AGRICULTURA E AGROTÓXICOS: DOIS LADOS DE UMA MESMA MOEDA

Produtos alternativos para diminuir defensivos agricolas Jorge Kanomata

Ao longo de dezenas de postagens desta série, exploramos diversos lados dos muitos conflitos entre a agricultura e o meio ambiente: destruição de matas, consumo excessivo e desperdício de água, extinção de flora e fauna, destruição de solos, assoreamento e entulhamento de canais de rios, entre outros problemas. Existe um conjunto de problemas importantes que foram deixados de lado e que passaremos a comentar agora: o uso intensivo de agrotóxicos e seus efeitos no meio ambiente. 

O termo agrotóxico é uma designação genérica de todo um conjunto de produtos químicos utilizados pela agricultura, onde se incluem defensivos, pesticidas, praguicidas, biocidas, agroquímicos e produtos fitofarmacêuticos ou fitossanitários. Essas substâncias químicas são utilizadas para impedir a ação ou matar formas de vida animal ou vegetal que são prejudiciais à saúde pública ou às culturas agrícolas. Incluem-se na lista os insetos, ácaros, moluscos, roedores, fungos, ervas daninhas e bactérias, entre outras. Fertilizantes e produtos químicos usados para estimular o crescimento ou o comportamento reprodutivo de animais não entram nessa lista. 

Dentro da moderna agricultura, os agrotóxicos têm um papel importante no combate das diversas pragas animais e vegetais que atacam as culturas, garantindo assim os altos níveis de produtividade. O uso dos agrotóxicos, porém, causa diversos efeitos colaterais em outras formas de vida, que nada tem a ver com as lavouras, e também causam a contaminação de solos e águas, além de colocarem a saúde dos trabalhadores rurais e de populações que vivem nas proximidades das lavouras em risco. 

Para que vocês tenham ideia do volume e dos impactos do uso de agrotóxicos pela agricultura, vou citar alguns dados levantados por um estudo realizado pela Universidade Federal de Uberlândia. Os pesquisadores escolheram uma área de Cerrado com 11.500 hectares nas proximidades da cidade de Iarí de Minas, no Estado de Minas Gerais, onde realizaram diversos estudos e medições dos volumes e tipos de agrotóxicos utilizados pelos produtores rurais. O acompanhamento da produção agrícola nessa área de estudos se deu entre outubro de 1997 e abril de 1998, período em que se produzem as culturas de verão, e entre maio e setembro de 1998, época das chamadas culturas de inverno. 

O mapeamento inicial demonstrou que, entre todos os usos, os principais eram a produção de culturas anuais, responsáveis por cerca de 42% da ocupação dos solos da região, especialmente com lavouras de soja, feijão, milho, algodão e batatas; 37% eram ocupadas por áreas de produção de pinus; 2% por plantações de café e 2% por pastagens. As áreas de mata nativa, onde se encontram remanescentes de vegetação de Cerrado correspondiam a pouco mais de 5% da área em estudo. Os agricultores da região empregam modernas técnicas agrícolas, com uso de maquinários sofisticados, sistemas de irrigação com pivô central, além de amplo uso de agrotóxicos. Todo esse aparato técnico permite a produção de até 5 safras a cada 2 anos

Os estudos constataram um uso bastante expressivo de agrotóxicos no período: foram utilizadas aproximadamente 77,5 toneladas de produtos químicos, sendo que 49% do volume total foram herbicidas, 39% fungicidas e 12% inseticidas. Foram identificados 18 tipos de fungicidas, 24 tipos de herbicidas e 19 tipos de inseticidas. Fazendo uma conta rápida, chegamos ao uso de 6,7 kg de agrotóxicos para cada hectare da região

Com o uso intensivo da irrigação, os solos tornam-se muito úmidos, uma condição que favorece o aparecimento de fungos, moluscos e outras doenças nocivas para as culturas. As ervas daninhas também se aproveitam da umidade e dos nutrientes dos fertilizantes aplicados nas culturas, encontrando nichos onde há incidência de luz solar para se desenvolver. Essa situação leva os agricultores ao uso crescente de diversos tipos de biocidas, com destaque para os fungicidas, os moluscidas (para o combate das lesmas), os herbicidas e os inseticidas.

Esse verdadeiro coquetel de produtos químicos atua eficazmente no combate dessas pragas, porém, ocorrem diversos danos colaterais –  resíduos dos produtos químicos acabam penetrando na estrutura das plantas cultivadas e poderão contaminar os consumidores finais dos grãos, frutos, folhagens, tubérculos e outras culturas produzidas quando consumidas in natura ou processadas; os resíduos dos agrotóxicos também podem contaminar e se acumular nos solos; com as chuvas, parte desses resíduos acabam carreados ou percolados na direção dos corpos d’água, afetando diversas formas de vidas aquáticas. 

Devido à alta toxicidade e aos riscos ao meio ambiente, a venda e o uso de grande parte desses agrotóxicos requer o acompanhamento de técnicos especializados em agronomia e outras ciências agrárias, existindo, inclusive, normas para o descarte das embalagens dos produtos. Existem, porém, diversas falhas nos processos e alguns produtos, de origem ilegal, acabam sendo usados clandestinamente. Um outro gravíssimo problema se observa na aplicação desses agrotóxicos, onde agricultores fazem a diluição sem respeitar as quantidades indicadas pelos fabricantes e realizam a aplicação sem que se observem corretamente as regras e normas de segurança (vide foto). Esses usos incorretos e os abusos estão na origem de grande parte dos problemas ambientais nas áreas de agricultura intensiva do país.

Continuaremos neste assunto em nossa próxima postagem. 

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