A INTENSA DEGRADAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS NA CHINA

Poluição em rios da China

Na última postagem falamos do desaparecimento do baiji, uma simpática espécie de golfinho de água doce que era encontrada aos milhares ao longo da extensa bacia hidrográfica do rio Yangtzé, na China. Desde 2006, nenhum indivíduo da espécie voltou a ser avistado nas águas desse rio e desde 2007, o baiji vem sendo considerado tecnicamente extinto. Entre as principais causas da extinção desse golfinho estão a caça excessiva, as mortes causadas por “atropelamentos” por embarcações e os impactos em populações por causa da construção de barragens de represas. A principal causa, porém, foi mesmo a grande poluição das águas do rio Yangtzé

A China é o país mais populoso do mundo – 21% da população mundial é composta por chineses, o que representa um total de 1,4 bilhão de pessoas. Apesar dessa formidável população, o território chinês possui apenas 7% dos estoques de água doce do planeta. Para efeito de comparação, o Brasil, que tem um território um pouco menor do que a China e uma população 6,6 vezes menor, possui 12% das reservas de água doce do planeta.  

Como se a carência de água já não fosse um problema colossal para o país, na China, assim como no Brasil, também existe um enorme desequilíbrio regional na disponibilidade de água – o Norte da China é bastante árido (se vocês se lembram das aulas de geografia, é lá onde encontramos o Deserto de Gobi), concentrando 42% da população e apenas 14% das reservas de água do país: seria algo como imaginarmos a região do Semiárido brasileiro com uma população 12 vezes maior.  

O aumento da disponibilidade de recursos hídricos em algumas regiões da China é uma das grandes prioridades do Governo. Um dos maiores projetos de infraestrutura em andamento no país é a construção de um sistema com 2.500 km de canais, que permitirão a transposição de mais de 40 bilhões de metros cúbicos de água/ano do rio Yangtzé para as regiões do Norte do País. Os investimentos previstos são de US$ 62 bilhões, divididos em três fases e com previsão de conclusão para o ano de 2050. 

Apesar dos históricos problemas de disponibilidade e distribuição da água, o fabuloso crescimento econômico da China se deu a partir da apropriação de uma grande parcela da água disponível e, muito pior, poluindo rios e fontes de água da forma mais selvagem possível. Até o ano de 1980, a demanda de água pelo setor industrial era de apenas 7% das reservas disponíveis – nos dias atuais, essa demanda subiu para 25%.  

Os esgotos domésticos e industriais lançados nos corpos d’agua do país cresceram em proporções ainda maiores – calcula-se que entre 60 e 70% dos rios chineses estão poluídos, com níveis de poluição que transformam os poluídos rios brasileiros em “regatos das montanhas”. Um relatório oficial do governo chinês, divulgado em 2012, informava que “cerca de 40% dos rios chineses estão seriamente poluídos” e “20% estão tão poluídos que suas águas são tóxicas e impróprias ao contato humano”.  

A demanda cada vez maior de água por parte das indústrias está gerando um problema, bastante conhecido por todos nós, que é a superexploração das fontes de água. Um grande exemplo deste problema pode ser observado no rio Hai, o terceiro maior rio do país – dados do ano de 2007 indicavam que o rio tinha a capacidade para fornecer 17,3 bilhões de metros cúbicos por ano – a retirada de águas neste mesmo rio em 2007 contabilizou um total de 26 bilhões de litros de água.

Isso significa que todos os demais usos das águas do rio foram comprometidos – navegação, irrigação, diluição de poluentes, vida aquática e preservação da paisagem. Sobrou apenas um leito seco com um filete de água correndo no talvegue, a parte mais baixa do canal. 

Os dois maiores rios da China, o Yangtzé (rio Azul), com 6.300 km de extensão, e o Huang He – também conhecido como Huang Ho (rio Amarelo), com 5.464 km de extensão, apresentam altos níveis de poluição, porém estão muito longe dos níveis encontrados em rios menores. As grandes fontes de poluição destes dois rios são as indústrias dos setores petroquímico e químico – existem cerca de 10 mil indústrias na bacia hidrográfica do rio Yangtzé e outras 4 mil no rio Huang He, que se instalaram e se expandiram em uma época em que tudo era permitido por conta do intenso crescimento econômico da China.  

