O ”MAR VERMELHO” DA MALÁSIA

Kuantan

Durante a temporada das Chuvas da Monção na Malásia no final de 2015, um trecho de 15 km do litoral na região de Kuantan, no Leste da Península Malaia, ficou com as águas completamente vermelhas. Imagens divulgadas pela imprensa dias depois mostraram vários rios da região também com as águas vermelhas (vide foto). Uma das principais atividades econômicas de Kuantan é justamente o turismo – a região recebe centenas de milhares de turistas todos os anos, atraídos ao lugar pela beleza particular do Mar da China Meridional. Uma notícia bomba como essa poderia, literalmente, destruir a reputação da região. 

As investigações que se seguiram constataram que a contaminação foi originada por resíduos de bauxita, mineral usado para a produção do alumínio e que foram arrastados na direção do oceano pelas águas das fortes chuvas. Na região de Kuantan se localizam diversas grandes empresas e um importante porto, através do qual é feito o escoamento da bauxita produzida no país. A produção da bauxita vem crescendo de forma vertiginosa na Malásia – em 2015, as exportações do mineral atingiram a marca de 20 milhões de toneladas, 700% a mais que o realizado em 2014. O grande comprador da bauxita malaia é a China. 

Além de afetar as belas praias, a contaminação também atingiu o rio Kuantan, que abriga uma importante floresta de mangues que se estende por uma área de 340 hectares ao longo da foz do rio. Os manguezais, conforme já comentamos em postagens anteriores, são regiões de extrema importância para as espécies marinhas, que buscam suas águas salobras para a alimentação e reprodução. Cerca de 70% das espécies marinhas com grande importância comercial dependem de áreas manguezais preservadas para a sua sobrevivência. A poluição das águas com resíduos de bauxita pode comprometer os estoques pesqueiros de toda a região

O Governo da Malásia abriu uma “grande investigação” para determinar as causas e as responsabilidades dessa tragédia ambiental, ameaçando, inclusive, proibir as exportações de bauxita. Essas investigações, como sempre, acabaram sem responsabilizar ninguém e a vida continuou. A legislação ambiental do país é cheia de problemas e não existe uma regulamentação adequada para as atividades mineradoras. Como os interesses econômicos no país sempre estão acima das questões ambientais, fez-se um grande jogo de cena sem se fazer os ajustes necessários nas atividades mineradoras. 

A República da Guiné e a Austrália concentram 43% das reservas mundiais de bauxita – o Brasil ocupa a 5° posição no ranking das maiores reservas. A Malásia sequer entra na lista dos 15 países com as maiores reservas mundiais do minério, o que demonstra a irracionalidade da exploração do minério no país. São necessárias 5 toneladas de bauxita para a produção de apenas 1 tonelada de alumínio metálico. É justamente a gestão desse grande volume de rejeitos minerais o que está por trás da contaminação das águas do oceano e dos rios de Kuantan

Rejeitos minerais são um grande problema em todo o mundo. Aqui no Brasil, como todos vocês devem se lembrar, ocorreram dois grandes acidentes com barragens de rejeitos em anos recentes, ambas no Estado de Minas Gerais. Em 2015, houve o rompimento das barragens de rejeitos em Mariana, tragédia que literalmente destruiu toda a calha do rio Doce. Em 2019 ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho – bombeiros continuam trabalhando até hoje na busca de corpos de algumas das vítimas. 

A bauxita é um mineral formado por uma mistura de óxidos de alumínio, boehmita, gibbsita, diásporo e dois óxidos de ferro, além de caulinita e argila mineral. A palavra deriva LesBaux-de-Provence, uma aldeia da França meridional onde foi descoberta uma grande reserva do mineral em 1821. Essa mina forneceu a maior parte da bauxita usada na França na segunda metade do século XIX. 

O alumínio é o elemento metálico mais abundante da crosta terrestre, sendo conhecido pela humanidade desde a antiguidade. Apesar de ser um metal extremamente leve, resistente e com baixo ponto de fusão, somente pequenas quantidades de alumínio podiam ser produzidas devido às dificuldades de separação de outros metais. Foi somente em 1827 que o químico alemão Friedrich Wöhler (1800-1882) conseguiu isolar adequadamente o alumínio. 

O alumínio é separado dos demais minérios por lixiviação química, mais conhecido como Processo Bayer. O processo de refinamento para a produção do alumínio metálico é feito pelo processo de redução eletrolítica, onde são utilizadas grandes quantidades de energia elétrica. O empresário brasileiro Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), costumava se referir ao alumínio como “eletricidade embalada”. As grandes empresas produtoras costumam construir usinas de geração de energia elétrica especialmente para suprir as necessidades energéticas da produção do alumínio, causando grandes impactos ao meio ambiente. 

Na indústria, o alumínio tem inúmeras aplicações, que vão da produção de simples latinhas para refrigerantes até a construção de estruturas para aviões, foguetes e estações espaciais. Países altamente industrializados como a China, Estados Unidos e Japão consomem grandes quantidades de alumínio, um apetite voraz que abre caminho para os grandes crimes ambientais causados pela exploração selvagem da valiosa bauxita e processamento final do alumínio. 

A proximidade geográfica com a China, o que combinado com a presença de uma expressiva minoria de cidadãos de origem chinesa na população da Malásia, cria fortes laços de amizade e de comércio entre os dois países, o que facilita muito as exportações de bauxita para o país vizinho. Esse lucro “fácil” estimula empresários gananciosos a produzir o máximo de bauxita possível, sem que haja maiores preocupações com os rejeitos minerais e com os grandes impactos ao meio ambiente. 

Quando se analisam o conjunto dos principais problemas ambientais da Malásia, se percebe que essa é uma lógica que domina a maior parte da economia do país. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o país é um dos líderes mundiais em desmatamento de florestas tropicais e destruição de turfeiras, onde o principal objetivo é a expansão de campos agrícolas, principalmente para a produção de óleo de dendê e também de papel e celulose

Essa destruição de florestas tropicais ameaça a sobrevivência de centenas de espécies animais endêmicas como tigres, elefantes, rinocerontes e orangotangos, entre muitas outras. As grandes queimadas anuais também causam inúmeros problemas de saúde para as populações de países vizinhos, que ano após ano sofrem com os grandes volumes de fumaça que invadem as grandes e médias cidades. 

Mar Vermelho na Malásia

Por fim, falamos hoje dos problemas causados pela mineração, principalmente a contaminação de rios, mares e florestas de mangue. São problemas demais para um país que é pouca coisa menor que o Estado de Mato Grosso do Sul. 

Em resumo, podemos afirmar que a Malásia é um país que está dando “tiros no próprio pé”. Lamentável!

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