AS EXPORTAÇÕES DE RESÍDUOS PLÁSTICOS PARA BANGLADESH, OU OS CONHECIDOS PROBLEMAS COM RESÍDUOS SÓLIDOS

Reciclagem de plástico em Dhaka

A produção de resíduos sólidos em larga escala é um dos maiores problemas ambientais de nossas cidades. Com a urbanização e o deslocamento de centenas de milhões de pessoas das áreas rurais para as áreas urbanas, o dia a dia das relações de consumo mudaram completamente. Cada vez mais, o acesso a produtos e alimentos industrializados é uma dura realidade na vida dessas pessoas, tanto por razões puramente logísticas quanto de estratégia comercial e de marketing por parte dos fabricantes. Em cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro, a produção per capita de resíduos é de aproximadamente 1 kg, principalmente resíduos plásticos de todos os tipos. 

Em grandes cidades de países pobres, os números da geração per capita de resíduos são bem mais modestos devido aos poucos recursos financeiros das populações. Existe, porém, um agravante, que pedindo desculpas pela redundância, está ficando cada vez mais grave – países pobres têm se especializado na importação de lixo originário de nações ricas da Europa, Estados Unidos, Canadá, austrália e Japão, com o objetivo de realizar a reciclagem e posterior venda dos materiais para indústrias. Esse é o caso de Bangladesh. 

Qualquer visitante que chegar hoje em Dhaka, a capital do país, ou em qualquer outra cidade de maior porte de Bangladesh, vai ficar assustado com as montanhas de resíduos que vai encontrar nas ruas e margens de córregos e rios. Como não é incomum em outras nações miseráveis pelo mundo a fora, Bangladesh simplesmente não tem recursos para realizar uma coleta digamos “satisfatória” dos resíduos gerados em suas cidades. Os Governos locais fazem o que podem para recolher a maior quantidade possível desses resíduos, que, no máximo, serão transportados para descarte em um lixão a céu aberto. 

Além dessas dificuldades, precisamos levar em conta também os impactos gerados pelas “indústrias de baixo custo” do país. Em postagens anteriores já falamos das complicadas e impactantes indústrias têxteis e da desmonte naval, que causam inúmeros problemas sociais e ambientais. Um outro exemplo que podemos incluir na lista é a indústria do couro.  

A cidade de Hazaribagh é a que possui a maior quantidade de curtumes de Bangladesh. Os problemas já começam com a chegada das peças dos matadouros – o couro está repleto de restos de carne e gordura, normalmente já em início de putrefação. Esses resíduos precisam ser raspados, num trabalho bastante nauseante, o que gera uma grande quantidade de resíduos, normalmente jogados diretamente na água dos rios. 

Nas etapas seguintes, o couro passa por diversos banhos com produtos químicos para mumificação, amaciamento e coloração. Os produtos usados nessas etapas possuem metais pesados em sua composição como sais de cromo, mercúrio, cádmio e arsênico. Por fim, todos os efluentes contaminados são despejados nos cursos d’água sem nenhum tipo de tratamento. Cálculos oficias do Governo de Bangladesh falam de despejos de 22 mil litros de resíduos tóxicos a cada dia em Hazaribagh. O rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, sofre com problemas semelhantes. Detalhe – o rio que recebe esses despejos, o Buriganga, é o principal manancial de abastecimento dos 15 milhões de habitantes de Dhaka. 

Nada, porém, pode ser comparado aos problemas criados pelos resíduos plásticos no país. A produção mundial de plásticos, como imagino ser do conhecimento de muitos dos leitores, é da ordem de 100 milhões de toneladas a cada ano. O descarte inadequado e a falta de reciclagem desse material são alguns dos problemas mais graves do planeta na atualidade. Calcula-se que um volume entre 8 e 13 milhões de toneladas de plásticos acabem chegando aos oceanos, o que tem causado enormes dificuldades para as criaturas marinhas. 

Já há algum tempo, países altamente industrializados passaram a se valer das “exportações” de resíduos plásticos para a reciclagem em países pobres da África, subcontinente indiano e Sudeste Asiático. De acordo com reportagem do jornal The Guardian, os Estados Unidos exportam em média 68 mil contêineres com resíduos plásticos a cada ano. Até 2018, a China era a maior receptora e recicladora dos resíduos plásticos norte-americanos. Uma mudança na legislação do país, entretanto, passou a proibir esse tipo de comércio. A paupérrima Bangladesh viu nisso uma oportunidade de “negócio” e passou a absorver também uma parte dos resíduos plásticos dos Estados Unidos. 

Recicladora de plásticos em Dhaka

As “recicladoras de resíduos plásticos”, que na realidade são casebres miseráveis onde moram famílias de bangladeses, costumam ficar nas margens de córregos e rios, o que facilita a chegada de barcaças carregadas com os resíduos. Após o exaustivo trabalho de desembarque dos pesados fardos com resíduos plásticos, o que normalmente é feito por homens, entram em cena as mãos delicadas de mulheres e crianças, que vão selecionar e separar os mais diferentes tipos de plásticos, indo desde peças grandes e fáceis de manipular até pequenos fragmentos que só as mãos de crianças muito pequenas conseguem segurar (vide foto no alto). Os resíduos classificados são embalados separados e cuidadosamente. 

Enquanto eu escrevia esse texto, eu tive a curiosidade de buscar na internet empresas que revendem esses materiais. Encontrei, entre outros, um vistoso anúncio do Alibaba, um dos maiores sites de venda do mundo, com o título de “plásticos reciclados de Bangladesh”, onde aparecia o preço por tonelada e os volumes mínimos de venda. Pelo destaque, me pareceu que os resíduos originários desse país gozam de boa reputação no mercado internacional. 

Um dos produtos de destaque da “indústria da reciclagem” de Bangladesh são os flocos de garrafas Pet – o país exportou em 2018 cerca de 20 mil toneladas desse resíduo, produzidos em mais de “três mil fábricas espalhadas pelo país asiático”. Os negócios renderam US$ 15 milhões e, segundo os empresários do setor, a taxa de crescimento nas vendas é de 20% ao ano

Além de problemas elementares como o uso de mão de obra infantil, jornadas excessivas de trabalho em ambientes insalubres, contaminação por produtos químicos presentes nos resíduos (em embalagens de defensivos agrícolas por exemplo), contaminação ambiental do ar, água e solos, entre muitos outros, essa “indústria” é uma verdadeira fonte de problemas para a população de Bangladesh.  

De acordo com informações apuradas pelo The Guardian, entre 20% e 70% dos resíduos  plásticos “exportados” pelos Estados Unidos estão contaminados com restos de comida e outros produtos. Durante a seleção nas “fábricas” de Bangladesh, esses resíduos acabam sendo rejeitados e vão virar lixo no país. Ou seja – além de todo o volume de resíduos sólidos de todos os tipos produzidos pela população do país, imensos volumes de lixo estrangeiro serão somados, poluindo ainda mais as águas e terras de Bangladesh. 

Viver em Bangladesh é, cada vez mais, um martírio. 

3 Comments

  1. […] Felizmente, as coisas estão começando a mudar no país, ainda que muito lentamente. Em 2018, o Governo Central da China introduziu uma série de mudanças na legislação ambiental do país, buscando com isso uma reversão da caótica situação das cidades e rios do país. Um exemplo dessas mudanças foi a proibição das importações de resíduos plásticos para reciclagem na China, uma medida que provocou a migração de muitas dessas importações para países da região como Vietnã, Malásia, Filipinas, Indonésia, Índia e Bangladesh.  […]

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