DELTA DO MEKONG: DOS LUSÍADAS À SALINIZAÇÃO DOS ARROZAIS

Arrozais no Vietnã

Há uma surpreendente ligação entre o Mekong, o maior rio do Sudeste asiático, e os Lusíadas, o grande poema épico que narra a saga dos navegadores portugueses pelo mundo – o navio em que o poeta Luís Vaz de Camões viajava naufragou na região do delta do rio Mekong por volta de 1565, quando fazia uma viagem de Macau para Goa. Reza uma lenda, bastante contestada pelos historiadores, que foi durante esse naufrágio que Camões teve de tomar uma difícil decisão – salvar o manuscrito dos Lusíadas, obra que estava sendo escrita há vários anos, ou salvar Dinamene, a jovem amante chinesa do poeta. Camões escolheu salvar seus manuscritos e passou meses vivendo como um náufrago no delta do rio Mekong, até conseguir ser resgatado.  

O delta do rio Mekong é, desde a antiguidade, um importante entreposto comercial e cultural do Sudeste asiático. O rio Mekong é a mais importante via navegável da região e sempre ocupou uma posição de destaque nas comunicações e transportes entre os antigos reinos do Sião (atual Tailândia), Laos e Camboja com a China, Malásia, Indonésia e outras nações da região. A excepcional fertilidade das terras do delta transformou a região num dos mais importantes polos de produção de arroz, o alimento mais consumido pelas populações do extremo oriente. O delta do rio Mekong sempre se destacou também na produção de pescados, especialmente do peixe-gato e de camarões. 

As formações conhecidas como delta são encontradas normalmente na foz de rios de planície, onde as águas se dividem em vários braços ou canais antes do encontro com as águas de um lago, rio ou oceano. Devido à baixa declividade dos terrenos, as regiões dos deltas favorecem o acúmulo de sedimentos carreados pelos rios, o que leva a formação de ilhas. O delta do rio Mekong, que ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², equivalente a duas vezes o território do Estado de Sergipe, possui aproximadamente 4 mil ilhas e 3.200 km de canais. Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes

As áreas deltaicas são, desde tempos imemoriais, importantes centros habitacionais – a grande disponibilidade de águas, terras férteis e alimentos (peixes, crustáceos e outros animais) sempre funcionaram como um atrativo para as antigas populações nômades, que graças a este conjunto de características, se transformaram em sedentárias. Exemplos são os deltas dos rios Nilo, Reno, Danúbio, Ganges, IndusMississipi, Jacuí, ParanáAmazonas. Enquanto as águas dos grandes rios fluírem, as áreas dos deltas se manterão como importantes áreas de vida natural e humana – essa é, justamente, a grande ameaça que paira sobre o delta do rio Mekong

A implantação de grandes complexos geradores de energia elétrica – são três já construídos e um em construção no alto rio Mekong em território chinês, além de uma dúzia de outros empreendimentos em fase de estudos ao longo do curso do rio na Tailândia, no Camboja e no Laos, poderão comprometer, irremediavelmente, a sobrevivência da região do delta no Vietnã. 

As regiões deltaicas são o resultado de um longo e contínuo conjunto de processos naturais: transporte e acumulação de sedimentos, fluxo de águas dos rios, regime de chuvas e de temperaturas da região, além das formações vegetais que surgiram gradativamente e que ajudaram na fixação dos sedimentos e formação das ilhas. Esse novo meio ambiente passa a atrair os mais diferentes tipos de vida animal, que se adaptam e se especializam para viver nesses locais. Esse é um processo que se desenrola em milhares, ou até milhões de anos, e que se mantém em constante evolução. Qualquer alteração nos volumes de água que chegam na região do delta, podem alterar o frágil equilíbrio do ecossistema – a redução dos caudais de água doce tem como consequência direta o avanço da água do mar na direção dos canais. 

salinização das águas interiores da região de um delta impacta diretamente na vida animal e vegetal – espécies adaptadas à água doce são obrigadas a recuar na direção de áreas mais internas do continente, enquanto espécies adaptadas às águas salobras e salgadas ocuparão nichos dentro do território, Um exemplo são as formações de manguezais, tipo de vegetação adaptada a ambientes de água salobra que, encontrando condições propícias, passarão a competir, e com grande vantagem, com as espécies vegetais de água doce. Essa mudança na composição vegetal e nas águas também terá todo tipo de reflexos nas populações animais, atingindo aves, mamíferos, répteis, peixes, crustáceos e insetos, além é claro das populações humanas. 

As gigantescas plantações de arroz da região do delta do rio Mekong, que fazem do Vietnã o terceiro maior produtor mundial do grão, rapidamente entrarão em colapso – o grão não se adapta a água salobra. Toda a economia do país, que depende da exportação do arroz para gerar recursos em moeda estrangeira, poderá ir à bancarrota em poucos anos. O abastecimento de água de milhões de pessoas ficará imensamente prejudicado – sem o trabalho na agricultura (vide foto) e sem água para suprir suas necessidades básicas, milhões de vietnamitas serão obrigados a migrar para outras regiões, especialmente para as áreas urbanas. As perspectivas futuras para a região não são nada boas. 

Lamentavelmente, nada disso é especulação – a se manterem os projetos de todas essas usinas hidrelétricas, bastará pouco mais de uma década para essas projeções sombrias se tornarem uma cruel realidade. 

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