O RIO JACUÍ E O SEU FAMOSO DELTA

Delta do Jacuí

Ao longo de uma sequência de postagens, apresentamos os três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul: o rio dos Sinos, o Gravataí e o Caí, respectivamente o 4°, 5° e 8° rios mais poluídos do Brasil. O forte crescimento populacional, industrial e da agricultura nos municípios atravessados por estes rios está na base desta poluição, que têm origens nos grandes volumes de esgotos sanitários e industriais despejados nos cursos d’água sem qualquer tipo de tratamento, em grandes volumes de lixo descartado em suas águas e margens por falhas nas políticas de coleta e destinação final de resíduos sólidos e também na contaminação das águas por resíduos das grandes plantações, particularmente fertilizantes, herbicidas e inseticidas. A todo este conjunto de problemas se soma a ocupação e destruição de áreas de banhados, ecossistema característico do extremo Sul do país e fundamental para a regulação dos níveis das águas destes rios. As consequências de todo este “pacote” de problemas se refletem na dificuldade de captação de águas com boa qualidade para o abastecimento das populações, enchentes, assoreamento de cursos d’água, carreamento de lixo e entulhos, mortandade de peixes e redução dos habitats de animais silvestres, entre outros problemas.

Além de compartilharem águas poluídas e todo um conjunto de agressões ambientais, os rios dos Sinos, Gravataí e Caí tem um outro ponto em comum – todos desaguam na região conhecida como Delta do Jacuí e, como não poderia ser diferente, arrastam milhões de litros de esgotos e poluentes para este ecossistema. Vamos conhecer um pouco desta importante região e entender os impactos da poluição:

O Delta do Jacuí é formado por um conjunto de ilhas, canais, banhados e charcos que se formaram na região a partir dos sedimentos carreados ao longo de muitas eras pelas águas dos rios dos Sinos, Gravataí, Caí e Jacuí. O rio Jacuí é um dos mais importantes do Rio Grande do Sul, com nascentes na região de Passo Fundo, no Norte do Estado, e aproximadamente 800 km de extensão. O rio Jacuí garante uma vazão de 1.900 m³/s em sua foz na região do Delta, sendo o maior contribuidor para a formação do Lago Guaíba. Um dos maiores problemas ambientais da bacia hidrográfica do rio Jacuí é a intensa extração de carvão, principalmente nas regiões de Charqueadas e São Jerônimo, atividade que causa grandes impactos ambientais. A região atravessada pelo rio tem uso intensivo dos solos em agricultura e pecuária, atividades que retiram grandes quantidades de água para irrigação e dessedentação de rebanhos, devolvendo ao rio águas contaminadas por resíduos de produtos químicos e com sedimentos resultantes de desmatamentos e ocupação de áreas úmidas. Na região do Baixo Jacuí, o rio é impactado por despejos do Polo Petroquímico de Triunfo e de inúmeras indústrias dos ramos químico, plástico, metal mecânico e siderúrgico, entre outras atividades.

A soma de todo este volume de águas forma o Lago Guaíba e, na sequência, a Lagoa dos Patos. Pela sua importância ambiental, o Delta do Jacuí foi transformado em um Parque Estadual em 1975, constituindo uma Unidade de Conservação integral. Engloba áreas dos municípios de Porto Alegre, Canoas, Nova Santa Rita, Triunfo, Charqueadas e Eldorado do Sul sob a justificativa de “manter uma área verde próxima à parte mais urbanizada da capital e pelo fato das águas do delta atuarem como um imenso filtro natural, contribuindo para manter a potabilidade das águas do Guaíba e os bons níveis de produtividade de pescado.” Em 1979 o Parque teve sua área ampliada, passando a ocupar 17.245 hectares. Em 2005 foi criada a Área de Proteção Ambiental Delta do Jacuí, que englobou o Parque Estadual do Delta do Jacuí em seus limites. 

