espécie estão a caça predatória, a morte de animais que se afogam ao ficar presos nas redes de pesca, “atropelamentos” por embarcações, encalhes em bancos de areia devido à forte redução dos caudais do rio e também devido a intensa poluição das águas em muitos trechos do rio Mekong, especialmente pelo carreamento de resíduos de pesticidas agrícolas usados nas plantações de arroz

Entre as populações de peixes, a situação não é nada melhor. O rio Mekong tem aproximadamente 1.200 espécies de peixes e costumava produzir anualmente mais de 2 milhões de toneladas de pescados, alimento essencial para as populações. Essa produção pesqueira está declinando rapidamente e ameaçando a segurança alimentar de milhões de pessoas

A espécie de peixe mais conhecida e explorada comercialmente no rio Mekong é a carpa de lama siamesa, também conhecida como trey riel. Esse peixe é tão popular e reconhecido pelas populações locais que seu nome foi dado à moeda do Camboja – o riel. Outra espécie importante é o peixe-gato do Mekong, que pode atingir até 2,75 m de comprimento e peso acima dos 250 kg. A espécie está seriamente ameaçada de extinção por causa da pesca intensiva. Outra espécie impressionante da fauna do rio Mekong é a arraia gigante (Dasyatis laosensis), que só foi descrita pela ciência bem recentemente – já foram capturados exemplares com 4,2 m de comprimento, 2 m de largura e peso superior a 300 kg. 

Continuaremos na próxima postagem. 

OS ECOS DE UMA GUERRA SILENCIOSA QUE AINDA SE DESENROLA NO VIETNÃ

Agente Laranja

Na última postagem apresentamos um quadro geral dos gravíssimos problemas ambientais das Filipinas, um país muito pouco comentado nos noticiários internacionais. Como exceção existem as notícias sobre os grandes desastres naturais que ocorrem no arquipélago com alguma frequência e também as excentricidades do Presidente do país, Rodrigo Duterte. 

O Vietnã é um país vizinho das Filipinas no Sudeste da Ásia e muito mais famoso no cenário internacional. Essa fama do Vietnã foi conquistada devido ao longo e sangrento conflito armado que se desenrolou no país entre 1955 e 1975, onde foram envolvidos também os vizinhos Laos e Camboja. Eu acompanhei muitas reportagens falando sobre a Guerra do Vietnã na minha infância, mas só fui começar a entender a loucura daquele conflito quando assisti ao filme Apocalipse Now, de 1979. 

Uma das maiores insanidades militares cometidas naquela guerra pelos norte-americanos foi o uso maciço do Agente Laranja, um potente herbicida usado como desfolhante de árvores. Os militares norte-americanos justificavam a necessidade do uso desse herbicida como uma tática militar – áreas cobertas por densas florestas serviriam de esconderijo para as tropas inimigas, que atacavam os comandos dos Estados Unidos em cruéis emboscadas. Desfolhando as árvores, os inimigos poderiam ser identificados e atacados facilmente por aviões e helicópteros. 

Oficialmente, os militares norte-americanos afirmam ter usado 70 milhões de litros do Agente Laranja ao longo de 10 anos, entre 1961 e 1971. O produto era pulverizado sobre as matas por aviões e helicópteros (vide foto). Estudos recentes feitos nos relatórios militares das operações naquele conflito estão mostrando que o volume usado foi muito maior, superando os 100 mil litros. Passados mais de 45 anos desde o fim do conflito, que foi uma das derrotas militares mais humilhantes dos Estados Unidos, as consequências do uso do Agente Laranja ainda são sentidas pela população. 

Especialistas em saúde ambiental da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, passaram cinco anos estudando toda a documentação disponível sobre o assunto. Além de perceberem que os volumes do Agente Laranja usados no conflito foram subestimados, os cientistas também perceberam que os níveis de dioxinas presentes no herbicida eram muito maiores do que se imaginava. 

As dioxinas são substâncias químicas altamente tóxicas, reconhecidas por provocar inúmeros tipos de câncer. Esses novos estudos mostraram que o volume de dioxinas presentes no Agente Laranja eram o dobro do que se imaginava anteriormente. Uma vez liberadas no meio ambiente, essas substâncias contaminam continuamente as águas e os seres vivos de uma região. Estudos anteriores realizados com moradores de regiões atingidas pelo Agente Laranja no Vietnã encontraram níveis de dioxinas até 200 vezes maiores que os limites máximos recomendados. 

Calcula-se que 4,8 milhões de vietnamitas foram expostos diretamente a esses produtos químicos durante as pulverizações feitas durante a Guerra e outros milhões continuam sendo expostos aos resíduos presentes em solos e águas. Essas novas revelações poderão resultar num aumento das pressões do Governo do Vietnã por indenizações junto aos Estados Unidos para reembolso de despesas médicas e tratamento de doentes. 

