A AGRICULTURA NUMA “ILHA” CHAMADA BANGLADESH

Agricultura em Bangladesh

Bangladesh é um enclave com população majoritariamente muçulmana, localizado no Nordeste do subcontinente indiano. Chamar o país de “ilha” é muito mais que uma força de expressão – praticamente toda a fronteira terrestre de Bangladesh se faz com territórios da Índia, a exceção de um pequeno trecho fronteiriço com Mianmar e da testada oceânica com a Baía de Bengala. Com uma área territorial de apenas 143 mil km², pouco menor que o Estado do Ceará, Bangladesh tem uma população que se aproxima perigosamente dos 170 milhões de habitantes, o que coloca o país na primeira posição mundial em densidade populacional. Com tantas bocas para alimentar, praticamente todas as terras agricultáveis do país precisam ser utilizadas. 

Conforme comentado em postagem anterior, com o fim da administração colonial britânica e a independência da Índia em 1947, tensões políticas e religiosas seculares entre as populações hindus e muçulmanas levaram à divisão do território. A região central e a Sul do subcontinente, com população majoritariamente hindu, passou a formar o território da Índia; as populações muçulmanas se concentraram no Noroeste, no território do atual Paquistão, e num enclave na região Nordeste, chamado inicialmente de Paquistão Oriental. Em 1971, após uma guerra civil que durou nove meses, o Paquistão Oriental conquistou sua independência do Paquistão e o nome do país foi mudado para Bangladesh. 

A maior parte do território de Bangladesh é formada por planícies de baixa altitude, sujeitas a alagamentos anuais na época da Monção, período em que ocorrem fortes chuvas no subcontinente indiano e em todo o Sudeste Asiático. O famoso Ganges, o rio mais importante da Índia, entra no território de Bangladesh, onde recebe as águas de outros grandes rios como o Bramaputra, Surma e Meghna, formando uma das maiores áreas deltaicas do mundo – o delta do Ganges. Com uma largura de 350 km, o delta do Ganges ocupa terras de Bangladesh e do Estado Indiano de Bengala. Graças à excepcional fertilidade dos solos da região, classificada como uma das melhores do mundo para a prática da agricultura, a região passou a ser conhecida como Delta Verde

Uma característica importante da maior parte do território de Bangladesh é o processo de fertilização natural dos solos durante os meses da Monção. As águas de toda uma complexa rede de grandes e médios rios com nascentes nas terras altas das Montanhas Himalaias, carreiam diariamente grandes volumes de sedimentos e nutrientes na direção das planícies baixas. No período das chuvas, com o forte aumento do nível dos rios, as águas rompem os limites das margens e as fortes enchentes cobrem os solos como uma grossa camada de sedimentos e nutrientes. Esse “mecanismo” natural vem garantindo, há milhares de anos, excepcionais safras agrícolas na região. 

Essa aparente abundância de água e solos férteis, que é o sonho da maioria dos povos do planeta, tem inúmeros e gigantescos problemas. Devido ao clima subtropical de Monção, o território de Bangladesh alterna períodos de fortes chuvas e enchentes catastróficas, com longos ciclos de seca. Os solos agrícolas, que entre os meses de junho e setembro ficam cobertos de água, são transformados em “torrões secos” nos meses de inverno. Essas drásticas mudanças no regime hídrico forçam os agricultores, pequenos em sua grande maioria, a usar toda e qualquer forma disponível de sistemas de irrigação, que vão desde o transporte manual de pequenas quantidades de água em recipientes desde os rios até as plantas, até a construção de canais para irrigação através de inundação. 

Um outro gravíssimo problema no país é o avanço dos desmatamentos, que está comprometendo as nascentes e as margens de muitos rios. A madeira é a principal fonte energética da população, usada principalmente para o preparo de alimentos em fogões e fogareiros a lenha. Sem a proteção da cobertura vegetal, os solos ficam sujeitos a processos de erosão, que arrastam milhares de quilômetros de solos férteis e provocam o assoreamento dos corpos d’água. Esses desmatamentos, que também são intensos na Índia, têm resultado em aumentos progressivos das enchentes na época das chuvas da Monção. Em 1998, citando um exemplo, o país sofreu com as maiores enchentes dos tempos modernos – 300 mil casas foram destruídas, o que deixou um saldo de mil mortos e 30 milhões de pessoas desabrigadas, além de 11 mil km de estradas danificadas

O território de Bangladesh também está sofrendo fortemente com as mudanças climáticas globais. O nível do mar na região está subindo, o que é um fator a mais para amplificar os efeitos das enchentes. A localização do país no fundo da Baía de Bengala também expõe o território aos efeitos dos furacões, comuns no Oceano Índico. 

Por fim, e não menos grave, a grande região deltaica é o destino final de toda a poluição, do lixo e de todos os tipos de resíduos que são lançados nas águas de toda a bacia hidrográfica do rio Ganges, nos territórios da Índia e de Bangladesh. A situação, que é gravíssima, já foi tema de diversas postagens aqui no blog, que tratam desde cachorros azuis devido ao contato com poluentes e produtos químicos nos rios até o descarte de corpos humanos e de animais nas águas sagradas do Ganges

O luxuriante Delta Verde do Ganges, como visto, está muito longe de ser um paraíso na Terra.

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