CUBATÃO: O “VALE DA MORTE”

Cubatão

O município de Cubatão fica na região da Baixada Santista, no litoral Sul do Estado de São Paulo. Para quem é de outro Estado, esta região vai do município de Bertioga, ao Norte, até Peruíbe, ao Sul, com a cidade de Santos e seu famoso Porto como área central. Cubatão é o único município da região que não tem fachada oceânica, ficando espremido entre a Serra do Mar e o estuário de Santos. O Rio Cubatão é o mais importante da região, ligando o município ao Oceano Atlântico.

Entre os anos de 2007 e 2009 trabalhei em obras de implantação de sistemas de coleta e tratamento de esgotos na Região da Baixada Santista, tendo inclusive trabalhado na cidade de Cubatão. Certo dia, acompanhando obras no Jardim Casqueiro, um tradicional bairro da cidade, ouvi histórias muito interessantes sobre o rio Cubatão, contadas por um antigo morador do bairro – segundo esse senhor, até o final da década de 1950, o rio era refúgio de golfinhos com filhotes pequenos, que encontravam abrigo na região do estuário do rio.

No Jardim Casqueiro, de frente para o rio Casqueiro (um dos braços do rio Cubatão na região do delta no estuário de Santos), existe uma praça onde a antiga população do lugar se reunia para admirar esses golfinhos. Com o passar dos anos, a poluição nas águas do rio começou a ficar intensa e os golfinhos nunca mais voltaram. Antes de contarmos a triste história do rio Cubatão, precisamos entender a tragédia que se abateu sobre o município de Cubatão que, na década de 1980, foi considerada a cidade mais poluída do mundo e ganhou o sinistro apelido de “Vale da Morte”.

Quem acompanha as minhas postagens, vai se lembrar que em meados da década de 1930 foi inaugurado o Complexo Billings / Usina Hidrelétrica de Cubatão, rebatizada posteriormente como Usina Henry Borden. A eletricidade gerada por este Complexo foi uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento econômico da Região Metropolitana de São Paulo ao longo de um período de 70 anos.

Com a farta disponibilidade de energia elétrica e de água, a localização estratégica distante apenas 12 km do Porto de Santos e 47 km da cidade de São Paulo e a facilidade de acesso à Região Metropolitana de São Paulo e ao interior do Estado através da malha ferroviária e pela Rodovia Anchieta (acesso melhorado anos mais tarde com a construção da Rodovia dos Imigrantes), a cidade de Cubatão se transformou rapidamente no maior polo industrial do país, englobando empresas dos setores petroquímico, siderúrgico, químico e de fertilizantes, com destaque para a Refinaria Arthur Bernardes da Petrobras e a COSIPA – Companhia Siderúrgica Paulista.

Sem entrarmos em maiores detalhes, é bastante fácil perceber que estas indústrias lidam com matérias primas e produtos altamente poluentes e foram implantadas na região de Cubatão numa época em que não existiam maiores preocupações com a poluição do ar, da água e dos solos; ao contrário, vivíamos na época do desenvolvimento a qualquer custo, cujo ápice foi a era do chamado “Milagre Econômico Brasileiro” no início da década de 1970.

Para que todos tenham ideia do grau de degradação ambiental que atingiu o município, um levantamento sobre a poluição do ar, realizado no início da década de 1980, detectou o lançamento de aproximadamente 1.300 toneladas de poluentes particulados e gasosos na atmosfera a cada dia, emitidos pelas empresas instaladas em Cubatão. Foram identificadas no total 230 fontes primárias de poluição do ar. Diversos terrenos do município foram transformados em aterros para o descarte de todos os tipos de resíduos químicos gerados pelas empresas da região, resíduos estes que infiltravam no solo e contaminavam os lençóis subterrâneos de água, se somando com os despejos de efluentes industriais lançados nas fontes de água da região e que tinham o rio Cubatão como destino final – o estuário do rio, que forma um imenso delta coberto por extensos manguezais, recebia toda essa carga de poluentes e, lentamente, lançava estas águas na direção do Oceano Atlântico, atingindo com grande intensidade as regiões de Santos, São Vicente, Bertioga e Guarujá. Observe que o apelido de “Vale da Morte” dado a região tem razões de sobra.

Eu tenho duas lembranças marcantes dessa época “negra” de Cubatão – da infância, quando fazíamos viagens em família até a praia, obrigatoriamente tínhamos de cruzar o município de Cubatão – era comum sentir dificuldades respiratórias e/ou mal-estar ao se atravessar a grossa camada de poluição que envolvia a rodovia logo ao se chegar na Baixada Santista (a foto que ilustra este post é de uma matéria de jornal da época – mostra algo que parece neblina, mas que na verdade era a camada de poluição que encobria toda a cidade).

Em outra ocasião, já trabalhando como office boy aos quinze ou dezesseis anos de idade, tive de ir até um cartório nesta cidade. Enquanto andava pela região central, começou a chover forte repentinamente e tive de me abrigar num bar – conforme as águas da enxurrada avançavam rumo as galerias de águas pluviais, milhares de baratas eram desalojadas de suas tocas e avançavam na direção das lojas em busca de abrigo: o bar em que me encontrava ficou cheio destes insetos, para desespero das dezenas de pessoas que tiveram a mesma ideia de se abrigar por lá. Confesso que nunca tinha tido medo de baratas até a “praga bíblica” destes insetos naquele dia…

Isto é só o começo da história trágica de Cubatão e do seu rio – continuaremos no nosso próximo post.

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