O Agente Laranja surgiu a partir da combinação de dois herbicidas que já existiam no mercado. Esse produto continua sendo usado por agricultores de diversos países. De acordo com as informações disponíveis, o tipo de produto que foi usado na Guerra do Vietnã não passou por processos adequados de purificação e apresentava elevados teores de dioxina (tetraclorodibenzodioxina). É essa substância que provoca uma série de enfermidades irreversíveis como má formação de fetos, síndromes neurológicas em crianças, além de diversos tipos de câncer. O uso do herbicida e de vários dos seus derivados já foi proibido em diversos países. 

Houve um uso bastante polêmico de uso do Agente Laranja durante a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Estado do Pará, na década de 1970. As construtoras usaram ilegalmente o produto para desfolhar parte das matas que seriam inundadas após a formação do lago da hidrelétrica. Em 1983, uma inspeção feita por consultores independentes em um dos acampamentos da obra encontrou 373 barris vazios do produto. As autoridades sempre negaram o fato e as supostas provas dos acontecimentos simplesmente sumiram, o que nunca foi algo anormal no período dos Governos Militares. 

No Vietnã, a região mais afetada pelas pulverizações feitas pelos norte-americanos foi o Sul do país, uma das mais densamente povoadas, envolvendo uma área com aproximadamente 48 mil km². Essa é uma região de grande produtividade agrícola, principalmente a cultura do arroz, onde se vale da grande concentração de rios e águas, como é o caso do Delta do rio Mekong

O Vietnã se encontra na zona de influência das Chuvas da Monção, período do ano em que as fortes correntes de vento do Oceano Índico carregam pesadas nuvens de chuva na direção do Sul e Sudeste da Ásia. Essas fortes chuvas carreiam resíduos do Agente Laranja e das dioxinas ainda presentes nos solos na direção de riachos e rios, contaminando ainda hoje as populações ribeirinhas e agricultores. 

Em 2018, o Governo do Vietnã moveu uma ação jurídica contra a Monsanto, uma das empresas fabricantes do Agente Laranja, pedindo indenização por danos. Os vietnamitas se valerem de uma decisão da Justiça dos Estados Unidos contra a Monsanto. Um agricultor com câncer terminou moveu uma ação contra a empresa, alegando que a sua doença foi consequência de anos seguidos de aplicações de herbicidas em suas plantações. Esse agricultou conseguiu ganhar uma indenização de mais de US$ 280 milhões da Monsanto, o que serviria de jurisprudência para o pedido do Governo do Vietnã. 

No país existem dezenas de milhares de vítimas do Agente Laranja, desde pessoas idosas que foram atingidas pelas pulverizações ainda aos tempos da Guerra, e também milhares de jovens e crianças que herdaram esses problemas geneticamente de seus pais. Também existem inúmeros casos de agricultores e ribeirinhos que desenvolveram doenças associadas ao herbicida através do consumo de água contaminada ou do contato direto com a água nas plantações de arroz. Essa conta também precisa incluir dezenas de milhares de pessoas que morreram vítimas de doenças associadas ao Agente Laranja. 

A Guerra do Vietnã foi encerrada oficialmente em 1975, quando as últimas forças norte-americanas abandonaram o país às pressas. Os Estados Unidos perderam mais de 50 mil homens durante os conflitos e tiveram um gasto, em valores atualizados, da ordem de US$ 1 trilhão. Apesar de toda a sua superioridade tecnológica e bélica, o norte-americanos levaram uma “verdadeira surra” dos plantadores de arroz do país do Sudeste Asiático. 

As violentas e ensurdecedoras batalhas de outrora, ainda matam silenciosamente nos dias de hoje. É uma guerra subterrânea que ainda se desenrola em campos destruídos e águas contaminadas por venenos criados por mentes insanas de outrora. 

A GRANDE TRAGÉDIA AMBIENTAL QUE TOMA CONTA DAS FILIPINAS  

Boraclay Filipinas

A República das Filipinas é um grande país insular do Sudeste Asiático. É formada por mais de 7 mil ilhas, com um território de aproximadamente 300 mil km² e onde vive uma população de pouco mais de 100 milhões de habitantes. A exceção das bizarrices e excentricidades do Presidente do país, Rodrigo Duterte, que entre outras polêmicas defende o abate indiscriminado de traficantes de drogas pela polícia, raramente se ouvem notícias sobre as Filipinas. 

