OS GOLFINHOS E A POLUIÇÃO DOS RIOS

Baiji

Quem é da minha faixa etária deve se lembrar de Flipper, uma série de televisão da década de 1960 que marcou época e que mostrava as aventuras de um golfinho super esperto e seus amigos. Os golfinhos pertencem à família dos Cetáceos, mamíferos marinhos altamente inteligentes e encontrados em todos os mares do mundo. Existem algumas espécies de água doce – o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) dos rios da Amazônia é uma das espécies mais conhecidas aqui do Brasil; outra espécie brasileira é o boto cinza ou tucuxi (Sotalia fluviatilis). Existem ainda duas sub-espécies: o boto-boliviano (Inia boliviensis) e o boto-do-araguaia (Inia araguaiensis).

A primeira vez que vi um destes golfinhos de água doce foi em 2010, quando estive trabalhando em obras de saneamento básico no Estado de Rondônia. Estava com alguns amigos em uma espécie de bar na beira do rio Candeias (imagine uma cobertura de palha com alguns bancos de madeira feitos da forma mais improvisada possível). Estávamos jogando conversa fora numa tarde de domingo particularmente quente quando, a aproximadamente cinco metros de distância, um boto cinza saltou da água e olhou fixamente para mim. Todos na mesa estavam distraídos ou de costas para a água – alertados da presença do boto, todos levantaram da mesa e passaram a olhar fixamente para o rio, esperando que o animal saltasse novamente. Ele simplesmente desapareceu. Conversando depois com um amigo da região, fiquei sabendo que os botos da Amazônia são extremamente curiosos – ele provavelmente estava ouvindo o ruído das conversas na mesa e saltou da água para ver o que estava acontecendo. Para mim, única testemunha do salto, foram alguns dos segundos mais maravilhosos da vida. Eu já havia visto várias espécies de cetáceos em cativeiro, especialmente golfinhos, orcas e belugas em aquários de parques americanos. A sensação de avistar um espécime selvagem cara a cara foi simplesmente fantástica e superou todas as outras.

Os golfinhos de água doce ainda existentes são fósseis vivos, que descendem das primeiras espécies que surgiram na Terra (no início, eram animais semi aquáticos) e que deram origem aos golfinhos e baleias que vivem atualmente nos oceanos. Além das espécies da Amazônia, aqui no continente americano existe uma outra que vive tanto no oceano quanto na água doce – o golfinho-do-rio-da-prata (Pontoporia blainvillei) e, vou incluir na lista por conta própria, a vaquita (Phocoena sinus), uma espécie pequena que habitava as águas da região do delta do rio Colorado e um trecho de mar ao norte do Golfo da Califórnia. Devido aos seríssimos problemas ambientais do Rio Colorado, praticamente não há mais água doce na região do delta e a vaquita está em risco de extinção eminente – biólogos calculam que restam no máximo vinte animais da espécie. Na Ásia existiam duas espécies: os golfinhos da espécie Platanista gangetica, divididos em duas sub-espécies – o golfinho-do-rio-Ganges (Platanista g. gangetica) e o golfinho do rio Indo (Platanista g. minor), além dos golfinhos da família Lipotidae da China, o baiji (Lipotes vexillifer), espécie provavelmente extinta desde 2007.

O baiji (vide foto), também chamado de golfinho-lacustre-chinês ou golfinho branco, tinha como habitat principal o rio Yangtzé, um dos maiores rios da Ásia e sobre o qual falamos em postagem anterior. Relatos antigos falam que os baijis eram encontrados aos milhares ao longo de toda a bacia hidrográfica do Yangtzé. A pesca predatória, a construção de barragens de represas, a navegação intensa e, principalmente, a grande poluição das águas do rio foram as responsáveis pelo irreversível declínio da espécie. A última vez que um exemplar de baiji foi avistado nas águas do rio Yangtzé foi em dezembro de 2006. No ano de 2007, uma grande expedição científica, que durou seis semanas, realizou intensas buscas, não encontrando nenhum espécime vivo. Caso a extinção do baiji seja confirmada (oficialmente, ele é declarado funcionalmente extinto), esta será a primeira extinção de um Cetáceo como resultado direto da interferência humana no meio ambiente. Estudos científico indicam que o baiji vinha habitando a bacia hidrográfica do rio Yangtzé há, pelo menos, 20 milhões de anos, mas não resistiu a uns poucos milênios de convivência com o seres humanos.

