A DESTRUIÇÃO DOS ECOSSISTEMAS NA CALHA E NA FOZ DO RIO DOCE

Pesca Colatina

O rompimento da barragem de rejeitos de mineração da empresa Samarco em Mariana, Minas Gerais, ocorrido no dia 5 de novembro de 2015, despejou 62 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos de metais pesados, contaminando um trecho de 700 km do rio Doce.

Você conhece bem estas cifras, citadas inúmeras vezes aqui neste blog e nos meios de comunicação. Deixem-me apresentar os números num formato um pouco diferente, de forma que todos entendam perfeitamente o que este desastre significou para todas as comunidades de seres vivos da calha e da região da foz do rio Doce.

Imagine que a largura do fundo da calha do rio Doce seja equivalente a 250 metros (a largura do rio varia bastante ao longo do leito total e este seria uma espécie de valor médio) – observe que não estou falando da largura entre as margens, que seria medida em linha reta entre dois pontos nas margens. Estamos falando de uma linha imaginária que segue por toda a superfície do fundo do rio, acompanhando o sobe e desce de todas as reentrâncias e pedras depositadas no leito. Se multiplicarmos esta largura de 250 metros pelo comprimento total da calha do rio comprometida pelo vazamento da lama tóxica – 700 km aproximadamente, nós encontraremos uma superfície total equivalente de 175 km², ou simplificando mais, uma área igual a de um quadrado com laterais de 12,25 km. Considerando que, devidamente convertido, vazaram 62 bilhões de litros de lama tóxica sobre esta superfície, nós podemos calcular que cada quilômetro quadrado recebeu um volume de lama equivalente a 354 milhões de litros. Simplificando ainda mais este raciocínio, cada metro quadrado da superfície do fundo do rio Doce foi, teoricamente, encoberto por um volume equivalente a 354 litros de lama – traduzindo isto para um equivalente métrico: uma camada de lama com 35,4 cm cobriu cada metro quadrado do fundo do rio Doce. É evidente que este cálculo é especulativo – muita lama ficou em suspensão na água e foi arrastada na direção do Oceano Atlântico; grandes volumes ficaram nas margens ou presos na barragem da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves. O ponto chave do raciocínio é que uma camada substancial de lama encobriu instantaneamente o fundo do rio Doce (estou considerando aqui o tempo geológico, calculado em dezenas de milhões de anos).

Complementando esse rápido raciocínio matemático, deixem-me expor uma definição biológica: as comunidades de organismos bentônicos:

A palavra bentos (usada sempre no plural) é de origem grega e significa profundidade ou inferior. Ela é usada para definir as comunidades de organismos bênticos ou bentônicos formadas pelos seres que vivem associados ao substrato do solo do fundo, seja em ambientes marinhos, salobros ou dulcícolas (de água doce). Esses organismos vivem no interior e na superfície dos sedimentos e incluem bactérias, fungos, plantas e animais, com tamanhos indo desde valores microscópicos até algumas espécies de algas com vários metros de comprimento. Para que todos entendam a complexidade destes ecossistemas, algumas criaturas marinhas microscópicas têm a incrível densidade de 5 indivíduos vivendo em um único grão de areia. Apesar de, na maioria das vezes, não serem notados por olhos não treinados, esses organismos representam uma parte importante da cadeia trófica aquática.

Falando de uma forma bem direta – a maior parte das comunidades de organismos bentônicos que vivia nas áreas do fundo da calha e na região da foz do rio Doce foram “instantaneamente” encobertas por uma camada de lama tóxica com espessura média de 35,4 cm e, simplesmente, se viram extintas. Sem a presença destes organismos, que estão na base da cadeia alimentar das águas do rio e de influência na foz, os predadores superiores – peixes e crustáceos especialmente, que conseguiram sobreviver à onda de lama, ficaram sem suas fontes de alimentos; se não conseguiram encontrar fontes alternativas de nutrientes, todas essas criaturas ou morreram de fome ou, com muita sorte, migraram para outras regiões. Pior – sem a recuperação destas comunidades, a recolonização das águas do rio Doce por novas criaturas ficará bastante prejudicada ao longo do tempo.

As notícias referentes aos estoques pesqueiros na região da foz do rio Doce e que vêm sendo divulgadas confirmam isso: espécies de peixes que eram capturados em grandes quantidades como robalos, tucunarés e bagres amarelos praticamente desapareceram. A presença de tainhas e tilápias diminuiu muito e, quando são avistadas, apresentam a pele deformada e cheia de machucados. Em situação um pouco melhor se encontram espécies como cascudo, manjubinha e carapeba. Apesar de não ser respeitada por muitos pescadores, a Justiça Federal do Espírito Santo mantém a proibição da pesca na região da foz do rio Doce, entre Aracruz e Linhares. Na calha do rio Doce em Minas Gerais, o governo estadual liberou em maio último a pesca de espécies exóticas, mantendo a proibição da pesca das espécies nativas da bacia hidrográfica.

Testes laboratoriais que vem sendo feitos sistematicamente em peixes e camarões coletados nas áreas afetadas pelo derrame de lama apontam para uma redução nas concentrações de chumbo, cromo e arsênico, metais pesados que estavam misturados na lama que vazou – os níveis de ferro encontrados, ao contrário, aumentaram. Isto indica que a recuperação biológica plena dos ecossistemas aquáticos das águas do rio Doce e também da região de influência na foz no Oceano Atlântico, incluindo-se a recolonização de extensas áreas “mortas”, vai demorar bastante. O drama de comunidades e grupos de pescadores que, tradicionalmente, retiravam seu sustento das águas do rio e da foz vai continuar…

Os relatos de algumas testemunhas, que acompanharam de perto a ruptura da barragem em Mariana, falam que a tragédia levou menos de 60 segundos para acontecer – alguns especialistas afirmam que a recuperação do rio Doce poderá levar até 100 anos. São números e dados demais para descrever, simplesmente, a maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil.

Resumindo: as águas vão continuar ruins para peixes e pescadores ainda por muito tempo.

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