Uma das bandeiras de campanha de Rodrigo Duterte na sua corrida presidencial foi o combate ao tráfico de drogas com violência. Uma vez eleito, o Presidente deu ordens aos policias do país para “atirar para matar”. Mais de 350 supostos traficantes de drogas foram mortos apenas nos seus primeiros 6 meses de governo. Os trágicos números, infelizmente, incluem muitos civis e crianças “mortos por engano”. Essa rápida introdução lhes dá uma ideia do nível de problemas enfrentados pelos filipinos. 

Muitos especialistas consideram as Filipinas como o pior caso de degradação ambiental de todo o mundo. Muitos cientistas chegam até a afirmar que o país é uma “causa perdida” em termos ambientais. A exploração intensiva de madeira, citando um exemplo, que começou nos tempos da colonização espanhola e aumentou vertiginosamente a partir do século XX, já dizimou três quartos das matas nativas das ilhas. Alguns autores chegam a afirmar que só resta algo entre 6 e 8% da vegetação nativa original, algo muito parecido com a situação da Mata Atlântica aqui no Brasil

Esse nível de degradação das florestas, é claro, tem seus reflexos na vida animal e vegetal. De acordo com informações da IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza na sigla em inglês, uma das mais respeitadas organizações ambientais do mundo, cerca de 21% dos animais vertebrados e metade das espécies de plantas das Filipinas estão ameaçados.  

Aqui é importante lembrar que, como se tratam de ecossistemas de ilhas, existe um alto grau de endemismo nas espécies animais e vegetais nas matas das Filipinas – ou seja, grande parte das espécies só são encontradas em suas respectivas ilhas. Das 1.100 espécies de vertebrados conhecidos, quase a metade são endêmicos. No caso das plantas, as estimativas oscilam entre 45 e 60% de endemismo. A extinção de qualquer um desses seres vivos é uma perda irreparável para todo o mundo

Vários estudos recentes vêm encontrando dezenas de novas espécies endêmicas de mamíferos e especialistas alertam que as Filipinas podemabrigar a maior concentração de espécies únicas de mamíferos do planeta“. Isso aumenta o tamanho da crise ambiental local.

Os males, infelizmente, não ficam restritos apenas aos ecossistemas terrestres – as águas marítimas do país também estão cheias de problemas. De acordo com estudos oceanográficos já concluídos, apenas 5% dos recifes de coral das Filipinas mantém entre 75 e 100% de sua cobertura viva. As razões para esta destruição maciça dos corais locais são muitas – pesca predatória com redes de arrasto, uso de dinamite e veneno na pesca, poluição, choque de embarcações contra as formações, entre outras agressões.  

Metade do PIB – Produto Interno Bruto, das Filipinas é gerado pela pesca e pelos transportes marítimos, o que nos dá uma ideia da importância dos mares para a economia do país e que mostra também como os recursos marinhos são super explorados, muitas vezes até o limite. 

Um exemplo da situação de caos ambiental vivida pelo país se deu em abril de 2018, quando o Governo Central ordenou a interdição total por seis meses da Ilha Boracay, um dos principais destinos turísticos das Filipinas, por causa da intensa poluição das águas do oceano. Essa ilha ocupa uma área total de pouco mais de 1 mil hectares e chega a receber 2 milhões de visitantes por ano.  A linda imagem que ilustra essa postagem é usada na divulgação turística da ilha e, como sempre acontece nesses casos, foi escolhida a dedo entre centenas de outras.

A origem dos problemas na ilha são os sistemas de esgotos, que simplesmente coletam as águas servidas dos hotéis, pousadas e estabelecimentos comerciais, e as lançam diretamente nas águas do mar sem qualquer tipo de tratamento. Nós brasileiros estamos bem acostumados com esse tipo de situação em muitas regiões litorâneas do país. 

Um outro exemplo do descaso com as águas marinhas é visto na Baía de Manila, onde a fica a cidade homônima e capital do país. Os níveis de coliformes, uma bactéria de origem fecal presente nos esgotos, na Baía de Manila alcançam a impressionante marca de 330 milhões de bactérias para cada 100 ml de água. Esse nível de poluição é muito superior aos 47,4 mil coliformes encontrados na Ilha Boracay há época da interdição e infinitamente superior aos níveis recomendados internacionalmente, que é de 1 mil coliformes fecais para cada 100 ml de água

Baía de Manila

A cidade de Manila tem 1,7 milhão de habitantes, mas está encravada em uma grande região metropolitana onde vivem perto de 22 milhões de pessoas. Como acontece com outras grandes metrópoles em países em desenvolvimento, a grande mancha urbana sofre com problemas de saneamento básico, poluição do ar, falta de habitações e de sistemas de transporte de massa, entre muitos outros. Somente na área de entorno da Baía de Manila, vivem perto de 220 mil famílias em assentamentos precários, sem as mínimas condições de vida e infraestruturas urbanas. 

