O AMEAÇADO BAGRE-GIGANTE DO RIO MEKONG, OU FALANDO DO DECLÍNIO DA FAUNA AQUÁTICA DE UM GRANDE RIO

Bagre-gigante do rio Mekong

A imagem que ilustra está postagem foi retirada de uma reportagem publicada pela National Geografic Brasil em 2018. Ela mostra o dono de um restaurante em Hanói, no Vietnã, mostrando orgulhosamente um bagre-gigante de 136 kg pescado ilegalmente no Camboja. Essa espécie de peixe, que é considerada uma verdadeira iguaria no Sudeste Asiático, é uma das mais ameaçadas do rio Mekong e resume a situação da fauna aquática fluvial do Sudeste Asiático. 

Conforme temos comentado nas últimas postagens, o importante rio Mekong está sendo agredido por todos os lados. Essas agressões incluem a construção de sucessivas barragens ao longo de sua calha e também a intensa poluição por esgotos domésticos e detritos, lançados por uma infinidade de cidades e populações que vivem ao longo de sua grande bacia hidrográfica. Em anos mais recentes, tem crescido o número de agressões criadas pelo lançamento de efluentes industriais de todos os tipos, gerados por um grande número de empresas que estão se instalando nos países do Sudeste Asiático. 

Todo esse conjunto de agressões ambientais cria enormes problemas e dificuldades para a sobrevivências da fauna aquática do rio Mekong e de todos os seus afluentes. Conforme já comentamos em postagem anterior, esse rio sempre foi um dos mais ricos em vida aquática de todo o mundo. Já foram catalogadas mais de 1.200 espécies de peixes, onde se incluem algumas espécies únicas como os bagres-gigantes (Pangasianodon gigas), a carpa-de-lama-siamesa (Catlocarpio siamensis), mais conhecida como trey riel e a arraia-gigante (Dasyatis laosensis)

Arraia-gigante do Mekong

Rios não são apenas canais escavados nos solos e que servem como via de drenagem de águas pluviais. A história de um rio envolve inúmeros processos geológicos, climáticos e, principalmente, biológicos. A fauna e flora aquática de um rio resultam de uma longa história evolutiva, que em muitos casos, pode remeter ao início da vida no planeta – falamos aqui de eventos iniciados há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás. As primeiras formas de vida aqui do nosso “planetinha azul” surgiram primeiro nas águas dos oceanos e, bem depois, passaram a colonizar outros ambientes como rios, lagos e, finalmente, a terra seca. 

O rio Mekong possui uma grande variedade de espécies animais e vegetais, muitas delas exclusivas do seu ecossistema. Vou destacar as espécies gigantes já citadas: os bagres-gigantes ou peixes-gato desse rio. Em 1981 foi capturada uma fêmea da espécie na Tailândia, que media 2,7 metros e pesava 293 kg. Há relatos, que podem ser as boas e velhas histórias de pescador, de exemplares com até 350 kg. Também já foram capturadas arraias-gigantes com 4,2 m, tamanho que inclui a cauda, e peso superior 300 kg

A evolução e a sobrevivência de espécies fluviais com essas dimensões pressupõem que as águas do rio sustentem uma grande e variada quantidade de espécies vivas. Essas espécies formam as chamadas “cadeias tróficas” ou alimentares, que vão das espécies microscópicas que vivem nos bentos ou sedimentos do fundo do rio e que formam a base da cadeia alimentar, até as espécies que são predadas diretamente pelos grandes peixes. 

