OS “PESCADORES DE CORPOS” NA CHINA, OU POR QUE TANTA PREOCUPAÇÃO COM A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS?

Poluiçao dos rios na China.jpg

A cena inicial do filme “Império do Sol”, produção de Steven Spielberg de 1987, é das mais intrigantes – caixões flutuando no mar são abalroados por um navio de guerra da Marinha Japonesa, tendo como fundo a música Suo Gân, uma tradicional canção de ninar em língua galesa. Confesso que já realizei diversas pesquisas para entender a cena – a resposta mais plausível que consegui encontrar (podem existir outras respostas melhores, mas é importante lembrar que o regime comunista que dirige a China desde os anos de 1940 sempre fez um grande esforço para esconder os “podres” da sua história) afirma que, após a invasão japonesa na Manchúria na Segunda Guerra Mundial, os chineses da região passaram a enfrentar enormes dificuldades para viajar de uma cidade para outra; muitos cidadãos que morreram em Xangai na época, não puderam ser transportados para as cidades de origem para serem velados e enterrados por seus amigos e familiares – a solução encontrada era lançar os caixões nas águas do rio Yangtzé para assim fazerem a “viagem final”.

Sempre que eu leio ou escrevo alguma coisa sobre o problema dos recursos hídricos na China, essa cena deste filme me veem à memória instantaneamente – os problemas relacionados à disponibilidade e à poluição das águas neste país são simplesmente trágicas. Vale a pena analisarmos estes problemas lá do outro lado do mundo para percebermos quão trágica poderá se tornar essa questão aqui no Brasil, caso não sejam tomadas medidas para reverter a situação de poluição generalizada que começa a tomar conta de grande parte dos nossos rios.

A China é o país mais populoso do mundo – 21% da população mundial é compostas por chineses, o que representa um total de 1,36 bilhões de pessoas. Apesar dessa formidável população, o território chinês possui apenas 7% dos estoques de água doce do planeta – para efeito de comparação, o Brasil, que tem um território um pouco menor do que a China e uma população 6,6 vezes menor, possui 12% das reservas de água doce do planeta. Como se a carência de água já não fosse um problema colossal para o país, na China também existe um enorme desequilíbrio regional na disponibilidade de água – o Norte da China é bastante árido (se vocês se lembram das aulas de geografia, é lá onde encontramos o Deserto de Gobi), concentrando 42% da população e apenas 14% das reservas de água do país: seria algo como imaginarmos a região do Semiárido brasileiro com uma população 12 vezes maior. Um dos grandes projetos de infraestrutura em andamento atualmente na China é a construção de um sistema com 2.500 km de canais que permitirão a transposição de mais de 40 bilhões de metros cúbicos de água do rio Yangtzé para as regiões do Norte do País. Os investimentos previstos são de US$ 62 bilhões, divididos em três fases e com previsão de conclusão para o ano de 2050.

Apesar dos históricos problemas de disponibilidade e distribuição da água, o fabuloso crescimento econômico da China se deu a partir da apropriação de uma grande parcela da água disponível e, muito pior, poluindo rios e fontes de água da forma mais selvagem possível. Até o ano de 1980, a demanda de água pelo setor industrial era de apenas 7% das reservas disponíveis – nos dias atuais, essa demanda subiu para 25%. Os despejos e poluentes lançados nos corpos d’agua do país, cresceram em proporções ainda maiores – calcula-se que entre 60 e 70% do rios chineses estão poluídos, com níveis de poluição que transformam os nossos rios mais poluídos em “regatos das montanhas”, repetindo uma expressão que usei em uma postagem anterior. Um relatório oficial do governo chinês, divulgado em 2012, informava que “cerca de 40% dos rios chineses estão seriamente poluídos” e “20% estão tão poluídos que suas águas são tóxicas e impróprias ao contato humano”.