Desde que assumiu a presidência do país em 2016, Rodrigo Duterte vem tentando levar a cabo uma série de reformas sociais nas Filipinas, fazendo inclusive importantes mudanças na política ambiental do país. Um dos projetos mais ambiciosos do Governo é a recuperação completa da orla da Baía de Manila, numa extensão total de 119 km. Esse projeto implica na transferência e reassentamento de centenas de milhares de famílias e em gastos multi milionários.  

As importantes medidas voltadas para a área ambiental vêm encontrando, é claro, forte oposição dos grupos oligárquicos e econômicos que dominam a cena nacional há várias décadas. A Ministra do Meio Ambiente indicada por Duterte, Regina Lopes, proibiu a mineração a céu aberto no país e fechou mais de metade das minas existentes devido a inúmeras irregularidades ambientais. As empresas do setor pressionaram os Parlamentares em Manila, conseguindo que a Ministra fosse demitida apenas dez meses depois da posse, mesmo contando com forte apoio do Presidente Duterte

Apesar dessa derrota inicial, o Presidente continua firme em sua posição de acabar com o “vale tudo” ainda existente na exploração dos recursos naturais das Filipinas. Em uma entrevista, o Presidente declarou que “a proteção do ambiente é uma prioridade maior do que a mineração e outras atividades que causam grandes danos”. Uma das estratégias que passou a ser adotada para controlar a exploração dos recursos naturais do país é um aumento progressivo dos impostos – quanto mais perto essas atividades estiveram de áreas de preservação ambiental, maior será o valor dos impostos. 

O Governo filipino, à sua excêntrica maneira, está tentando efetuar uma série de mudanças na legislação ambiental do país, de forma a reduzir o grau de degradação ambiental que toma conta de todo o arquipélago. A antiga classe dominante, que vem mandando nas Filipinas há muito tempo e ganhando muito dinheiro, é contra e está fazendo todo o possível para boicotar as ações do Governo. Vamos acompanhar para ver onde essa briga vai acabar.

Só que, enquanto isso, o povo vai continuar padecendo das graves mazelas ambientais do país.

O ”MAR VERMELHO” DA MALÁSIA

Kuantan

Durante a temporada das Chuvas da Monção na Malásia no final de 2015, um trecho de 15 km do litoral na região de Kuantan, no Leste da Península Malaia, ficou com as águas completamente vermelhas. Imagens divulgadas pela imprensa dias depois mostraram vários rios da região também com as águas vermelhas (vide foto). Uma das principais atividades econômicas de Kuantan é justamente o turismo – a região recebe centenas de milhares de turistas todos os anos, atraídos ao lugar pela beleza particular do Mar da China Meridional. Uma notícia bomba como essa poderia, literalmente, destruir a reputação da região. 

As investigações que se seguiram constataram que a contaminação foi originada por resíduos de bauxita, mineral usado para a produção do alumínio e que foram arrastados na direção do oceano pelas águas das fortes chuvas. Na região de Kuantan se localizam diversas grandes empresas e um importante porto, através do qual é feito o escoamento da bauxita produzida no país. A produção da bauxita vem crescendo de forma vertiginosa na Malásia – em 2015, as exportações do mineral atingiram a marca de 20 milhões de toneladas, 700% a mais que o realizado em 2014. O grande comprador da bauxita malaia é a China. 

Além de afetar as belas praias, a contaminação também atingiu o rio Kuantan, que abriga uma importante floresta de mangues que se estende por uma área de 340 hectares ao longo da foz do rio. Os manguezais, conforme já comentamos em postagens anteriores, são regiões de extrema importância para as espécies marinhas, que buscam suas águas salobras para a alimentação e reprodução. Cerca de 70% das espécies marinhas com grande importância comercial dependem de áreas manguezais preservadas para a sua sobrevivência. A poluição das águas com resíduos de bauxita pode comprometer os estoques pesqueiros de toda a região

O Governo da Malásia abriu uma “grande investigação” para determinar as causas e as responsabilidades dessa tragédia ambiental, ameaçando, inclusive, proibir as exportações de bauxita. Essas investigações, como sempre, acabaram sem responsabilizar ninguém e a vida continuou. A legislação ambiental do país é cheia de problemas e não existe uma regulamentação adequada para as atividades mineradoras. Como os interesses econômicos no país sempre estão acima das questões ambientais, fez-se um grande jogo de cena sem se fazer os ajustes necessários nas atividades mineradoras. 

