A DESTRUIÇÃO DAS TURFEIRAS TROPICAIS NA REGIÃO INDO-MALAIA

Incêndio na Indonésia

Indonésia e Malásia são dois países vizinhos do Sudeste Asiático que, apesar das grandes diferenças na composição das suas populações, tem praticamente os mesmos problemas ambientais. A destruição de grandes extensões de florestas tropicais para a criação de áreas para a produção de azeite de dendê e para a implantação plantações comerciais de madeira para a produção de papel e celulose é um grande denominador comum entre as duas nações. 

Um bioma típico dessas florestas, as turfeiras tropicais, estão seriamente ameaçados pela expansão dos campos agrícolas. As Florestas Tropicais (ou Equatoriais) do Sudeste Asiático possuem cerca de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o que corresponde a mais de 60% das turfeiras tropicais do mundo. Cerca de 80% dessas turfeiras se encontram na Indonésia, 11% na Malásia e o restante se distribui entre a Papua Nova Guiné, Vietnã, Filipinas e Tailândia

A chamada Região Indo-Malaia, que se estende da Índia até as Filipinas, é uma das áreas do mundo que mais vem sofrendo com os desmatamentos. Indonésia e Malásia lideram esses desmatamentos, especialmente em áreas de solos de pântanos de turfaEsses solos foram formados ao longo de mais de 8 mil anos pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal semidecomposta nas margens de rios, especialmente nas adjacências de áreas de manguezais. Os solos desses pântanos de turfa têm uma camada entre 8 e 20 metros de profundidade e costumam se estender entre 3 e 5 km dentro de uma planície de inundação.   

Os pântanos de turfa funcionam como esponjas, absorvendo todo o excedente de água durante o período das chuvas e ajudam no controle das intensidades das enchentes. Na época da seca, essas áreas liberam água, ajudando a garantir a vazão mínima dos rios, uma função muito parecida com aquela realizada pelos Banhados dos Pampas Gaúchos. Esses ecossistemas abrigam uma biodiversidade própria e são fundamentais para o equilíbrio dinâmico dos caudais dos rios e também da biodiversidade aquática.  

Os serviços ambientais fornecidos pelas turfeiras vão ainda mais longe: elas também formam uma barreira natural que protege as terras litorâneas contra a intrusão de águas salinas. Também funcionam como filtro, retendo substâncias poluentes que poderiam atingir os rios e lagoas. Fornecem abrigos e alimentos para toda uma gama de animais silvestres, inclusive algumas espécies seriamente ameaçadas de extinção como o rinoceronte-de-Sumatra (Dicororhinus sumatrensis). Uma outra função de grande importância ambiental: as turfeiras armazenam grandes quantidades de carbono, evitando assim que ele escape para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global

A drenagem dessas áreas pantanosas, que é feita através da abertura de canais, cria solos secos para a construção de moradias e oferece áreas de grande fertilidade para a ampliação de áreas de cultivo. Apesar do aparente ganho em novas áreas agrícolas disponíveis, a secagem das turfeiras aumenta imensamente os riscos de incêndios florestais, que já são intensos na região. A turfa é um material altamente combustível, usado em muitos países para o aquecimento de casas e para cozinhar – na Escócia, a queima da turfa local é usada na destilação do whisky. Aliás, os escoceses mais tradicionalistas dizem que é a fumaça da turfa que dá sabor à bebida. 

O contato acidental da turfa com uma fonte de calor pode resultar em um grande desastre. Em outubro de 1995, citando um exemplo, um incêndio originado numa região de turfeiras em Selangor na Malásia destruiu 16 hectares da reserva florestal de Bukit Tungaal. Um caso semelhante ocorreu anos depois numa área florestal de Kampung Penadah, onde 160 hectares de floresta foram queimados.  

As Autoridades da Malásia e da Indonésia, preocupadas com os ganhos obtidos com as exportações de azeite de dendê e do papel/celulose, parecem fazer vista grossa para esses graves problemas e vão permitindo um avanço cada vez maior dos desmatamentos e ocupação de pântanos de turfa. Em algumas regiões desses países, 80% dos antigos pântanos de turfa foram dessecados e transformados em campos agrícolas.  

Entre os países que compram o azeite de dendê da região estão a França e a Alemanha, duas das nações que mais têm elevado o tom das críticas ao Brasil por causa da destruição da Floresta Amazônica. Felizmente, os países da Comunidade Europeia passaram a impor sérias restrições à importação do óleo de dendê da Malásia e da Indonésia a partir de 2018 por causa dos problemas ambientais provocados pela cultura. 

Os incêndios anuais que devoram grandes áreas das florestas da Malásia e da Indonésia já são considerados, há vários anos, como uma verdadeira tragédia ambiental para todo o Sudeste Asiático. As grandes colunas de fumaça liberadas por esses incêndios atingem áreas densamente povoadas dos países vizinhos, de Singapura até as Filipinas, intensificando ainda mais os graves problemas de poluição do ar das cidades. No período das queimadas, as fotos de satélite costumam mostrar uma imensa nuvem escura cobrindo toda uma extensa faixa do Sudeste Asiático. 

Em setembro de 2019, a grossa camada de fumaça que atingiu Singapura forçou o Governo local a decretar “situação de insalubridade” e pedir que os seus 6 milhões de habitantes evitassem praticar atividades ao ar livre. A concentração de poluentes na Cidade/Estado atingiu o nível de 112 partículas de poluentes por metro cúbico de ar, mais de 4,5 vezes acima do limite recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde

O ano de 2015 foi o recordista em incêndios florestais, principalmente na Indonésia, quando cerca de 2,6 milhões de hectares de florestas e turfeiras arderam sob as chamas. Esses incêndios causaram prejuízos regionais da ordem de US$ 16 bilhões, afetando a saúde de milhões de pessoas na Indonésia e na Malásia, assim como em Singapura e em Brunei. Estudos realizados por especialistas dos Estados Unidos indicam que perto de 100 mil pessoas morreram prematuramente por conta de doenças respiratórias desencadeadas pela fumaça desses incêndios.

A recomposição dos pântanos de turfa é um processo que leva milhares de anos. Além de demorada, essa recomposição depende da preservação das áreas florestais no entorno – as turfeiras são depósitos de material orgânico gerado pelas florestas, principalmente folhas e galhos de árvores, que são arrastados pelas chuvas na direção dos pântanos. Sem as florestas não há turfeiras e sem as turfeiras, parte importante da biodiversidade da floresta desaparece. Nascentes de rios também ficam ameaçadas pela perda das turfeiras, o que no final vai acabar comprometendo todas as formas de vida, inclusive a dos seres humanos da região. 

A grande ironia que se esconde por trás da destruição das turfeiras tropicais é a pressão para a expansão dos campos agrícolas de palma do dendê, um biocombustível que, até bem pouco tempo atrás, era considerado renovável por várias nações do mundo desenvolvido. Ao que tudo indica, toda a destruição causada pelas plantações não estava sendo incluída nos custos ambientais da produção do óleo de dendê. 

Como eu sempre costumo comentar nas minhas postagens, pessoas no mundo inteiro se preocupam em demasia com as queimadas na Floresta Amazônica, sem se interessar com o que está acontecendo com outras importantes florestas do resto do mundo, principalmente as do Sudeste Asiático. No que diz respeito às ameaçadas turfeiras tropicais, a imensa maioria das pessoas sequer ouviu falar nesses importantíssimos biomas. 

Precisamos de menos histeria e de mais ação no combate à destruição das florestas tropicais.

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