DELTA DO RIO OKAVANGO: UM PARAÍSO DE ÁGUAS NO DESERTO DO KALAHARI

Delta do rio Okavango

Quando o curso de um rio está chegando perto da sua foz e se divide em vários braços, essa formação recebe o nome de delta. Essa configuração de foz é bastante comum em rios de áreas de planície, onde a baixa declividade do terreno favorece o acúmulo de areia e de sedimentos. Alguns exemplos de rios que têm sua foz no formato de delta são o Amazonas e o Parnaíba aqui no Brasil, o Paraná na Argentina, o Mississipi nos Estados Unidos, o Nilo no Egito, o Danúbio e o Reno na Europa. 

O Okavango, um dos rios mais importantes da África Austral com 1.600 km de extensão, também forma um delta na sua foz, porém, diferente da grande maioria dos deltas do mundo. Com nascentes nos planaltos do interior de Angola, o rio Okavango recebe grande parte das águas das chuvas de verão do país, seguindo para o Sul em direção da Namíbia e do Deserto do Kalahari, onde encontra uma grande fossa tectônica que desvia as águas do rio para o interior do continente. Essa grande depressão canaliza as águas na direção Leste, onde forma o maior delta interior do mundo com uma área de mais de 15 mil km² no meio do deserto do Kalahari.  

O Kalahari tem uma área total de 900 mil km², combinando áreas de deserto e de semiáridos em Angola, Namíbia, Botsuana e África do Sul. A palavra Kalahari na língua de tribos locais significa “grande sede”, o que nos dá uma ideia da carência de fontes de água na região. O Delta do rio Okavango forma um pequeno oásis no meio da paisagem árida, abrigando milhares de seres vivos, que se nutrem de vida neste paraíso, enquanto as águas do rio evaporam lentamente, aguardando a chegada da nova temporada de chuvas, num ciclo, até hoje, interminável. É esse delicado equilíbrio que pode ser ameaçado pela implantação de grandes projetos de agricultura irrigada, especialmente em Angola. 

Em uma região tão seca, as águas existentes são fortemente disputadas entre as populações, o que coloca o rio Okavango em uma espécie de estado de atenção permanente. A Namíbia, por exemplo, tem grande parte do seu território tomado por desertos e qualquer fonte permanente de água é considerada como uma verdadeira benção para uma escassa população de 2 milhões de habitantes. A agricultura responde por 6% do PIB – Produto Interno Bruto, do país e emprega 70% da população. A criação de animais, com rebanhos de 2,4 milhões de bovinos, 2,7 milhões de ovinos e 2.1 milhões de caprinos, consome volumes da ordem de 90 milhões de metros cúbicos de água ao ano (dados de 2008), onde há um desperdício médio de 50% entre infiltrações no solo e evaporação. O Governo da Namíbia tentou por diversas vezes implementar a construção de canais de irrigação a partir das águas do rio Okavango, com vistas ao desenvolvimento de grandes projetos de agricultura irrigada. Esses projetos foram vetados por Angola e Botsuana, países que compartilham o uso das águas e a gestão do comitê internacional da bacia hidrográfica do rio Okavango. 

Esse aparente rigor na administração dos recursos hídricos do rio Okavango, na verdade, não é tão rigoroso assim. Um dos grandes riscos para o futuro do rio é a absoluta falta de transparência nas decisões de alguns governos locais. Em Angola, citando um exemplo, o governo está na mão do mesmo grupo político desde 1975, ano em que o país alcançou sua independência de Portugal. Sem uma efetiva participação popular nas decisões da vida pública e com países, como a China, exercendo forte influência econômica, decisões das mais controversas podem ser tomadas. Nos últimos anos, a China se transformou no maior investidor na África, especialmente em obras de infraestrutura. O país também se transformou numa importante fonte de empréstimos e linhadas de crédito para Governos e estatais africanas, um esforço que pode reder “privilégios” especiais para os investidores chineses em solos africanos.

Dentro desse ambiente político e econômico fortemente “influenciável”, o meio ambiente vira uma espécie de refém e grandes projetos de agricultura irrigada podem ser liberados sem maiores preocupações com os eventuais impactos ambientais – na postagem anterior citamos que grupos empresariais chineses têm interesse na implantação de projetos de agricultura irrigada em Angola, valendo-se das águas do rio Okavango. A eventual retirada de grandes volumes de água para uso na irrigação de extensas áreas agrícolas poderá colocar em risco a sobrevivência do grande pantanal do Delta do rio Okavango. Aliás, diversas áreas alagadiças do mundo correm o mesmo risco, incluindo-se na lista o nosso Pantanal Mato-grossense

Como se não bastassem todos os riscos antrópicos locais, o rio Okavango ainda poderá ser vítima do clima mundial – projeções meteorológicas baseadas em modelos matemáticos indicam grandes alterações nos padrões das chuvas das montanhas de Angola nas próximas décadas devido às mudanças climáticas globais. Sem estas chuvas regulares, o Delta do Okavango poderá desaparecer em poucos anos e a humanidade perderá mais um dos seus grandes tesouros naturais. 

Ou seja: se ficar, o bicho “homem” pega; se correr, o “aquecimento global” come. 

Como a humanidade é esperta…

One Comment

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s