A poluição das águas dos rios que formam a bacia hidrográfica do rio Mekong é fatal para muitas das espécies, que desaparecem e deixam vazios na cadeia trófica, prejudicando sistematicamente as espécies que ocupam degraus superiores na cadeia alimentar. A contínua construção de represas hidrelétricas ao longo da calha do rio, por exemplo, prejudica a distribuição de sedimentos e matérias orgânicas essenciais para a nutrição de diversas espécies de plantas e animais das comunidades bentônicas ou microfauna – falamos aqui de animais microscópicos que são encontrados a uma razão de até 5 indivíduos para cada grão de areia. Esse problema repercutirá numa reação em cadeia, afetando todos os animais maiores que se alimentam dessas plantas e pequenos animais 

Também é importante citar a sobrepesca de várias espécies, como é o caso dos bagres-gigantes. Esse peixe é considerado um dos mais nobres e saborosos, sendo muito procurado nos países do Sudeste Asiático e em grande parte da Ásia. Consumidores de diversos países não se negam a pagar verdadeiras fortunas para saborear essa iguaria, consumida em eventos especiais como casamentos, festas religiosas e no dia do Ano Novo. Os diversos países que formam a bacia hidrográfica do rio Mekong até estabelecem restrições para a pesca da espécie, porém, existem grandes redes de pescadores ilegais e de contrabandistas especializados. 

Como resultado da fragmentação do habitat, da poluição e da sobrepesca, muitas espécies estão desaparecendo em grande parte da bacia hidrográfica, só sendo encontradas em alguns rincões e ambientes mais isolados. Essa pulverização de populações também cria consequências na reprodução das espécies, contribuindo para a redução e diminuição da diversidade genética das populações, o que no médio e longo prazo significa a extinção de muitas das espécies

Na região do delta do rio Mekong no Vietnã, os principais problemas estão associados à redução dos caudais do rio e à invasão da área por água do mar. Diversas espécies de plantas e animais que, ao longo de milhões de anos passaram por processos evolutivos para se adaptar ao ambiente, agora sofrem com a redução do seu habitat e com a invasão de espécies marinhas. Os problemas também se refletem na salinização dos solos agrícolas – o arroz, principal alimento cultivado no delta, não tolera solos e águas salgadas. 

Além dos peixes, crustáceos, moluscos, vermes e plantas totalmente aquáticas, os problemas ambientais nas águas do rio Mekong afetam outras espécies semi-aquáticas onde se incluem mamíferos, répteis, anfíbios e insetos, entre outras. Entre as espécies ameaçadas existe um animal carismático e que é uma das chamadas “espécies bandeira” do rio – os golfinhos-do-irrawaddy, sobre os quais já falamos em postagens anteriores. Esses divertidos golfinhos costumavam ser abundantes em grande parte da calha do Mekong e atraíam verdadeiras multidões de turistas. 

Golfinho-do-irrawady brincando

Os golfinhos-do-irrawady estão reduzidos a poucas dezenas de animais nos dias de hoje, encontrados em apenas alguns trechos do rio com melhores condições ambientais. As principais causas do desaparecimento da espécie são a poluição das águas e a redução dos estoques de alimentos para os animais, os afogamentos em redes de pesca, os atropelamentos por embarcações, além dos encalhes em bancos de areia devido à redução dos caudais do rio. 

A situação da espécie só não é mais trágica por que os golfinhos-do-irrawady também são encontrados em diversas regiões de foz de rios em outros locais do Sul e Sudeste da Ásia, inclusive nos arquipélagos indonésio, malaio e filipino, além de áreas no Norte da Austrália e de Papua Nova Guiné. 

Além dos irreparáveis problemas para as espécies animais e vegetais das águas do rio Mekong, as populações humanas estão sendo diretamente afetadas pela degradação ambiental. As dificuldades vão desde o abastecimento de água e irrigação de plantações até a redução da produção pesqueira, fonte essencial de proteínas para muita gente. As divisas obtidas com o turismo também começam a fazer falta, ameaçando a renda de muitas famílias. Turistas não vão continuar atravessando o mundo para visitar um rio poluído e sem vida nos confins da Ásia, mesmo com o apelo histórico e cultural dos exóticos países da região. 

Em resumo, essa é a triste situação de um dos mais importantes rios do mundo e de milhões de habitantes da Tailândia, Camboja, Mianmar, Laos e Vietnã, além de um pequeno trecho da China. 

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