O DESAPARECIMENTO DOS GOLFINHOS-DO-IRRAWADDY DO RIO MEKONG

Golfinho-de-Irrawaddy

O rio Mekong, com seus 4.350 km de comprimento (algumas fontes citam um comprimento de até 4.990 km) e uma vazão média de 16 mil litros de água por segundo, ocupa a 13° colocação entre os maiores rios do mundo e a 10° colocação em volume de água. Esse verdadeiro “mar de águas doces” do Sudeste asiático era o hábitat de aproximadamente 1.200 espécies de peixes, além de uma infinidade de répteis, aves, mamíferos, crustáceos e insetos. Vamos entender a questão:

A espécie de peixe mais conhecida e explorada comercialmente no rio Mekong é a carpa de lama siamesa, também conhecida como trey riel. Esse peixe é tão popular e reconhecido pelas populações locais que seu nome foi dado à moeda do Camboja – o riel. Outra espécie importante é o peixe-gato do Mekong, que pode atingir até 2,75 m de comprimento e peso acima dos 250 kg, seriamente ameaçado de extinção por causa da intensa pesca. Outra espécie impressionante da fauna do rio Mekong é uma espécie de arraia gigante (Dasyatis laosensis), que só foi descrita pela ciência bem recentemente – já foram capturados exemplares com 4,2 m de comprimento, 2 m de largura e peso superior a 300 kg. Apesar das marcas impressionantes dessas espécies, nenhuma outra criatura aquática do rio Mekong supera o carisma e a simpatia dos golfinhos-do-irrawaddy (Orcaella brevirostris)

Populações isoladas de golfinhos-do-irrawaddy são encontradas em rios e estuários desde o delta do rio Ganges, na Baía de Bengala, até o Norte da Austrália, incluindo as costas do Estreito de Malaca, áreas costeiras das Ilhas Indonésias nos mares de Java, das Flores, de Banda, de Timor e de Arafura, além de áreas costeiras no Golfo da Tailândia e do Sul do Mar Meridional da China. Esses golfinhos, que compartilham ancestrais comuns com as orcas, têm como características principais a cabeça redonda e um bico muito curto (veja em detalhe na foto), lembrando muito as belugas. Eles podem atingir um comprimento de até 2,75 m e um peso máximo de 200 kg. A sua cor fica entre o cinza e o azul escuro, tendo a parte inferior em tons pálidos. 

A espécie, que já foi abundante no rio Mekong e uma grande atração para os turistas que visitam a região, está reduzida a poucas dezenas de indivíduos. Entre as principais causas desse forte declínio populacional estão a caça predatória, a morte de animais que se afogam ao ficar presos nas redes de pesca, “atropelamentos” por embarcações, encalhes em bancos de areia e também devido a intensa poluição das águas em muitos trechos do rio Mekong, especialmente pelo carreamento de resíduos de pesticidas agrícolas usados nas plantações de arroz. 

Algumas espécies animais bem conhecidas como as baleias jubarte, mico-leão-dourado, lobo guará, boto-cor-de-rosa, peixe-boi, arara-azul, citando espécies tipicamente brasileiras, e também ícones internacionais como os ursos pandas, elefantes, girafas e pinguins, causam empatia nas pessoas e por isso são chamadas de fauna carismática. Muitos turistas, entre os quais eu me incluo, preferem manter distância dos badalados “points” turísticos da moda e viajar para locais distantes, normalmente sem uma infraestrutura adequada, para se maravilhar com o contato com essas espécies em seus hábitats naturais. Algumas espécies vegetais também têm essa característica e as sequoias-gigantes são um ótimo exemplo: o Sequoia National Park, no Estado americano da Califórnia, recebe 1,5 milhão de turistas a cada ano, que cruzam o país e o mundo para ver essas impressionantes árvores. Esse “nicho” da indústria do turismo cresce sem parar em todo o mundo, movimentando volumes financeiros cada vez maiores. 

Um exemplo da força desse turismo aqui no Brasil são as legiões de visitantes nacionais e estrangeiros que se embrenham na Floresta Amazônica, sofrendo todo o tipo de desconforto com o calor, insetos, transportes ruins e alojamentos precários, com o objetivo de encontrar os simpáticos botos-cor-de-rosa. Em alguns lugares do rio Negro, no Estado do Amazonas, é possível nadar com os botos – muitos turistas choram de emoção e afirmam que todos os esforços e os custos da viagem (que as vezes é muito alto em função da baixa qualidade dos serviços oferecidos) valeram a pena. De acordo com os princípios da Biologia da Conservação, esses espécimes animais e vegetais vivos em seu ambiente natural tem o que se chama “valor de existência”. Esse valor é intangível e está ligado diretamente a dimensões sentimentais das pessoas, que experimentam uma alegria e um prazer interno imenso ao compartilhar a vida e o ambiente com essas maravilhosas criaturas. 

O iminente desaparecimento dos golfinhos-do-irrawaddy do rio Mekong, analisando a situação friamente somente sob o aspecto econômico, vai causar um prejuízo financeiro de dezenas de milhões de dólares com o fim desse fluxo de turistas conservacionistas. Essa perda financeira envolve tudo o que seria gasto pelos turistas com hospedagem, alimentação, transportes, remuneração de guias turísticos e barqueiros, venda de souvenires, entre outros gastos. A conta piora muito quando se incluem os prejuízos já provocados pela redução da pesca, quebras na produção de arroz, entre outras atividades econômicas prejudicadas pelos problemas ambientais da bacia hidrográfica do rio Mekong

Esquecendo a questão financeira, que é bastante relevante para esses países pobres, a perda de uma espécie animal tão fascinante é um trágico sinal de alerta das precárias condições ambientais do rio Mekong. Dezenas de outras espécies, bem menos vistosas e carismáticas que os golfinhos-do-irrawaddy, estão desaparecendo sem chamar a atenção das populações, transformando o antigo rio cheio de vida em uma vala de águas poluídas e silenciosas, semelhante a muitos rios mortos encontrados em todo o mundo. 

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