A DESTRUIÇÃO DOS BANHADOS NO VALE DO RIO DOS SINOS

Ratão-do-banhado

Banhados são paisagens típicas do extremo Sul do Brasil. São áreas planas e alagadiças comuns nos pampas gaúchos, caracterizadas também por serem área de transição entre ecossistemas aquáticos e terrestres. As áreas de banhados têm uma série de funções ecológicas de extrema importância:

– Funcionam como filtros da água, retendo toxinas, esgotos e poluentes, aumentando também a infiltração de água nos solos, ajudando na recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos;

– São áreas fundamentais para a reprodução e alimentação dos peixes, crustáceos e insetos, sendo também áreas de refúgio para diversas espécies de animais silvestres como as capivaras, as lontras e os ratões-do-banhado (vide foto);

– Os banhados atuam no controle de enchentes nos períodos de chuva, acumulando grandes volumes de água e funcionando como barreiras naturais para o controle da velocidade da correnteza destes rios;

– Nos períodos de seca, funcionam como depósitos e fontes de água, utilizadas por diversas espécies de animais, uma vez que são, normalmente, áreas onde se encontram nascentes de água.

Localizado em uma zona de transição entre áreas de Mata Atlântica no Nordeste do Rio Grande do Sul e de Pampas ao Sul e Centro do Estado, o Vale do Rio dos Sinos tinha, até meados da década de 1980, uma área total de banhados equivalente a 11 mil hectares. De acordo com um trabalho de pesquisa feito ao longo de quatro anos pelo biólogo Rafael Gomes de Moura, essa área sofreu uma redução de 70% ao longo dos últimos 30 anos, quando mais de 8 mil hectares de banhados, simplesmente, desapareceram. A perda destes ambientes tem uma série de consequências negativas para o rio dos Sinos, que vão desde a perda de biodiversidade de espécies de peixes, aves, mamíferos, répteis e insetos, além de diversas espécies da flora, até a redução no volume de água na calha do rio em épocas de seca e um aumento substancial na violência das enchentes em períodos chuvosos. Esses problemas vêm se somar aos problemas de poluição das águas por despejos de esgotos domésticos e industriais, de resíduos sólidos e lixo nas águas do rio dos Sinos.

Com o crescimento das cidades do Vale do Rio dos Sinos e a forte valorização dos terrenos disponíveis para a construção civil, os banhados, considerados como uma espécie de “desperdício” de áreas livres, passaram a ser sistematicamente aterrados e transformados em espaços para a especulação imobiliária pelas grandes empresas do setor – esse mesmo movimento aconteceu, para citar alguns exemplos, nas áreas de várzeas dos rios da Região Metropolitana de São Paulo e de manguezais do Recife. Para as populações de baixa renda, estes espaços passaram a ser vistos com uma alternativa para a construção de moradias de baixo padrão, as famosas favelas, onde o avanço dos aterros se dá metro a metro sobre as áreas alagadiças.

Nas áreas rurais, o avanço sobre as áreas de banhado se “justifica” pela necessidade dos produtores em aumentar os espaços cultiváveis e de produção de suas terras. Sistematicamente, áreas vão sendo aterradas para permitir o aumento das lavouras ou ampliação das áreas de pastagens, currais, galinheiros ou chiqueiros, uma prática que se estende também para as áreas de mata ciliar, que são derrubadas sem maiores critérios por muitos agricultores. As áreas de banhados, várzeas e mata ciliares são fundamentais para a manutenção da qualidade ambiental das águas dos rios – sem essas áreas de proteção e de amortecimento, há um aumento do carreamento de resíduos sólidos, lixo, areia e sedimentos para dentro da calha dos rios, além do desaparecimento de nascentes, perda de áreas de refúgio para a vida animal, contenção de enchentes, entre outros impactos negativos.

As consequências desta redução drástica das áreas de banhados podem ser conferidas facilmente observando-se o aumento do número de enchentes nas cidades ao longo das margens do rio dos Sinos e também no número de pessoas atingidas pelos eventos. Em 2015, as enchentes atingiram mais de 70 mil moradores nas cidades de Campo Bom, Esteio, Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo – a Defesa Civil da cidade de São Leopoldo, para citar um único caso, calculou na época prejuízos da ordem de R$ 13 milhões, considerando apenas as perdas das populações atingidas. Quando o cálculo considera a redução da arrecadação de impostos da Prefeitura e as perdas do comércio e das indústrias, esse prejuízo sobe para a casa dos R$ 50 milhões.

Os prejuízos também podem ser vistos na redução da disponibilidade da água potável subterrânea. Com o aterramento das áreas dos banhados e a impermeabilização dos solos com construções, observa-se uma redução substancial da recarga dos depósitos de água, com uma diminuição notável na produção de águas em poços artesianos e também em fontes de água alimentadas a partir destes lençóis subterrâneos. Considerando-se o crescimento das populações das cidades e o comprometimento da qualidade das águas do rio dos Sinos pelo despejo de esgotos e efluentes industriais, essas reservas subterrâneas, que funcionavam como uma reserva estratégica, passam a representar uma perda significativa para muita gente. Essa sensação de perda ganha contornos trágicos quando se observa que a destruição destas áreas de banhados é praticamente irreversível – é muito difícil se imaginar que as prefeituras das cidades tenham recursos financeiros e capital político que permita a desapropriação das áreas ocupadas para uma eventual recomposição destes biomas, ou ainda imaginar que produtores rurais aceitem reduzir as suas áreas de produção. Todos os esforços das autoridades ambientais devem se concentrar na preservação dos banhados restantes.

Do ponto de vista biológico, a situação também não é nada confortável. O rio dos Sinos, juntamente com os rios Gravataí e Caí são os principais formadores do Lago Guaíba – esses três rios estão na lista dos dez rios mais poluídos do Brasil, ocupando, respectivamente, a 4°, 5° e 8° posições. O altíssimo grau de poluição presente nestes corpos d’água, por si só, já é um entrave para a manutenção da biodiversidade de espécies animais e vegetais – com a destruição das áreas de reprodução e de alimentação representada tradicionalmente pelos banhados, a sobrevivência de muitas espécies de peixes, assim como de crustáceos, anfíbios, répteis, mamíferos, aves, insetos e diversas plantas é incerta. Se pararmos para pensar na destruição de toda uma cadeia alimentar consolidada ao longo de milhares de anos de evolução conjunta destas espécies e do equilíbrio ambiental existente, a extinção de espécies associadas a estes rios pode ser uma espécie de “tiro no pé” – imagine que, sem predadores naturais, algumas espécies de animais e de insetos se reproduzam sem controle e passem a atacar as grandes plantações de grãos existentes no Rio Grande do Sul, Estado que se destaca entre os grandes produtores brasileiros. Seria um verdadeiro desastre econômico para uma economia que, há muitos anos, vem acumulando problemas em série.

Além desta importância para a biodiversidade local, os banhados também são de importância ímpar para todo um conjunto de espécies de aves migratórias como o cisne-do-pescoço-preto e a coscoroba (ou capororoca), que usam estas áreas em paradas para descanso, alimentação e nidificação, em suas heroicas jornadas anuais de voos de milhares de quilômetros entre regiões de diversos países. O comportamento instintivo destes animais, adquirido ao longo de centenas de gerações, não pode ser alterado de uma hora para outra – a destruição de uma única área tradicional de descanso e alimentação pode significar a morte de grandes contingentes de indivíduos de uma espécie. Neste caso, temos um impacto num ecossistema local com repercussões a nível internacional – algo, simplesmente, trágico!

Continuaremos na próxima postagem.

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