O BOM E VELHO ARROZ, OU FALANDO DE ALGUNS DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS DO RIO MEKONG

Plantações de arroz no rio Mekong

O arroz é o terceiro cereal mais produzido no mundo, só perdendo em volume colhido para o trigo e para o milho. Rico em carboidratos, o arroz é responsável pela alimentação de metade da humanidade, principalmente na Ásia. Existem diversas espécies silvestres da planta em todo o mundo. As espécies consumidas atualmente pela humanidade foram domesticadas há cerca de 10 mil anos atrás, quando teve início a Revolução Verde da agricultura. 

Um dos gêneros mais importantes é o Oryza, que engloba cerca de 23 espécies de arroz encontradas na Ásia, na África e nas Américas. De acordo com os especialistas, as espécies Oryza rufipogon e Oryza sativa originaram, através de diversos cruzamentos artificiais, algumas das principais espécies de arroz produzidas na atualidade

O arroz foi, muito provavelmente, o primeiro e principal alimento cultivado na Ásia. Evidências arqueológicas indicam que a planta “já domesticada” era cultivada ao longo do rio Yangtzé na China entre 8 mil e 10 mil anos atrás. Existem alguns estudos controversos que remetem o início do plantio do arroz “selvagem” por populações neolíticas há 15 mil anos na Coreia.

Na literatura escrita da China, as primeiras referências textuais ao arroz datam de 5 mil anos atrás. No Subcontinente Indiano, o arroz também vem sendo cultivado desde o surgimento das primeiras civilizações nos vales dos rios Indus e Ganges. O cereal é citado em todas as escrituras sagradas desses povos, sendo usado também como oferenda em diversas cerimônias religiosas. 

De acordo com o que existe de consenso entre historiadores e arqueólogos, a cultura do arroz se expandiu a partir da China para todo o extremo Leste da Ásia,  principalmente para a Coreia e o Japão, e Sudeste Asiático, onde se inclui os arquipélagos indonésio, malaio e filipino. A partir do Subcontinente Indiano, a cultura se estendeu por toda a Ásia Central, Oriente Médio e Europa, onde as primeiras plantas desembarcaram  entre os séculos VII e VIII na Península Ibérica e nos Balcãs. 

Diversas populações americanas pré-colombianas cultivavam espécies locais de arroz. Os indígenas brasileiros plantavam uma espécie que era chamada de abati-uaupé ou “milho d’água”. Consta que alguns tripulantes da expedição de Pedro Álvares Cabral coletaram algumas amostras desse arroz em uma área alagada a cerca de 5 km do local de desembarque da expedição descobridora em 1500. Existem também registros de Américo Vespúcio, navegador e geógrafo que participou de uma grande expedição exploratória entre 1503 e 1504 sob o comando de Gonçalo Coelho, sobre grandes plantações dessa espécie de arroz em áreas alagadas da Amazônia. 

Mekong, o principal rio do Sudeste Asiático, vem sendo uma importante área de cultivo de arroz desde a antiguidade. A planta acompanhou os diversos grupos humanos que se se assentaram na região e o rio Mekong, com seus ciclos de cheia e de seca, ofereceu as condições ideias para o cultivo e a produção desse alimento para grandes populações. 

Entre as principais necessidades da cultura do arroz destacam-se a sua grande exigência por água em abundância e de ambientes com temperaturas sem variações bruscas, características típicas da região do Sudeste Asiática e de grande parte da bacia hidrográfica do rio Mekong. Outra necessidade da cultura é o uso intensiva de mão de obra, algo que nunca foi problema nessa região superpovoada. 

Uma das mais importantes regiões produtoras de arroz do mundo fica localizada no delta do rio Mekong, no Vietnã. Essa região ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², equivalente a duas vezes o território do Estado de Sergipe, além de possuir cerca de 4 mil ilhas e 3.200 km de canais. Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes. 