A República da Guiné e a Austrália concentram 43% das reservas mundiais de bauxita – o Brasil ocupa a 5° posição no ranking das maiores reservas. A Malásia sequer entra na lista dos 15 países com as maiores reservas mundiais do minério, o que demonstra a irracionalidade da exploração do minério no país. São necessárias 5 toneladas de bauxita para a produção de apenas 1 tonelada de alumínio metálico. É justamente a gestão desse grande volume de rejeitos minerais o que está por trás da contaminação das águas do oceano e dos rios de Kuantan

Rejeitos minerais são um grande problema em todo o mundo. Aqui no Brasil, como todos vocês devem se lembrar, ocorreram dois grandes acidentes com barragens de rejeitos em anos recentes, ambas no Estado de Minas Gerais. Em 2015, houve o rompimento das barragens de rejeitos em Mariana, tragédia que literalmente destruiu toda a calha do rio Doce. Em 2019 ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho – bombeiros continuam trabalhando até hoje na busca de corpos de algumas das vítimas. 

A bauxita é um mineral formado por uma mistura de óxidos de alumínio, boehmita, gibbsita, diásporo e dois óxidos de ferro, além de caulinita e argila mineral. A palavra deriva LesBaux-de-Provence, uma aldeia da França meridional onde foi descoberta uma grande reserva do mineral em 1821. Essa mina forneceu a maior parte da bauxita usada na França na segunda metade do século XIX. 

O alumínio é o elemento metálico mais abundante da crosta terrestre, sendo conhecido pela humanidade desde a antiguidade. Apesar de ser um metal extremamente leve, resistente e com baixo ponto de fusão, somente pequenas quantidades de alumínio podiam ser produzidas devido às dificuldades de separação de outros metais. Foi somente em 1827 que o químico alemão Friedrich Wöhler (1800-1882) conseguiu isolar adequadamente o alumínio. 

O alumínio é separado dos demais minérios por lixiviação química, mais conhecido como Processo Bayer. O processo de refinamento para a produção do alumínio metálico é feito pelo processo de redução eletrolítica, onde são utilizadas grandes quantidades de energia elétrica. O empresário brasileiro Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), costumava se referir ao alumínio como “eletricidade embalada”. As grandes empresas produtoras costumam construir usinas de geração de energia elétrica especialmente para suprir as necessidades energéticas da produção do alumínio, causando grandes impactos ao meio ambiente. 

Na indústria, o alumínio tem inúmeras aplicações, que vão da produção de simples latinhas para refrigerantes até a construção de estruturas para aviões, foguetes e estações espaciais. Países altamente industrializados como a China, Estados Unidos e Japão consomem grandes quantidades de alumínio, um apetite voraz que abre caminho para os grandes crimes ambientais causados pela exploração selvagem da valiosa bauxita e processamento final do alumínio. 

A proximidade geográfica com a China, o que combinado com a presença de uma expressiva minoria de cidadãos de origem chinesa na população da Malásia, cria fortes laços de amizade e de comércio entre os dois países, o que facilita muito as exportações de bauxita para o país vizinho. Esse lucro “fácil” estimula empresários gananciosos a produzir o máximo de bauxita possível, sem que haja maiores preocupações com os rejeitos minerais e com os grandes impactos ao meio ambiente. 

Quando se analisam o conjunto dos principais problemas ambientais da Malásia, se percebe que essa é uma lógica que domina a maior parte da economia do país. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o país é um dos líderes mundiais em desmatamento de florestas tropicais e destruição de turfeiras, onde o principal objetivo é a expansão de campos agrícolas, principalmente para a produção de óleo de dendê e também de papel e celulose

Essa destruição de florestas tropicais ameaça a sobrevivência de centenas de espécies animais endêmicas como tigres, elefantes, rinocerontes e orangotangos, entre muitas outras. As grandes queimadas anuais também causam inúmeros problemas de saúde para as populações de países vizinhos, que ano após ano sofrem com os grandes volumes de fumaça que invadem as grandes e médias cidades. 

Mar Vermelho na Malásia

Por fim, falamos hoje dos problemas causados pela mineração, principalmente a contaminação de rios, mares e florestas de mangue. São problemas demais para um país que é pouca coisa menor que o Estado de Mato Grosso do Sul. 

Em resumo, podemos afirmar que a Malásia é um país que está dando “tiros no próprio pé”. Lamentável!

PAÍSES DO SUDESTE ASIÁTICO ESTÃO COMEÇANDO A COIBIR AS IMPORTAÇÕES DE RESÍDUOS PLÁSTICOS

Contêineres com lixo nas Filipinas

O plástico é um material barato, facilmente moldável e colorido com a adição de corantes, o que possibilita a criação de peças bonitas, leves, ergonômicas e com acabamentos perfeitos. Máquinas injetoras de plástico conseguem produzir milhares de peças plásticas a partir de um único molde. Peças plásticas também podem ser produzidas através de processos de laminação, extrusão, moldagem a vácuo e em diversos outros processos de usinagem. Embalagens plásticas são inodoras, estéreis e permitem um fechamento hermético de alta qualidade.  

