OS FRACOS ECOS DE UMA PRIMAVERA SILENCIOSA, OU ACONTECEU EM BARCARENA

janus

Em 1962, a renomada ambientalista, bióloga marinha e escritora americana Rachel Carson publicou um livro que dividiu a história da humanidade em dois períodos distintos – antes e depois da Primavera Silenciosa, título dado à renomada publicação.

Alarmada com o uso crescente e sem qualquer controle de inseticidas e herbicidas pelos produtores rurais americanos, Rachel Carson relatou em linguagem acessível e extremamente didática as consequências nefastas destes venenos para a natureza e para a saúde dos seres humanos. O livro se transformou rapidamente em um sucesso de crítica e de público, sem esquecer é claro da fúria e da ira que despertou em dirigentes da indústria química mundial, e foi fundamental para a proibição do uso de muitos destes venenos pelos agricultores e a um controle mais rígido da produção e venda de agrotóxicos pelo Governo dos Estados Unidos.

Duas consequências da publicação de Primavera Silenciosa: a criação da EPA – Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) em 1970 e o início do movimento ambientalista, que mudaria o mundo para sempre. O controle da poluição do ar, da água e dos solos; os problemas ligados à geração e ao descarte do lixo; a queima de combustíveis fósseis não renováveis e a busca por fontes de energia limpas; a destruição das florestas tropicais e o avanço das fronteiras agrícolas; a caça às baleias e a proteção dos rinocerontes negros da África – uma grande parcela da humanidade passou a se preocupar com estes e com os mais diferentes problemas ambientais, além de buscar alternativas para o futuro do planeta. Essa mudança de percepção levou a uma série de mudanças na legislação dos países, na busca do foi batizado posteriormente de Desenvolvimento Sustentável.

Viva!

Mas criou-se também um “Lado Negro da Força” – à medida que a legislação ambiental avançava nos países mais desenvolvidos e se criavam restrições para a produção “suja” de produtos poluentes e perigosos para o meio ambiente, muitos grupos empresariais descobriram que, transferindo suas fábricas para países pobres da periferia do mundo, onde as leis ambientais eram frouxas ou inexistentes, a produção e o lucro poderiam prosseguir sem grandes problemas. Surgiu assim um comportamento que lembra a imagem de Janus, o deus de duas caras da mitologia romana (vide imagem) que representa a dualidade humana: empresas que em seus países adotam um tipo de postura ética e legal em relação a proteção ambiental, mas que em outros países agem de maneira completamente diferente. Citando um exemplo: a Union Carbide.

Acuada pela nova legislação ambiental dos Estados Unidos na década de 1960, a Union Carbide iniciou o processo de transferência de suas fábricas, digamos, “mais problemáticas” para países em desenvolvimento – uma fábrica de pesticidas da empresa passou a operar na cidade de Bhopal, Índia. Famosa por seus custos baixíssimos, mão de obra farta, legislação ambiental praticamente inexistente e quase nenhuma restrição a investimentos estrangeiros, a Índia se transformou num dos destinos preferenciais das grandes empresas poluidoras.

Em dezembro de 1984, a ganância e a esperteza da gigante multinacional sofreu um revés histórico: uma falha na operação de equipamentos nesta empresa provocou o vazamento de 40 toneladas de gases tóxicos. A nuvem de gases contaminou mais de 500 mil moradores da cidade de Bhopal – dados oficiais afirmam que 3 mil pessoas morreram intoxicadas; fontes não oficias afirmam que o número real de mortos pode ter chegado à casa de 10 mil vítimas. No vergonhoso processo de reparação judicial que se seguiu, advogados da Union Carbide ofereceram valores de indenização extremante baixos às vítimas – como justificativa se alegou no tribunal: “não há como comparar o valor da vida de um americano com a de um indiano”. Felizmente, a empresa não conseguiu se recuperar da tragédia que provocou.

O Brasil também se transformou no destino de muitas destas empresas – o regime militar que governava o país no período via com bons olhos os investimentos que as “novas” empresas gerariam no país. Cubatão, cidade da região da Baixada Santista no Estado de São Paulo, se transformou em sede de muitas destas empresas e, ainda na década de 1980, ganhou a fama de cidade mais poluída do mundo e Vale da Morte. Foram necessárias várias décadas e pesados investimentos dos Governos para reverter os prejuízos ambientais na cidade. Uma destas empresas que operou na cidade, a multinacional francesa Rhodia, até hoje ainda administra passivos ambientais na região: terrenos contaminados por pesticidas químicos (“pó-da-China” ou agente laranja) em Cubatão, São Vicente e na Praia Grande.

Em Paulínia, cidade do interior do Estado de São Paulo, uma outra tragédia ambiental, esta de autoria da fábrica de agrotóxicos da multinacional anglo-holandesa Shell, que funcionou na região entre 1973 e 1993: a contaminação de solos e lençóis subterrâneos de água com pesticidas organoclorados aldrin, endrin e dieldrin. Apesar da empresa negar até hoje sua responsabilidade no caso, mais de 80% dos moradores da localidade no período apresentavam resíduos das substâncias em seus organismos em exames médicos realizados em 2001 – muitos desenvolveram enfermidades gravíssimas e morreram.

A pergunta que fica: estas empresas teriam se comportado com tanta desfaçatez ou imprudência em seus países de origem? A justiça dos seus respectivos países teria sido complacente com seus atos e com toda uma lista de danos ao meio ambiente e à saúde de populações contaminadas e/ou mortas após intoxicação por produtos químicos?

O vazamento de resíduos de mineração na fábrica da empresa Alumina do Norte em Barcarena, Nordeste do Estado do Pará, parece colocar a multinacional norueguesa Norsk Hydro nesta lista de empresas de comportamento dualista: na Noruega, país que se destaca na vanguarda do desenvolvimento sustentável e do discurso de proteção ambiental, a empresa é referência em ética empresarial e em práticas ambientais das mais nobres – nos confins da Floresta Amazônica, longe dos olhos do mundo civilizado, a empresa age com métodos predatórios e insustentáveis.

Encerro com uma constatação curiosa: consultei os principais jornais da Noruega de hoje e só encontrei referências ao “acidente” de Barcarena em três publicações: Aftenposten, Dagens Naeringsliv e no Regnar – no final da tarde, as notícias, que foram atribuídas a “fotografias e boatos infundados divulgados nas redes sociais do Pará”, simplesmente desapareceram dos noticiários. É assim que se comportam os paladinos noruegueses do desenvolvimento sustentável?

Deixo a pergunta a Gro Harlen Brundtland, ex-primeira ministra da Noruega e destacada líder mundial em matéria de desenvolvimento sustentável ou, quem sabe, para Sua Majestade Harald V, Rei da Noruega e ecologista de carteirinha…

3 Comments

  1. […] Além das evidentes consequências negativas do acidente ambiental, que deixou centenas de famílias sem abastecimento de água potável – para falar o mínimo, causou maior espanto a postura da empresa, que negou categoricamente qualquer irregularidade, só passando a admitir o acidente após a divulgação da descoberta da tubulação clandestina. A Noruega, nação a que pertence a controladora da empresa, é referência mundial em qualidade de vida, tecnologia, educação, governança pública, energias alternativas e produção limpa, ética e sustentabilidade ambiental – nós brasileiros, sistematicamente, somos apontados por dedos noruegueses e acusados de todos os tipos de agressões ambientais e da destruição da Floresta Amazônica. Era de se esperar uma postura mais ética da empresa escandinava. Vou falar disto na minha próxima postagem.  […]

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