O AQUECIMENTO DAS ÁGUAS DO OCEANO ÍNDICO E SEUS IMPACTOS NO LESTE E SUL DA ÁFRICA

Seca na África

Na minha última postagem falei da dramática crise no abastecimento de água na Cidade do Cabo, na África do Sul, que tem como origem uma fortíssima seca que persiste na região há, pelo menos, 3 anos. Longe de ser um problema isolado, o fenômeno está afetando diversos países do Sul e do Leste do continente africano.

Estudos conduzidos desde 1980 demonstram que o volume de chuvas em toda esta extensa região diminuiu em, pelo menos, 15%, ao mesmo tempo que o número de pessoas subalimentadas mais do que duplicou – em algumas regiões, a redução no volume de chuvas pode chegar a 48%. E a origem desta redução das chuvas está ligada ao aumento da temperatura das águas do Oceano Índico, problema que não se limita ao continente africano, mas a todos os países asiáticos localizados ao longo da extensa orla deste oceano. 

Considerada como uma das piores secas dos últimos 35 anos, o fenômeno está atingindo mais de 50 milhões de habitantes em áreas no Chifre da África, onde se encontram países como Somália, Etiópia, Quênia, Uganda e Djibuti. Mais ao Sul, estão sofrendo com a seca o Malaui, Moçambique, Zimbabué, Madagascar e África do Sul, além dos enclaves em território sul-africano do Lesoto e Suazilândia

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da temperatura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica. 

As perspectivas para o futuro não são nada animadoras – os estudos indicam que essa tendência de redução ou aumento das chuvas persistirá e até se intensificará, uma vez que o aquecimento das águas do Oceano Índico é um fenômeno que está ligado diretamente ao aquecimento global, que tende a aumentar cada vez mais. 

As mudanças climáticas regionais forçarão os países a investir cada vez mais em sistemas alternativos de produção de água como a transposição de outras bacias hidrográficas, em sistemas de dessalinização da água do mar e também em sistemas de água de reuso – depender exclusivamente das chuvas será uma aposta cada vez mais arriscada. 

Como eu sempre digo, chegou a hora de começar a pagar a fatura acumulada das agressões ambientais

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