ERA UMA VEZ UM RIO DOCE…

EFVM

Na minha última postagem falamos rapidamente sobre os temores de um eventual vazamento de rejeitos químicos ou de mineração nas águas do rio Paraíba do Sul, em proporções semelhantes ao evento que, literalmente, destruiu o Rio Doce entre os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo em 2015. Um evento como este, que foi de extrema gravidade para as cidades e populações das regiões cortadas pelo Rio Doce, no caso do Estado do Rio de Janeiro, altamente dependente das águas do Rio Paraíba do Sul, seria simplesmente catastrófico – pelo menos 12 milhões de pessoas ficariam sem o abastecimento de água. Também comentei sobre a suspensão do processo movido na Justiça Federal contra a empresa Samarco – a Justiça contestou parte das provas apresentadas pela Promotoria e até que este impasse seja resolvido, o processo ficará parado. Vamos aproveitar a ocasião para relembrar um pouco do caso e analisar como anda a situação do querido e importante Rio Doce.

O rio Piranga, com nascentes localizadas no município mineiro de Ressaquinha na Serra da Mantiqueira, é o principal formador do rio Doce. O rio Piranga se encontra com as águas do rio do Carmo no município de Rio Doce e, a partir desta confluência, passa a ser chamado de Rio Doce. A extensão total do rio até a sua foz no Oceano Atlântico em Linhares, no Estado do Espírito Santo, é de 853 quilômetros. Um total de 228 municípios estão incluídos total ou parcialmente na bacia hidrográfica do rio Doce, sendo 202 no Estado de Minas Gerais e 26 no Espírito Santo. A população total que vive na região da bacia do rio Doce soma 3,2 milhões de habitantes, o que comprova que esse não é um “riozinho” qualquer.

As primeiras expedições exploratórias no rio Doce foram bastante dificultadas pelos ataques das hostis tribos dos índios botocudos, o que levou o rio ao esquecimento por quase dois séculos durante o período colonial. A hostilidade destes índios também se refletiu na colonização do interior do Estado do Espírito Santo – desde a chegada das primeiras expedições portuguesas às praias capixabas, a população acabou ficando concentrada na faixa do litoral. Com a descoberta e a exploração das minas de ouro na Região das Geraes, foram as autoridades portuguesas que criaram todos os tipos de obstáculos a entrada de aventureiros pelo Vale do Rio Doce, pois isto poderia significar a criação de um caminho de saída para o contrabando do ouro. Foi somente a partir do século XVIII, com a pacificação dos índios botocudos (ou seja, a sua eliminação), que o rio Doce passou a ter grande importância na colonização de territórios no Norte do Espírito Santo e na faixa Leste de Minas Gerais.

Foi no século XIX que o rio Doce começou a ganhar importância econômica regional – com a introdução da cultura cafeeira e seu avanço pelo interior do Estado do Espírito Santo e região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais, o rio passou a funcionar como um importante corredor para o escoamento da produção. Essa importância alcançou um novo patamar com a construção da EFVM – Estrada de Ferro Vitória Minas (vide foto), nos primeiros anos do século XX. Criada inicialmente para o transporte de passageiros e o escoamento da produção de café do Vale do Rio Doce, a ferrovia passou, a partir do ano de 1908, a concentrar suas atividades no transporte dos minérios produzidos em Minas Gerais na direção do porto de Vitória. A ferrovia manteve os serviços de transporte de passageiros – atualmente são, em média, 3 mil passageiros/dia. Foi neste período, com o crescimento das cidades e das populações, que o rio Doce se consolidou como o principal manancial de abastecimento de água da região.

A construção da ferrovia Vitória Minas foi fundamental para o desenvolvimento econômico das cidades da região do Vale do Rio Doce e de uma parte considerável do Estado de Minas Gerais. Ao longo de todo o século XX, a ferrovia passou por diversos estágios de ampliação e modernização, culminando com a chegada dos trilhos da ferrovia em Belo Horizonte em 1994. A exploração das gigantescas jazidas de minério de ferro e de outros minerais se transformou numa das principais atividades econômicas do Estado de Minas Gerais, atraindo capitais e empresas de todo o mundo.

Na década de 1940, com o aumento da demanda de metais para a produção de armamentos e materiais bélicos por causa da II Guerra Mundial, o Governo dos Estados Unidos fez um acordo com a Inglaterra para a cessão dos minérios produzidos por empresas inglesas no Brasil para uso em prol dos esforços de guerra dos americanos. Esse acordo veio de encontro às pretensões nacionalistas do Governo Brasileiro e em 1942 foi criada uma empresa de mineração de capital misto, com o controle nas mãos do Governo brasileiro – a Companhia Vale do Rio Doce, empresa que em poucas décadas se transformaria em uma das mais importantes do mundo. Minas Gerais, cujo nome se originou a partir da descoberta das minas de ouro, se consolidaria como o Estado brasileiro da mineração e da siderurgia – surgiu o topônimo Vale do Aço para designar a região onde se concentraram grandes empresas siderúrgicas como a Companhia Siderúrgica Belgo Mineira, a Usiminas e a Acesita; o Governo Federal construiu a Ferrovia do Aço na década de 1970 com o objetivo de transportar minério de ferro para a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda e também para o porto de Sepetiba, ambos no interior do Estado do Rio de Janeiro. Foi uma época de ufanismo nacionalista e desenvolvimento a qualquer custo.

Atividades de mineração, como todos devem saber, não são famosas apenas pelos grandes investimentos e grandes volumes de produção e lucros que representam – são famosas também pelo alto grau de devastação ambiental que deixam por onde passam. Por definição, minérios são substâncias minerais com valor comercial e, durante a sua produção, são produzidos os famosos rejeitos de mineração, que são todos os outros minerais que não tem valor. Para armazenar os grandes volumes de rejeitos, as empresas mineradoras passaram a criar as perigosas barragens de rejeitos de mineração. No final de 2015, uma destas barragens de rejeitos, de uma empresa ligada a Companhia Vale do Rio Doce, se rompeu na cidade de Mariana e aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais atingiram e destruíram o rio Doce.

Falaremos disto no nosso próximo post.

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