Peças e componentes plásticos são dominantes em produtos eletrodomésticos, eletrônicos e em brinquedos. Vem se tornando cada vez mais comuns em automóveis, bicicletas, motocicletas, navios, aviões, móveis, produtos e insumos hospitalares. Na construção civil ocupa cada vez mais espaços como isolante de fios elétricos e de telefonia, em tubos e conexões para eletricidade, água e esgotos, janelas, caixas de força entre outros produtos e componentes. O mundo em que nós vivemos é mais “plástico” a cada dia e, como uma consequência natural, esse é o resíduo doméstico dominante

Existe, porém, uma palavra que raramente é mencionada pelos fabricantes, mas que faz toda a diferença: o plástico comum é, virtualmente, indestrutível, o que cria todo o tipo de problemas com os resíduos a base de polímeros plásticos. Aterros sanitários, lixões, rios e oceanos estão sendo inundados com quantidades cada vez maiores de resíduos plásticos, o que vem transformando esse produto num dos maiores resíduos poluidores do planeta

De acordo com informações do WWF – Fundo Mundial para a Natureza na sigla em inglês, uma das maiores organizações ambientais do mundo, a produção anual de plásticos é da ordem de 300 milhões de toneladas – outras fontes falam de 100 milhões de toneladas. O que fazer para descartar tamanha quantidade de resíduos é um desafio diário para cidades e países de todo o mundo. Parte substancial desses resíduos são descartados de forma inadequada – calcula-se que um volume entre 8 e 13 milhões de toneladas de plásticos acabem chegando aos oceanos, o que tem causado enormes dificuldades para as criaturas marinhas. 

Países do chamado Primeiro Mundo, preocupados em manter  o que restou dos seus ambientes naturais, descobriram uma forma “genial” para se livrar de grandes volumes de resíduos plásticos – as exportações para países pobres do chamada Terceiro Mundo, onde esses materiais poderiam ser separados, classificados e revendidos para a reciclagem. Além de resolver seus problemas ambientais, essas nações estavam contribuindo assim para a geração de “trabalho e renda” entre as populações mais carentes do mundo. 

De uma forma muito resumida, foi dessa forma que países como a China, Vietnã, Filipinas, Malásia, Indonésia, Bangladesh, Índia, Gana e muitos outros, se transformaram em grandes “importadores de resíduos plásticos produzidos em países como Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e de toda a Europa. 

De acordo com reportagem do jornal The Guardian, somente os Estados Unidos exportam em média 68 mil contêineres com resíduos plásticos a cada ano. Até 2018, a China era a maior receptora e recicladora dos resíduos plásticos norte-americanos. Uma mudança na legislação do país, entretanto, passou a proibir esse tipo de comércio. A partir de então, países vizinhos como o Vietnã e o Laos passaram a receber quantidades maiores de resíduos para compensar o “fechamento” das importações da China.  

Outros tradicionais “importadores”, como Bangladesh, Índia, Filipinas e Malásia, passaram a ser cooptados pelas nações ricas para aumentarem suas importações, compensando o fechamento do “mercado” chinês. Algumas dessas nações, entretanto, passaram a criar barreiras para a importação desses resíduos. 

Surge aqui uma pergunta: se as “exportações” de resíduos plásticos são um bom negócio para o meio ambiente das nações ricas e gera emprego e renda em nações paupérrimas do Terceiro Mundo, por que é que alguns dos países “importadores” começaram a proibir essas importações? 

A resposta não é muito difícil – até 70% dos resíduos exportados pelas nações ricas estão contaminados por restos de comida, resíduos de óleo e graxa, produtos químicos dos mais diferentes tipos, entre outros tipos de contaminantes. Esses resíduos “sujos” não podem ser reciclados e acabam sendo transformados em resíduos sólidos locais, que precisarão ser encaminhados para aterros e lixões nos países recicladores. A reciclagem vira um péssimo negócio para os países importadores

Um outro problema grave da reciclagem é a intensiva exploração de mão de obra, inclusive infantil. Sem opções, é comum que mulheres que têm filhos pequenos acabem levando as crianças para os locais de trabalho (muitas vezes, essas pessoas já moram no próprio local de trabalho). Como o trabalho é penoso e pouco rentável (normalmente, se ganha por produção), as crianças acabam ajudando na seleção e classificação dos resíduos. Também não é nada incomum que crianças maiores deixem de frequentar a escola para ajudar os pais nesses trabalhos. 