Existe, porém, limite para tudo até mesmo na China. De alguns poucos anos para cá, a política ambiental chinesa sofreu uma verdadeira guinada e, gradativamente, estão sendo implantadas leis e normas ambientais para controlar e reverter esta situação caótica. A China é hoje o país líder na emissão de Certificações Ambientais da Série ISO 14001. Infelizmente, essa guinada demorou muito para acontecer e serão necessárias várias décadas para se reverter o estrago já feito nos rios e demais corpos d’água do país. 

O descaso com os rios é sistemático no país – a curiosa foto abaixo mostra o rio Yantzé com águas completamente vermelhas após um vazamento de produtos em uma indústria química na região de Xangai, cidade símbolo do desenvolvimento econômico da China, em 2017. Em um outro caso, esse ocorrido em 2013, as autoridades ambientais começaram a observar um grande volume de carcaças de porcos descendo o rio Yangtzé na direção de Xangai. Ao longo de várias semanas, foram retiradas cerca de 20 mil carcaças das águas do rio.  

Rio Yangtzé em Xangai

Investigações posteriores revelaram que um surto viral atingiu as fazendas de uma importante região agropecuária do país e os produtores não pensaram duas vezes – jogaram os animais mortos nas águas do Yangtzé. Isso demonstra que não bastam mudanças na legislação ou a obrigatoriedade de as empresas implantarem sistemas de gestão ambiental – será necessária uma radical mudança no comportamento das populações, algo que não é nada fácil. 

A poluição dos rios chineses tem também alguns aspectos que fogem completamente de tudo o que nós ocidentais estamos acostumados. Falo aqui do expressivo aumento do número de corpos humanos que estão sendo encontrados boiando nos rios. O caso em questão não envolve o assassinato de pessoas e o descarte dos corpos – representa o aumento do número de suicídios no país.  

Na China estão sendo registrados 200 mil suicídios por ano, um dos maiores valores absolutos em termos mundiais (em termos percentuais, em razão da grande população do país, o número não é tão expressivo). Cerca de 80% destas mortes ocorrem nos rios (pessoas que se jogam de pontes, por exemplo) e, curiosamente, dois terços dos suicidas são mulheres. A quantidade de corpos humanos flutuando nos grandes rios atingiu números tão assombrosos que acabou por levar à criação de uma nova profissão entre os chineses: os pescadores de corpos.  

Muitos destes profissionais, inclusive, são funcionários públicos das prefeituras ribeirinhas e trabalham por razões humanitárias. Existem também os trabalhadores da “iniciativa privada” que tem uma outra motivação – ao “pescar” um corpo no rio, esses profissionais tentam localizar a família do morto, objetivando receber alguma recompensa pelo “importante trabalho”. Conforme comentei na última postagem, muitos ex-pescadores, que perderam sua fonte de renda devido a poluição das águas dos rios, passaram a exercer esse trabalho um tanto repugnante para a maioria de nós. 

A situação atual dos rios chineses lembra muito a antiga realidade da cidade de Cubatão, na Baixada Santista – litoral do Estado de São Paulo. Entre as décadas de 1960 e 1980, Cubatão recebeu os títulos nada honroso de “cidade mais poluída do mundo” e “vale da morte”. O rio Cubatão, principal corpo d’água daquele município, foi transformado em uma vala de águas mortas e altamente poluídas. A partir de meados da década de 1980, quando as Autoridades Estaduais assumiram o compromisso de reverter a situação caótica de Cubatão, as coisas começaram a mudar para melhor. Atualmente, mais de 95% das fontes de poluição já foram controladas e a cidade virou sinônimo de preservação ambiental. 

A China precisa, desesperadamente, de uma guinada ambiental como essa. 

4 Comments

  1. Esse texto traz alguns que merecem reflexões.
    1. Poluição dos rios em função da quantidade de comida necessária pra alimentar tanta gente, ao mesmo tempo que o governo pressiona pra exportação.
    2. Os peixes pescados nesses esgotos eu duvido que são descartados.
    3. O suicídio tem muitas razões pra ocorrer. Em se falando em mulheres será que a violência doméstica não é alta? Como é tudo velado naquele país, ficaremos com essa dúvida. Os homens: será que tem relação com opção sexual? Também será incógnita.
    4.O mundo quer a produção, o produto barato, descartável, o último celula. O preço é alto pra população chinesa.
    Agora, resolveram correr atrás do prejuízo ambiental. Energia solar entre outras ações, como eles são muito disciplinados farão de forma rápida. Mas, qual será o próximo preço a pagar?

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