Outra espécie que está correndo seríssimos riscos é o golfinho-do-rio-ganges, cujo habitat se estende por toda a bacia hidrográfica dos rios Ganges e Bramaputra, entre outros rios menores da Índia Oriental, do Nepal, do Butão e de Bangladesh, onde se encontra o grande Delta do Rio Ganges. Na época das Monções, período de fortes chuvas em toda a Ásia, esses golfinhos se aproveitavam da alta dos níveis dos rios e subiam as correntes até chegar aos sopés das montanhas das Himalaias.

Relatos de viajantes e de naturalistas ingleses na Índia do século XIX costumavam mencionar que estes golfinhos viviam em grandes bandos – nos dias atuais, os animais costumam viver sós ou em pequenos bandos com no máximo dez indivíduos, o que já é a indicação de um forte declínio populacional. O susu, nome popular que a espécie recebe da população, costuma emergir em intervalos de 30 a 45 segundos para respirar na superfície; algumas vezes ele pode ser observado nadando com o “bico” para fora, lembrando muito os crocodilos da espécie gavial, encontrados em toda a Índia. Estes golfinhos podem ser encontrados em águas rasas com até um metro, mas parecem preferir mesmo as regiões com águas mais profundas.

Diferente de outros golfinhos de rios e mares, o susu do Ganges não possui o cristalino nos olhos, o que torna o animal praticamente cego. Os cientistas especulam que os animais provavelmente conseguem detectar a direção e a intensidade da luz, porém se utilizam basicamente do seu sofisticado sentido de ecolocalização ao nadar. Golfinhos e baleias possuem órgãos especiais que lhes permite usar ondas sonoras para localizar presas e obstáculos nas águas escuras, um sistema bastante parecido com os sonares eletrônicos utilizados por navios e submarinos.

A intensa poluição nas águas do rio Ganges está tornando a sobrevivência do susu um grande desafio. O despejo de esgotos e efluentes industriais nas águas do rio tem reduzido os estoques de peixes e de pequenos crustáceos, os principais alimentos do cardápio dos golfinhos. A construção de diversas barragens ao longo de toda a calha do rio Ganges é um outro problema – estes obstáculos criam barreiras para o livre fluxo dos animais em suas rotas de migração e isola populações, um mal que leva à redução da variedade genética dos animais e prenuncia a extinção da espécie. As imensas ilhas de lixo flutuante com todos os tipos de resíduos também criam graves problemas para a navegação por ecolocalização – a grande quantidade de obstáculos na água transforma as imagens geradas em verdadeiros labirintos nos cérebros dos animais, o que resulta em estresse intenso. Caso não venham a ser tomadas medidas de controle da poluição das águas e adotadas políticas sérias para a gestão dos resíduos sólidos na bacia hidrográfica do rio Ganges, o destino dos seus golfinhos será o mesmo dos baijis do rio Yangtzé: a eminente extinção.

Um exemplo mundial de revitalização e recuperação da qualidade ambiental de um rio pode ser encontrado no município de Cubatão, a apenas 50 km do centro de São Paulo. Até a década de 1980, Cubatão e seu rio homônimo eram conhecidos pela alcunha de “Vale da Morte”. Num esforço sem precedentes na história brasileira, diversos níveis de governo juntaram esforços e 95% das fontes de poluição das águas e do ar foram controladas ao longo de vinte anos, tornando a região irreconhecível para os antigos moradores. Entre 2007 e 2009 trabalhei em obras de redes de esgotos na cidade, onde conheci muitos moradores antigos da região. Um destes moradores, um senhor bem idoso, me mostrou um trecho do rio Casqueiro, um dos braços que formam o delta do rio Cubatão, onde funcionava uma espécie de “maternidade” de golfinhos até o início da década de 1960. As fêmeas vindas do mar aberto buscavam a tranquilidade das águas do Casqueiro para ter os seus filhotes e lá ficavam por algumas semanas até que os “bebês” estivessem fortes o bastante para enfrentar a força e os perigos do oceano. Aquele senhor me confidenciou que um dos seus maiores sonhos, antes de morrer, seria o de ver novamente estes golfinhos nadando no hoje recuperado rio Casqueiro.

Que consigamos salvar todos estes golfinhos para as futuras gerações.

Veja também:

BOTO DO ARAGUAIA: UMA ESPÉCIE RECÉM DESCOBERTA E JÁ EM RISCO DE EXTINÇÃO

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