Essa demanda cada vez maior de água por parte das indústrias está gerando um problema, bastante conhecido por todos nós, que é a superexploração das fontes de água. Um grande exemplo deste problema pode ser observado no rio Hai, o terceiro maior rio do país – dados do ano de 2007 indicavam que o rio tinha a capacidade para fornecer 17,3 bilhões de metros cúbicos por ano – a retirada de águas neste mesmo rio em 2007 contabilizou um total de 26 bilhões de litros de água. Isso significa que todos os demais usos das águas do rio foram comprometidos – navegação, irrigação, diluição de poluentes, vida aquática e preservação da paisagem – sobrou apenas um leito seco com um filete de água correndo no talvegue, a parte mais baixa do canal.

Os dois maiores rios da China, o Yangtzé (rio Azul), com 6.300 km de extensão, e o Huang He – também conhecido como Huang Ho (rio Amarelo), com 5.464 km de extensão, apresentam altos níveis de poluição, porém estão muito longe dos níveis encontrados em rios menores. As grandes fontes de poluição destes dois rios são as indústrias dos setores petroquímico e químicoexistem cerca de 10 mil indústrias na bacia hidrográfica do rio Yangtzé e outras 4 mil no rio Huang He, que se instalaram e se expandiram em uma época em que tudo era permitido por conta do intenso crescimento econômico da China. Nos últimos anos, a política ambiental chinesa sofreu uma verdadeira guinada e, gradativamente, estão sendo implantadas leis e normas ambientais para controlar e reverter esta situação caótica. A China é hoje o país líder na emissão de Certificações Ambientais da Série ISO 14001.

A questão da poluição das águas, entretanto, está muito longe de uma solução. Um caso recente ilustra didaticamente o problema: em 2013, as autoridades ambientais começaram a observar um grande volume de carcaças de porcos descendo o rio Yangtzé na direção da importante Xangai, cidade símbolo do desenvolvimento econômico da China. Ao longo de várias semanas, foram retiradas cerca de 20 mil carcaças das águas do rio. Investigações posteriores revelaram que um surto viral atingiu as fazendas de uma importante região agropecuária do país e os produtores não pensaram duas vezes – jogaram os animais mortos nas águas do Yangtzé.

Existe, porém, uma face muito mais trágica e teneborosa da poluição dos rios chineses: é o expressivo aumento do número de corpos humanos que estão sendo encontrados boiando nos rios. O caso em questão não envolve o assassinato de pessoas e o descarte dos corpos – representa o aumento do número de suicídios no país. Na China estão sendo registrados 200 mil suicídios por ano, um dos maiores valores absolutos em termos mundiais (em termos percentuais, em razão da grande população do país, o número não é tão expressivo). Cerca de 80% destas mortes ocorrem nos rios (pessoas que se jogam de pontes, por exemplo) e, curiosamente, dois terços dos suicidas são mulheres. A quantidade de corpos humanos flutuando nos grandes rios atingiu números tão assombrosos que acabou por levar à criação de uma nova profissão entre os chineses: os pescadores de corpos. Muitos destes profissionais, inclusive, são funcionários públicos das prefeituras ribeirinhas e trabalham por razões humanitárias. Os trabalhadores da “iniciativa privada” tem uma outra motivação – ao “pescar” um corpo no rio, esses profissionais tentam localizar a família do morto, objetivando receber alguma recompensa pelo “importante trabalho”.

Esta rápida incursão nos problemas de abastecimento e poluição das águas na China nos dá uma clara ideia da falta de limites do ser humano quanto o assunto é o desenvolvimento econômico às custas da destruição da natureza. Você pode até imaginar que coisas deste tipo nunca irão acontecer aqui no Brasil – ao contrário, já aconteceram e um dos maiores exemplos é a cidade de Cubatão, no litoral de São Paulo: nas décadas de 1970 e 1980, a cidade chegou a ser considerada a mais poluída do mundo e recebeu o trágico apelido deVale da Morte”. Felizmente, a situação foi revertida e 95% das fontes de poluição em Cubatão se encontram hoje sob controle.

A história da humanidade , porém, tem mania de repetir os acontecimentos do passado…

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