AINDA FALANDO DO AZEITE DE DENDÊ

Orangotangos

Na última postagem falamos dos imensos impactos ambientais que a cultura da palma-da-Guiné (Elaeais guineensis) vem causando nas Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático, especialmente na Malásia e na Indonésia. Estudos indicam que cerca de 70% das matas originais já desapareceram por causa do avanço das frentes agrícolas e da exploração da madeira. Cerca da metade dos desmatamentos nesses países tem como objetivo o plantio da palma-da-Guiné, planta que produz um fruto rico em óleo, usado para a produção do óleo de palma ou azeite de dendê, como é mais conhecido no Brasil. Como essa é uma questão fortemente impactante à biodiversidade, especialmente das águas, vamos falar um pouco mais sobre esse assunto.

A palma-da-Guiné ou dendezeiro é originária da costa Oeste do continente africano, no trecho entre o Senegal e Angola. De acordo com estudos históricos, o óleo da palma vem sendo utilizado pelas populações há mais de 5 mil anos. No Brasil, a espécie foi introduzida no Período Colonial, quando era intenso o trânsito de navios negreiros e mercantes entre a África e o Brasil. Uma extensa região no Estado da Bahia passou a ser dedicada ao cultivo da palma-da-Guiné. Na década de 1960, foram introduzidas as primeiras mudas da espécie no Pará, Estado que responde atualmente por 70% da produção brasileira. 

O azeite de dendê faz parte da culinária regional de diversos Estados brasileiros, sendo a culinária da Bahia uma das mais representativas – o dendê entra em inúmeras receitas como o acarajé e as moquecas. O azeite de dendê também está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros. 

A produção e o uso do azeite de dendê sofreram um enorme incremento a partir de 2005, quando entrou em vigor o Protocolo de Kyoto, um conjunto de metas negociadas e assinadas pelos países em 1997 para a redução das emissões dos gases de efeito estufa. Um dos principais compromissos assumidos pelos países signatários foi a redução das emissões de gases poluidores em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis emitidos em 1990. Entre as ações propostas destacam-se a reforma dos setores de energia e transportes, proteção das áreas florestais e a promoção do uso de fontes energéticas renováveis, o que criou um grande mercado para o óleo de palma. Na União Europeia, citando um exemplo, foi acordado que, até 2020, pelo menos 10% do combustível usado pelos setores de transportes provenham de fontes renováveis, incluindo nessa lista os biocombustíveis

Malásia e Indonésia, que já eram tradicionais países produtores e exportadores do óleo de palma, rapidamente viram as suas áreas de produção serem ampliadas e atualmente respondem por 90% da produção mundial. As primeiras mudas de palma-da-Guiné chegaram na Ilha de Sumatra, na Indonésia, em 1911; em 1917, foi a vez da introdução da espécie na Malásia. Em 1995, a produção mundial de óleo de palma foi de 15,2 milhões de toneladas – em 2020, essa produção deverá chegar a 60 milhões de toneladas. Cerca de metade dos desmatamentos nesses dois países tem como objetivo a ampliação das áreas de produção do dendê

O óleo de palma responde por cerca de 35% da produção mundial de óleos de origem vegetal. Uma das principais razões dessa forte participação do óleo de palma no mercado é a sua alta produtividade, que se situa entre 3 a 5 toneladas por hectare. Essa produtividade é 10 vezes maior que a obtida com a soja, 4 vezes maior do que a do amendoim e 2 vezes maior que o coco. Os baixos preços das terras agrícolas na Malásia e na Indonésia, os baixos custos para a produção do óleo, a farta disponibilidade de mão de obra e as fracas políticas de conservação das áreas florestais nesses países foram determinantes para o rápido crescimento da cultura da palma-da-Guiné. 

A Indonésia é um país insular que ocupa uma área total de 1,9 milhão de km² e abriga uma população de 250 milhões de habitantes, a quarta maior do mundo. O país forma o maior arquipélago do mundo com mais de 17.500 ilhas. A Malásia ocupa parte da Península Malaia e mais uma grande porção insular, com uma área total de 329 mil km² e com uma população de 32 milhões de habitantes. Os dois países são considerados megadiversos, abrigando uma riquíssima biodiversidade e um elevado número de espécies endêmicas. 

A Indonésia possui a segunda maior biodiversidade do mundo, só ficando atrás do Brasil em número de espécies. A Floresta Equatorial cobria cerca de 60% do território indonésio, abrigando espécies como tigres, rinocerontes, orangotangos, elefantes e leopardos, animais que no passado tinham grandes populações espalhadas por todas as principais ilhas do arquipélago. A Malásia, que tem uma área total com cerca de 1,5 vezes o Estado de São Paulo, abriga em seu território cerca de 20% das espécies animais do planeta, o que é uma biodiversidade surpreendente. A destruição acelerada das florestas desses países tem colocado toda essa riqueza biológica em seríssimos riscos. 

Uma dos animais em maior risco de extinção é o rinoceronte-de-Sumatra, espécie que era encontrada nas florestas da Malásia e da Indonésia. No último mês de maio foi anunciada a morte do último macho da espécie na Malásia, só restando agora duas fêmeas. Em algumas áreas florestais da Indonésia ainda existem algumas pequenas populações isoladas, cuja soma total de indivíduos é de menos de 80 rinocerontes. A caça da espécie para a remoção do chifre, considerado um poderoso afrodisíaco em países como a China, e a destruição dos habitats para a implantação de lavouras, especialmente de palma-da-Guiné, estão entre as principais causas do desaparecimento dos rinocerontes-de-Sumatra. Outra espécie da fauna carismática altamente ameaçada são os orangotangos (vide foto), que a cada dia encontram áreas florestais menores para abrigar as suas reduzidas populações

A intensa devastação ambiental criada pela expansão descontrolada das lavouras de palma-da-Guiné na Malásia e na Indonésia levaram a Comunidade Europeia a criar mecanismos que impeçam ou reduzam a importação de óleo de palma desses países. No último mês de abril, uma Comissão aprovou medidas para controlar e certificar os tipos de óleo de palma que podem ser utilizados como biocombustível no continente europeu, complementando uma legislação aprovada em 2018. Os países da União Europeia estão impondo restrições ao uso do óleo de palma por que sua produção, comprovadamente, causa desmatamentos e agrava o aquecimento global, uma realidade completamente oposta aos objetivos estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto

Desde o início de 2018, os preços do óleo de palma já caíram cerca de 15% e as expectativas a longo prazo não são nada otimistas. Os produtores da Malásia e da Indonésia temem que os países da Europa estejam planejando proibir todas as importações de óleo de palma de seus países a partir de 2021. Esses produtores estão protestando fortemente e exigindo que seus Governos adotem medidas retaliatórias contra os países da Europa. 

O uso de combustíveis renováveis de origem vegetal pode dar uma enorme contribuição  para a preservação ambiental do nosso planeta e existe um enorme espaço para o crescimento desse mercado. Agora, a produção de biocombustíveis à base da destruição de florestas equatoriais das mais ricas em biodiversidade, como está ocorrendo na Malásia e na Indonésia, não faz o menor sentido. 

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