AS FORTES CHUVAS E OS DESLIZAMENTOS DE TERRA NO QUÊNIA

Enchentes no Quênia

Nesses últimos dias, fortes chuvas estão atingindo o Quênia, país do Leste da África, e mais de 100 pessoas já morreram por causa de grandes deslizamentos de terra. Cerca de 22 mil casas foram atingidas pela lama e entre 80 e 120 mil pessoas estão desabrigadas – informações da Cruz Vermelha falam de 160 mil desabrigados. As enchentes e a lama também destruíram pontes e rodovias, criando uma situação caótica em uma extensa região.  

Problemas semelhantes estão atingindo países próximos como o Sudão do Sul, a Tanzânia, a Etiópia e a Somália. No Sudão do Sul, país que já sofre uma grande crise humanitária devido aos conflitos entre diferentes grupos religiosos, quase um milhão de pessoas já foram atingidas e há temores de epidemias e de fome. Dezenas de mortes já foram confirmadas na Etiópia e na Tanzânia, além de dezenas de milhares de desabrigados nesses países e também na Somália. 

O resgate às vítimas está sendo dificultado pela falta de infraestrutura – pontes e estradas foram destruídas pelos deslizamentos e em muitos locais o socorro só está conseguindo chegar com o uso de helicópteros das forças militares e policiais. De acordo com informações da Cruz Vermelha da Nigéria, “os sobreviventes não tem água ou comida e não podem receber assistência médica”. A situação poderá piorar nos próximos dias – o serviço de meteorologia do país afirma que mais chuvas fortes são esperadas. 

O Quênia é considerado o país mais rico do Leste da África. É famoso no mundo inteiro por suas Savanas e reservas naturais, onde vivem grandes manadas de animais selvagens. Milhões de turistas são atraídos ao país todos os anos e chegam ansiosos para viver as aventuras de um safari. Outra grande atração turística do país é o Monte Quênia, a segunda montanha mais alta da África com 5.199 metros de altitude. O Quênia ocupa uma área total de 581 mil km², pouco maior que a área do Estado da Bahia, e tem uma população de 45 milhões de habitantes. 

A produção agrícola é fundamental para a economia do país, respondendo por 25% do PIB – Produto Interno Bruto, além de ser a grande geradora de postos de trabalho. O Quênia é um grande exportador de café, uma planta originária da vizinha Etiópia, e de chá, cultura que foi introduzida pelos ingleses nas últimas décadas do século XIX. O país fez parte da chamada África Oriental Britânica entre 1895 e 1920 como um protetorado, e entre 1920 e 1963 passou a ser a Colônia Britânica do Quênia. Em 1963 o Quênia se tornou um país independente. 

Com o início da colonização britânica na região, teve início um intenso processo de derrubada da cobertura florestal original das regiões Oeste e Sul do país para permitir a implantação de grandes lavouras comerciais, especialmente de chá, café, tabaco e algodão. Para facilitar o escoamento da produção agrícola, os britânicos construíram uma ferrovia, concluída em 1902, ligando a cidade de Mombaça, no litoral do Quênia, ao Lago Vitória. Esse modelo de agricultura baseado em intensos desmatamentos está na raiz dos problemas de deslizamentos de terras provocados pelas chuvas no Quênia. 

De acordo com estimativas de grupos conservacionistas internacionais, atualmente o Quênia possui apenas 2% da sua cobertura florestal original. Além do corte de matas para a abertura de campos agrícolas, grandes extensões de florestas foram derrubadas para a exportação das madeiras de lei e também para a criação de florestas comerciais com árvores de espécies exóticas. Essa radical redução da cobertura florestal trouxe graves impactos nos corpos d’água de uma parte do país, onde se observa uma forte redução dos caudais e um intenso assoreamento dos canais. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui no blog, a presença de vegetação é fundamental para a proteção dos solos contra os efeitos da erosão e também para permitir a infiltração da água das chuvas nos solos, recarregando aquíferos e lençóis subterrâneos. Um exemplo brasileiro da importância da cobertura vegetal é o Cerrado, o segundo maior bioma do país. A vegetação nativa dos solos do Cerrado possui sistemas de raízes bem desenvolvidas e profundas, fundamentais para a infiltração da água das chuvas nos solos. Com o avanço das frentes agrícolas em toda a Região Centro-Oeste do Brasil, onde grandes extensões de vegetação do Cerrado estão sendo derrubadas, nota-se uma clara redução dos caudais dos rios

As raízes de culturas como a soja e o milho, plantadas em larga escala no Cerrado, possuem raízes muito curtas e, portanto, ineficientes para ajudar na absorção de água pelos solos. Sem a cobertura da vegetação original do Cerrado, os solos também sofrem com os processos erosivos. São exatamente esses problemas que estão acontecendo no Quênia, porém, com um agravante – diferente dos solos planos do nosso Cerrado, o relevo das regiões agrícolas do Quênia é bem mais acidentado, o que potencializa a formação de fortes enxurradas e o desmoronamento de encostas. 

O clima no Quênia apresenta variações conforme a região do país – no litoral o clima é Tropical, variando para Temperado nas regiões Oeste e Sul do país, e para um clima Árido nas regiões Norte e Nordeste. O país possui duas temporadas de chuva ao longo do ano – as “chuvas de longa duração”, que ocorrem entre os meses de março/abril e maio/junho. No final do ano, entre outubro e dezembro, ocorre a temporada das “chuvas de curta duração”. Nos últimos anos, entretanto, o Quênia vem enfrentando extremos climáticos, com ciclos alternados de fortes secas em alguns anos e de fortes chuvas, em outros. 

Fortes temporadas de chuvas são frequentes em toda a África Oriental. Neste ano, porém, o volume e a intensidade das chuvas estão muito acima da média histórica. De acordo com as observações dos cientistas, intensos fenômenos climáticos no Oceano Índico estão por trás dessas fortes chuvas. Conforme já comentamos em postagem anterior, a temperatura das águas do Oceano Índico vem aumentando sistematicamente nos últimos anos, causando uma série de mudanças no clima de grandes áreas da África e da Ásia. 

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016. 

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O aumento da temperatura do planeta vem causando o derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul, o que tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico. Combinadas com o aumento da temperatura das águas, essas correntes marinhas tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica, como o que está acontecendo no Quênia nos últimos dias. 

As mudanças climáticas estão por aí e vieram para ficar. 

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