As formações conhecidas como deltas são encontradas normalmente na foz de rios de planície, onde as águas se dividem em vários braços ou canais antes do encontro com as águas de um lago, rio ou oceano. Devido à baixa declividade dos terrenos, as regiões dos deltas favorecem o acúmulo de sedimentos carreados pelos rios, o que leva a formação de ilhas. Com solos férteis e grande disponibilidade de água, a região do delta do Mekong se transformou numa espécie de “paraíso” para os plantadores de arroz. Aliás, as mais antigas referências escritas dos chineses em relação aos vietnamitas tratam esse povo como “os pacíficos plantadores de arroz do Sul”. 

Grandes áreas alagáveis ao longo do rio Mekong no Camboja, no Laos, na Tailândia, em Mianmar e na China também passaram a abrigar importantes centros produtores desse cereal. O grande volume de chuvas na região, principalmente na chamada Temporada das Chuvas da Monção, permitiu o desenvolvimento de técnicas de cultivo do arroz em encostas de morros, onde os agricultores constroem pequenos campos alagáveis no formato de terraços ou “degraus”. 

Plantação de arroz em terraços no Vietnã

Toda essa técnica agrícola ancestral está sendo muito ameaçada nos últimos anos pelas mudanças climáticas, pela redução dos caudais do rio Mekong e de muitos dos seus afluentes, além de intensa contaminação das águas por esgotos, poluentes químicos e resíduos de defensivos agrícolas. A região do delta do rio Mekong também sofre com a intrusão de água do mar devido à redução dos caudais, o que também ameaça os solos com a salinização. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Oceano Índico, entre todos os mares do planeta, é o que mais vem sofrendo com as mudanças climáticas. O aumento da temperatura do planeta está provocando o derretimento acelerado de grandes massas de gelo no Continente Antártico. Grandes volumes de água doce têm alcançado o Oceano Índico, provocando alterações na direção e na temperatura de importantes correntes marítimas. 

Essas mudanças no Oceano Índico têm reflexos na formação das correntes de ventos que carregam as grandes nuvens de chuva na direção dos continentes. Como resultado, muitas regiões estão apresentando alterações significativas nos padrões tradicionais das chuvas – regiões do Sul e Sudeste da África tem sofrido com fortes secas. No extremo Leste da África as chuvas estão acima da média histórica. As Chuvas da Monção no Subcontinente Indiano e no Sudeste Asiático, por sua vez, estão bastante irregulares de um ano para outro. 

Outro problema, comentado na postagem anterior, está sendo provocado pelo grande número de barragens de usinas hidrelétricas já construídas e/ou em construção ao longo do rio Mekong por diferentes países. Essas construções estão alterando os ciclos naturais de cheias do rio, inviabilizando assim o plantio do arroz em áreas que antes eram alagáveis. É essa alteração na dinâmica das águas que também está por trás da invasão da região do delta do rio Mekong por águas do mar. 

Por fim e não menos importante, existe também um grave problema de poluição das águas. Mais de 100 milhões de pessoas vivem na região da bacia hidrográfica do rio Mekong. São inúmeras cidades gerando grandes volumes de esgotos e resíduos sólidos, que acabam sendo lançados nas águas do rio sem nenhum tratamento ou critério. Os campos de arroz também representam graves problemas devido ao uso cada vez maior de defensivos químicos e fertilizantes – resíduos desses produtos acabam sendo carreados pelas chuvas para a calha do rio

Um problema bem mais recente está tomando conta de diversos trechos do rio – o forte crescimento industrial. Mudanças na legislação ambiental e trabalhista na China estão levando a uma verdadeira corrida migratória de empresas chinesas para os países do Sudeste Asiático, onde os salários são mais baixos e as legislações trabalhistas e ambientais são bem mais frouxas do que as da China. Esta “industrialização selvagem” está transformando grandes trechos do rio Mekong e de seus afluentes em verdadeiros esgotos a céu aberto. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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