Em maio de 2019, o Governo da Malásia anunciou medidas que visam coíbir a importação de resíduos plásticos para reciclagem no país. O Governo das Filipinas já havia tomado uma decisão semelhante poucas semanas antes. E mais – centenas de contêineres repletos com milhares de toneladas de resíduos foram devolvidos ao Canadá, providência que também foi tomada pelas Filipinas. De acordo com dados de 2016, a Malásia importou cerca de 870 mil toneladas de resíduos plásticos, um volume três vezes maior do que o total de 2015. Em 2019, esse volume superou as 7 milhões de toneladas.

No caso das Filipinas, os problemas começaram com a identificação de sucessivas remessas de contêineres carregados com lixo eletrônico e doméstico também de origem canadense. As guias de importação informavam se tratar de resíduos plásticos para reciclagem. Em maio de 2019, o Governo das Filipinas devolveu 69 contêineres com uma carga total de 1.500 toneladas de lixo para o Canadá, além de baixar uma série de decretos para aumentar a fiscalização e restringir gradualmente a entrada desses resíduos no país.  

Em países extremamente pobres como Bangladesh, infelizmente, essa realidade está muito longe de acabar. Cerca de 30% da população do país sobrevive com apenas US$ 1.00 per capita ao dia, um valor considerado como limite da pobreza extrema, e, com mão de obra abundante e extremamente barata, há espaço de sobra para a “indústria da reciclagem” prosperar.  

Um dos produtos de destaque de Bangladesh são os flocos de garrafas Pet – o país exportou em 2018 cerca de 20 mil toneladas desse resíduo, produzidos em mais de “três mil fábricas espalhadas pelo país asiático”. Os negócios renderam US$ 15 milhões e, segundo os empresários do setor, a taxa de crescimento nas vendas é de 20% ao ano 

Ou seja – enquanto existirem miseráveis aos milhões nas nações do Terceiro Mundo, populações dos países ricos não precisarão se preocupar com a destinação final dos seus resíduos sólidos. Felizmente, as coisas estão começando a mudar bem devagar em alguns países. 

A DESTRUIÇÃO DAS TURFEIRAS TROPICAIS NA REGIÃO INDO-MALAIA

Incêndio na Indonésia

Indonésia e Malásia são dois países vizinhos do Sudeste Asiático que, apesar das grandes diferenças na composição das suas populações, tem praticamente os mesmos problemas ambientais. A destruição de grandes extensões de florestas tropicais para a criação de áreas para a produção de azeite de dendê e para a implantação plantações comerciais de madeira para a produção de papel e celulose é um grande denominador comum entre as duas nações. 

Um bioma típico dessas florestas, as turfeiras tropicais, estão seriamente ameaçados pela expansão dos campos agrícolas. As Florestas Tropicais (ou Equatoriais) do Sudeste Asiático possuem cerca de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o que corresponde a mais de 60% das turfeiras tropicais do mundo. Cerca de 80% dessas turfeiras se encontram na Indonésia, 11% na Malásia e o restante se distribui entre a Papua Nova Guiné, Vietnã, Filipinas e Tailândia

A chamada Região Indo-Malaia, que se estende da Índia até as Filipinas, é uma das áreas do mundo que mais vem sofrendo com os desmatamentos. Indonésia e Malásia lideram esses desmatamentos, especialmente em áreas de solos de pântanos de turfaEsses solos foram formados ao longo de mais de 8 mil anos pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal semidecomposta nas margens de rios, especialmente nas adjacências de áreas de manguezais. Os solos desses pântanos de turfa têm uma camada entre 8 e 20 metros de profundidade e costumam se estender entre 3 e 5 km dentro de uma planície de inundação.   

Os pântanos de turfa funcionam como esponjas, absorvendo todo o excedente de água durante o período das chuvas e ajudam no controle das intensidades das enchentes. Na época da seca, essas áreas liberam água, ajudando a garantir a vazão mínima dos rios, uma função muito parecida com aquela realizada pelos Banhados dos Pampas Gaúchos. Esses ecossistemas abrigam uma biodiversidade própria e são fundamentais para o equilíbrio dinâmico dos caudais dos rios e também da biodiversidade aquática.  

Os serviços ambientais fornecidos pelas turfeiras vão ainda mais longe: elas também formam uma barreira natural que protege as terras litorâneas contra a intrusão de águas salinas. Também funcionam como filtro, retendo substâncias poluentes que poderiam atingir os rios e lagoas. Fornecem abrigos e alimentos para toda uma gama de animais silvestres, inclusive algumas espécies seriamente ameaçadas de extinção como o rinoceronte-de-Sumatra (Dicororhinus sumatrensis). Uma outra função de grande importância ambiental: as turfeiras armazenam grandes quantidades de carbono, evitando assim que ele escape para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global

A drenagem dessas áreas pantanosas, que é feita através da abertura de canais, cria solos secos para a construção de moradias e oferece áreas de grande fertilidade para a ampliação de áreas de cultivo. Apesar do aparente ganho em novas áreas agrícolas disponíveis, a secagem das turfeiras aumenta imensamente os riscos de incêndios florestais, que já são intensos na região. A turfa é um material altamente combustível, usado em muitos países para o aquecimento de casas e para cozinhar – na Escócia, a queima da turfa local é usada na destilação do whisky. Aliás, os escoceses mais tradicionalistas dizem que é a fumaça da turfa que dá sabor à bebida. 

