“1984”, OU O ANO DAS GRANDES TRAGÉDIAS DE VILA SOCÓ E DE BHOPAL

Bhopal

Em 1948, o escritor britânico George Orwell imaginou que o mundo do futuro estaria dominado pelo socialismo totalitário e que estaria divido em três grandes superestados: Eurásia, Lestásia e Oceania. Estes três superestados estão em uma guerra permanente, porém, não existe um inimigo a vencer – o objetivo da guerra é manter os grupos dominantes no poder. O Estado vigia todos os indivíduos através da opressora Polícia do Pensamento e se esforça para criar um idioma universal, a Novilíngua, o que tornaria o pensamento das pessoas cada vez mais padronizado e levaria a uma oposição cada vez menor ao Partido e ao Big Bother – um poderosíssimo sistema de vigilância da sociedade e que inspirou a famosa competição da TV. O nome do livro: “1984” – vale a pena dar uma pesquisada.

O ano de 1984, o real, também ficou marcado por duas grandes tragédias ambientais, que teriam consequências importantes em dois países distantes, porém com incríveis semelhanças no desrespeito ao meio ambiente e à vida dos seres humanos: falo de Brasil e Índia e das tragédias da Vila Socó, em Cubatão, que tratamos no último post, e da cidade de Bhopal (vide foto).

Relembrando, a Vila Socó e toda a sua população foi apanhada de surpresa por um grande incêndio na noite de 25 de fevereiro de 1984, iniciado a partir de um grande vazamento de gasolina no sistema de dutos da Petrobrás. O assentamento irregular foi construído em uma área de manguezal por onde passavam diversos dutos de derivados de petróleo da empresa que, junto com as autoridades municipais, fez vista grossa para os riscos e para a segurança desta população. O saldo oficial da tragédia foi de 93 mortos – fontes extra oficiais falam de mais de 500 vítimas.

Na madrugada de 3 de dezembro do mesmo ano, um grande acidente industrial também tomou de surpresa a população da cidade indiana de Bhopal40 toneladas de gases tóxicos vazaram da fábrica de pesticidas da Union Carbide, uma empresa de origem norte-americana. Considerado até hoje como o maior acidente industrial da história, o vazamento contaminou mais de 500 mil pessoas, que foram expostas aos gases tóxicos – dados oficiais afirmam que aproximadamente 3 mil pessoas morreram no acidente – porém, como é comum nestes tipos de “acidentes”, dados extra oficiais falam de até 10 mil mortes. Parte desta discrepância no número de mortes se deve ao grande número de moradores de rua nas grandes cidades indianas – a população do país é dividida através de um sistema de castas e as classes mais baixas deste sistema nasce, vive e morre morando nas ruas, sem documentos oficiais e sem aparecer adequadamente nos censos e estatísticas oficiais dos Governos, o que “facilitou” a ocultação do número real de mortos.

Aqui vale a pena um comentário, que se aplica tanto para Cubatão quanto para Bhopal: a partir da década de 1960, a legislação ambiental nos Estados Unidos e de países ricos da Europa tornou-se muito mais rígida. Grandes empresas, especialmente dos setores químicos e petroquímicos, chegaram à conclusão que era mais lucrativo transferir unidades de produção que lidavam com produtos altamente tóxicos para países do “terceiro mundo”, como Brasil e Índia, com legislações ambientais fracas ou inexistentes, a ter de realizar adequações caras e complexas em suas plantas industriais nos seus países sede. Foi graças a essa nova legislação ambiental destes países que nações como o Brasil receberam grandes “investimentos” industriais, especialmente no Polo Industrial de Cubatão.

Valendo-se de todo o tipo de brechas na legislação indiana e temendo o pagamento de futuras indenizações, a Union Carbide negou-se a fornecer detalhes para as autoridades médicas sobre os tipos de gases processados na planta industrial e a natureza dos contaminantes presentes na nuvem tóxica, o que dificultou os trabalhos de atendimento e tratamento das vítimas. Calcula-se que aproximadamente 150 mil pessoas ainda sofram de problemas de saúde e sequelas provocadas pelo vazamento dos gases e, pelo menos, 50 mil ficaram incapacitadas para o trabalho. Até os dias atuais, crianças que nascem na região e são filhas de vítimas do acidente apresentam problemas de saúde.

Um fato marcante desta tragédia e que nunca esqueci aconteceu nos meses seguintes, quando os advogados da Union Carbide discutiam com autoridades da Índia os valores das indenizações a serem pagas às vítimas: a empresa alegou que o vazamento ocorreu devido a uma sabotagem nos equipamentos (as autoridades locais falavam em erro na operação) e ofereceu valores ridiculamente baixos para as vítimas (uma indenização médica entre US$ 370.00 e US$ 533.00 por pessoa). Um advogado da empresa afirmou numa entrevista que “não era possível comparar o valor da vida de um americano com a de um indiano”, tentando justificar os baixos valores das indenizações, declaração que provocou revolta em todo o mundo. Após vários anos de discussões, a empresa e o Governo da Índia acertaram uma indenização no valor de US$ 470 milhões. Em 2001 a Dow Química comprou a Union Carbide – a fábrica de Bhopal permanece abandonada desde o acidente, com centenas de toneladas de produtos tóxicos em suas dependências e enormes passivos ambientais aguardando por uma solução final.

Um antigo ditado diz que “depois da porta ser arrombada, o dono corre para trocar o cadeado” – depois destes gravíssimos acidentes e das repercussões negativas em todo o mundo, tanto as autoridades brasileiras quanto indianas correram e mudaram normas técnicas e legislações ambientais, buscando evitar que novas tragédias se abatessem sobre suas respectivas sociedades.

Felizmente, muita coisa mudou a partir destas tragédias.

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