OS RESÍDUOS E AS ÁGUAS

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Muitos de vocês podem ter estranhado a mudança do tema dos meus posts de água para resíduos sólidos – a princípio, pode até parecer uma mudança total, mas as águas e os resíduos sólidos têm sim uma relação direta.

Vamos começar falando dos cursos d’água:

Cerca de vinte anos atrás, o Governo do Estado de São Paulo iniciou um grande programa de rebaixamento da calha do Rio Tietê. Esse importantíssimo Rio sofreu ao longo do século XX todo um conjunto de modificações em sua calha, que passou de um continuo de curvas sinuosas para uma calha reta, de forma a liberar as extensas várzeas para a especulação imobiliária; entre outras consequências, a retificação do Rio Tietê resultou em ciclos de enchentes nos bairros mais baixos da cidade – o projeto de rebaixamento da calha do Tietê veio a ser mais uma tentativa (que, diga-se de passagem até teve sucesso) de reduzir essas enchentes. Pois bem – uma notícia veiculada durante essas obras nunca saiu da minha mente: 20 mil pneus velhos foram retirados junto com o lodo e os entulhos do fundo da calha. Eu lembro de ter passado diversas vezes nas Marginais do Rio Tietê (para quem não é de São Paulo tratam-se de grandes avenidas que correm em paralelo ao Rio) ao lado dos canteiros de obra e de ter vistos as verdadeiras montanhas formadas por esses pneus velhos. E não foram só pneus: foram içadas da calha do rio inúmeras carcaças de carros, geladeiras, fogões e todo o tipo de “tralhas” que vocês podem imaginar.

Esse mesmo tipo de comportamento pode ser verificado em rios, córregos e riachos que cortam a cidade (isso pode ser visto em rios e córregos em todo o Brasil): os moradores tratam as águas como lixeiras e lançam todo o tipo de resíduos nas calhas, como se os esgotos lançados já não fosse uma agressão mais do que suficiente. Esse tipo de comportamento costuma resultar em pontos de represamento das águas, que em dias de forte chuva resultam em enchentes localizadas. Resíduos jogados nas ruas e em terrenos baldios são arrastados pelas enxurradas, bloqueando os pontos de escoamento das águas pluviais e também resultando em pontos de alagamentos.

Quando o corpo d’água vitimado por esses despejos de resíduos tem como objetivo o abastecimento de água, haverá todo um comprometimento da qualidade e serão necessários volumes maiores de produtos químicos para o tratamento da água antes da distribuição para os consumidores.

Outro foco de atrito entre os resíduos e as águas são os lixões e aterros irregulares de resíduos. Esses locais costumam receber todo o tipo de resíduos, desde de restos de alimentos, materiais orgânicos de todos os tipos, materiais sólidos, óleos, graxas, tintas, produtos químicos e contaminantes de todo o tipo – a decomposição e combinação de todos esses produtos cria um líquido extremamente tóxico conhecido como chorume. Com auxílio da chuva, esse líquido se infiltra no solo e tem grande potencial de contaminação do lençol freático, que são as reservas subterrâneas de água mais próximas da superfície do solo. São as águas do lençol freático que são captadas nos poços semi artesianos usados para o abastecimento de muitas comunidades isoladas e rurais. Esse chorume também pode correr na direção de cursos d’água e poluir fontes usadas na captação de água usada para o abastecimento.

Esses lixões também ficam sujeitos a incêndios – a queima dos diferentes tipos de materiais produz moléculas extremamente tóxicas conhecidas como dioxinas, que são liberadas junto com a fumaça. Essas moléculas acabam voltando para o solo e são arrastadas pelas chuvas em direção aos corpos d’água: vejam que em todos esses exemplos os resíduos sempre acabam afetando ou qualidade das águas que serão usadas no abastecimento ou causando perturbações no fluxo natural das águas e causando todos os tipos de transtornos associados às enchentes. Isso sem falar em todos os tipos de vetores (ratos, baratas, pulgas, carrapatos etc) que proliferam no meio dos resíduos e podem espalhar patógenos.

Ao longo dos próximos posts vamos mostrar isso em maiores detalhes.

 

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