O ecossistema do Delta do Jacuí controla o ritmo das cheias e das vazantes através de ambientes naturais que incluem canais, baías rasas, chamadas de sacos na região Sul, ilhas fluviais e trechos de margens formadas por banhados, florestas aluviais (paludosas e ripárias) e áreas de inundação. Estas áreas de proteção ambiental também são fundamentais para a conservação da flora e da fauna, incluindo-se inúmeras espécies raras e sob risco de extinção. A região do Delta do Jacuí também é importante do ponto de vista histórico e cultural, permitindo a preservação de comunidades tradicionais com seus “saberes e fazeres” populares. Os ambientes protegidos também proporcionam ambientes para o lazer e a recreação das populações.

Todo este conjunto de boas intenções decorrentes da transformação da região em uma Área de Conservação não isenta os ecossistemas dos impactos provocados pelo carreamento de milhares de metros cúbicos de esgotos e de toneladas de resíduos descartados nas águas dos rios tributários.

Uma das facetas mais visíveis da poluição das águas do Delta do Jacuí é a redução da produção de pescado, atividade econômica das mais tradicionais entre os habitantes das ilhas. Pescadores mais antigos falam com saudade da fartura de peixes, de inúmeras espécies, retiradas dos canais nas pescarias de tempos antigos. Os pescadores dos tempos atuais sofrem para conseguir retirar das águas quantidades cada vez menores de peixes – muitas espécies como o dourado e jundiá , que eram comuns, há muito não são vistas com frequência nas águas da região. Estudos realizados por pesquisadores do Laboratório de Ictiologia da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no período entre 1992 e 1997, encontrou deformações físicas em algumas espécies de peixe da região, anomalia provavelmente provocada pelos altos índices de poluição das águas. Desde então os pesquisadores vêm mantendo um acompanhamento constante e estabeleceram pontos de coleta de espécimes na região do Delta do Jacuí e em outros pontos da Lagoa do Guaíba.

Com a decadência da pesca, os habitantes das ilhas do Delta, uma população estimada em 15 mil habitantes em 2003 e que desde a transformação da região numa Área de Proteção nunca tiveram sua situação fundiária resolvida, passaram a se dedicar a outras atividades como a agricultura e a pecuária, atividades que têm provocado fortes impactos na região. Áreas de vegetação são queimadas para a ampliação de pastos e de áreas para plantações. Banhados foram drenados e aterrados, transformadas em plantações de arroz e de outras culturas. A degradação das águas dos rios se estendeu também para as matas e áreas úmidas das terras das ilhas, aumentado ainda mais os problemas ambientais em toda a Lagoa do Guaíba – as praias do Guaíba, incluindo-se na lista a famosa Praia de Ipanema na Zona Sul de Porto Alegre, são impróprias para banho e a captação de água para o abastecimento de grande parte da capital gaúcha, que tradicionalmente era feita em diversos pontos da Lagoa, está cada vez mais complicada. A empresa municipal de saneamento de Porto Alegre trabalha para a construção de uma rede de tubulações que permita a captação de água na região na foz do rio Jacuí, que apresenta um qualidade bem superior ao Lago do Guaíba, o que é uma grande ironia para uma cidade cercada de tanta água.

Durante séculos, cidades e populações usaram e abusaram das águas dos cursos em suas vizinhanças, sem nunca mostrarem preocupações com as cidades e populações a jusante, nas partes mais baixas dos rios. O exemplo que mostramos nas últimas publicações, quando falamos dos rios mais poluídos do Rio Grande do Sul, deixou muito claro que continuar agindo desta maneira não é mais possível. As cidades têm todo o direito de usar toda a água que necessitam para abastecer suas populações, indústrias e atividades agropecuárias – respeitando-se é claro alguns limites e evitando-se o desperdício, porém, essas cidades têm a obrigação de coletar e tratar seus esgotos, devolvendo água em condições adequadas de uso pelas populações que vivem rio abaixo. Ficar empurrando a poluição para frente é uma atitude que não tem mais lugar num mundo com recursos hídricos cada vez mais escassos – sempre existirá uma cidade ou um delta como o do Jacuí para arcar com o ônus da poluição criada por outros.

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