O contato acidental da turfa com uma fonte de calor pode resultar em um grande desastre. Em outubro de 1995, citando um exemplo, um incêndio originado numa região de turfeiras em Selangor na Malásia destruiu 16 hectares da reserva florestal de Bukit Tungaal. Um caso semelhante ocorreu anos depois numa área florestal de Kampung Penadah, onde 160 hectares de floresta foram queimados.  

As Autoridades da Malásia e da Indonésia, preocupadas com os ganhos obtidos com as exportações de azeite de dendê e do papel/celulose, parecem fazer vista grossa para esses graves problemas e vão permitindo um avanço cada vez maior dos desmatamentos e ocupação de pântanos de turfa. Em algumas regiões desses países, 80% dos antigos pântanos de turfa foram dessecados e transformados em campos agrícolas.  

Entre os países que compram o azeite de dendê da região estão a França e a Alemanha, duas das nações que mais têm elevado o tom das críticas ao Brasil por causa da destruição da Floresta Amazônica. Felizmente, os países da Comunidade Europeia passaram a impor sérias restrições à importação do óleo de dendê da Malásia e da Indonésia a partir de 2018 por causa dos problemas ambientais provocados pela cultura. 

Os incêndios anuais que devoram grandes áreas das florestas da Malásia e da Indonésia já são considerados, há vários anos, como uma verdadeira tragédia ambiental para todo o Sudeste Asiático. As grandes colunas de fumaça liberadas por esses incêndios atingem áreas densamente povoadas dos países vizinhos, de Singapura até as Filipinas, intensificando ainda mais os graves problemas de poluição do ar das cidades. No período das queimadas, as fotos de satélite costumam mostrar uma imensa nuvem escura cobrindo toda uma extensa faixa do Sudeste Asiático. 

Em setembro de 2019, a grossa camada de fumaça que atingiu Singapura forçou o Governo local a decretar “situação de insalubridade” e pedir que os seus 6 milhões de habitantes evitassem praticar atividades ao ar livre. A concentração de poluentes na Cidade/Estado atingiu o nível de 112 partículas de poluentes por metro cúbico de ar, mais de 4,5 vezes acima do limite recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde

O ano de 2015 foi o recordista em incêndios florestais, principalmente na Indonésia, quando cerca de 2,6 milhões de hectares de florestas e turfeiras arderam sob as chamas. Esses incêndios causaram prejuízos regionais da ordem de US$ 16 bilhões, afetando a saúde de milhões de pessoas na Indonésia e na Malásia, assim como em Singapura e em Brunei. Estudos realizados por especialistas dos Estados Unidos indicam que perto de 100 mil pessoas morreram prematuramente por conta de doenças respiratórias desencadeadas pela fumaça desses incêndios.

A recomposição dos pântanos de turfa é um processo que leva milhares de anos. Além de demorada, essa recomposição depende da preservação das áreas florestais no entorno – as turfeiras são depósitos de material orgânico gerado pelas florestas, principalmente folhas e galhos de árvores, que são arrastados pelas chuvas na direção dos pântanos. Sem as florestas não há turfeiras e sem as turfeiras, parte importante da biodiversidade da floresta desaparece. Nascentes de rios também ficam ameaçadas pela perda das turfeiras, o que no final vai acabar comprometendo todas as formas de vida, inclusive a dos seres humanos da região. 

A grande ironia que se esconde por trás da destruição das turfeiras tropicais é a pressão para a expansão dos campos agrícolas de palma do dendê, um biocombustível que, até bem pouco tempo atrás, era considerado renovável por várias nações do mundo desenvolvido. Ao que tudo indica, toda a destruição causada pelas plantações não estava sendo incluída nos custos ambientais da produção do óleo de dendê. 

Como eu sempre costumo comentar nas minhas postagens, pessoas no mundo inteiro se preocupam em demasia com as queimadas na Floresta Amazônica, sem se interessar com o que está acontecendo com outras importantes florestas do resto do mundo, principalmente as do Sudeste Asiático. No que diz respeito às ameaçadas turfeiras tropicais, a imensa maioria das pessoas sequer ouviu falar nesses importantíssimos biomas. 

Precisamos de menos histeria e de mais ação no combate à destruição das florestas tropicais.